Ano C – Santíssima Trindade

1ª Leitura: Prov 8, 22-31;
Salmo: Sl Sal 8, 4-5. 6-7. 8-9;
2ª Leitura: Rom 5, 1-5;
Evangelho: Jo 16, 12-15.

Depois da celebração do mistério pascal, local por excelência onde Deus se revela, celebramos neste Domingo a Solenidade da Santíssima Trindade. A presente solenidade foi introduzida pelo Papa João XXII, em 1334, e pretende ser a ocasião propícia para reflectirmos no mistério central e específico da fé cristã: a Santíssima Trindade. Os cristãos, como os hebreus e os muçulmanos, professam a sua fé em um só Deus, ou seja, são monoteístas. No entanto, a fé cristã, diferentemente dos hebreus e muçulmanos, professa a unicidade de Deus “não na unidade de uma só pessoa, mas na trindade de uma só natureza” (prefácio). Este mistério de um só Deus em três pessoas chama-se mistério da Santíssima Trindade. Na verdade, “a Igreja exprime a sua fé trinitária confessando um só Deus em três Pessoas: Pai e Filho e Espírito Santo. As três Pessoas divinas são um só Deus, porque cada uma delas é idêntica à plenitude da única e indivisível natureza divina. Elas são realmente distintas entre si, pelas relações que as referenciam umas às outras: o Pai gera o Filho, o Filho é gerado pelo Pai, o Espírito Santo procede do Pai e do Filho” (Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, 48).

No entanto, e apesar de a fé da Igreja professar correctamente a fé trinitária, será que o mistério trinitário foi verdadeiramente assimilado pelos cristãos? Não deixa de ser sintomática a seguinte observação de Karl Rahner. Referindo-se aos cristãos, ele afirma que “não obstante a sua exacta profissão da Trindade, sejam quase só ‘monoteístas’ na prática da sua vida religiosa. Pode-se arriscar a afirmação de que, se se devesse suprimir, como falsa a doutrina da Trindade, mesmo após essa intervenção, grande parte da literatura religiosa poderia permanecer quase inalterada… Pode-se suspeitar que para o catecismo da mente e do coração (diferentemente do catecismo impresso), a representação da encarnação por parte do cristão de forma alguma deveria mudar, se não houvesse a Trindade”. Assim sendo, e para evitar perigos deste género a presente solenidade deve ajudar-nos a compreender e a professar melhor o mistério trinitário.

No entanto, como podemos compreender melhor este mistério trinitário, este mistério de um só Deus em três pessoas? Partindo da definição que São João nos oferece de Deus, “Deus é amor” (1 Jo 4, 16), e usando a analogia da caridade de Santo Agostinho podemos dizer que Trindade é constituída por três: o Amante, o Amado e o Amor recebido e dado, ou seja, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. 

O Pai é a fonte do amor. É Ele que nos ama desde sempre e entregou o seu Filho à morte por todos nós. É o Pai que começa sempre amar e não precisa de nenhum motivo para isso. “Deus não nos ama porque somos bons e bonitos; Deus torna-nos bons e belos porque nos ama” (S. Bernardo). O amor do Pai, gratuito e infindável, é o que nos torna capazes de amar. É Ele que nos contagia o seu amor. 

Se o Pai é o eterno Amante, o Filho é o eterno Amado, aquele que desde sempre se deixou amar. O Filho mostra-nos que não só a gratuidade é divina mas também a gratidão, o deixar-se amar. O Filho é o acolhimento puro, é aquele que desde sempre disse sim ao amor do Pai. Não basta amar, é preciso deixar-se amar. Só seremos imagem do Filho na medida em que sabemos acolher os outros. Na verdade, quando não se acolhe o outro, não se acolhe Deus. 

O Espírito é o vínculo do amor que une o Amante e o Amado. É por isso que quando recebemos o Espírito somos capazes de nos unir a Deus e aos irmãos. O Espírito é o êxtase de Deus. O Espírito não só une o Amante e o Amado. É o Espírito que leva Deus a sair de si mesmo. O Espírito é a liberdade e o dom do amor divino. É por isto que, quando abrimos o nosso coração ao Espírito, somos impelidos à missão porque não podemos guardar só par nós o dom do amor com que somos amados. E é neste eterno evento de amor que tem lugar a unidade divina, o recíproco inabitar-se das três pessoas no amor. 

Tal unidade e distinção em Deus também se manifesta na actuação da Santíssima Trindade. Na verdade, “inseparáveis no que são, as pessoas divinas são também inseparáveis no que fazem. Mas, na operação divina única, cada uma manifesta o que Lhe é próprio na Trindade, sobretudo nas missões divinas da Encarnação do Filho e do dom do Espírito Santo” (Catecismo da Igreja Católica, 267). Assim sendo, apesar da criação, da redenção e da santificação serem obra comum da Santíssima Trindade, podemos atribuir, por apropriação, cada uma destas obras a cada uma das pessoas divinas: o Pai é o criador, o Filho é o redentor e o Espirito Santo é o santificador. As leituras proclamadas neste Domingo ajudam-nos a compreender melhor esta realidade. 

A primeira leitura, retirada do livro dos Provérbios, convida-nos a contemplar Deus Pai como o criador e a acreditar que Deus fez tudo com sabedoria e amor. A nossa leitura começa por afirmar que a Sabedoria foi a primeira das obras de Deus e que teve um papel importante na obra da criação. Assim sendo a presente leitura garante que “a criação saiu das mãos de um Pai providente e sábio; durante toda a sua actividade Ele sempre foi assistido pela Sabedoria; a criação responde a um projecto de amor, mesmo se a inteligência do homem nem sempre o consegue entender ” (F. Armellini). 

A fé cristã no Deus que tudo criou com sabedoria e amor é muitas vezes contestada com a presença do mal. Se Deus é o criador bom e sábio porque existe o mal? Esta contestação apesar de ter de ser levada a sério não deve abalar a fé no Deus criador, bom e sábio. Na verdade, não foi Deus que fez o mal. O mal é uma consequência do mau uso da liberdade do homem. No entanto, Deus não abandona o homem pecador mas a todos quer salvar e libertar do poder do mal. Assim sendo, o Pai na plenitude dos tempos envia o Filho para nos salvar. É exactamente da obra da redenção realizada pelo Filho que nos fala a segunda leitura deste Domingo retirada da epístola do Apóstolo São Paulo aos Romanos. Paulo afirma que “tendo sido justificados pela fé, estamos em paz com Deus, por Nosso Senhor Jesus Cristo”. Através de Jesus, Deus Pai concede-nos a salvação que tem como frutos a paz, a esperança e o amor de Deus ao homem. Foi por meio de Jesus que fomos introduzidos numa nova relação com Deus. A justificação realizada por Cristo elimina a ruptura da relação entre Deus e o homem causada pelo pecado. Através da obra redentora de Jesus, o homem volta à comunhão com Deus. 

Por sua vez, o evangelho deste Domingo refere-se a acção do Espírito Santo santificador na vida da Igreja. No contexto da última ceia, Jesus promete o Espírito Santo aos seus discípulos. No evangelho deste Domingo, Jesus chama o Espírito Santo de “Espírito da verdade”, porque será o Espírito Santo que conduzirá a Igreja para a verdade plena. “Depois da partida de Jesus deste mundo, o Espírito terá a missão de introduzir os crentes na compreensão plena da verdade, de fazer penetrar o discípulo no mistério do Filho e da sua obra, de o admitir ao conhecimento profundo da fé, possível somente à luz do acontecimento pascal” (Gérard Rossé). 

Ao terminarmos esta nossa reflexão podemos pensar que a fé trinitária seja algo meramente especulativo e não tenha nenhuma incidência pratica na nossa vida. Se assim pensamos estamos muito equivocados pois à fé trinitária nós temos de responder com o “Amen vitae”, o Ámen da vida (Bruno Forte). A fé no Deus uno-trino tem consequências na nossa vida pessoal, eclesial e social. Na verdade, quem acredita no Deus trinitário que é mistério de comunhão está chamado a contemplar o Deus uno e trino, a entrar nesse mistério de amor e a revelar ao mundo, através da sua vida pessoal, comunitária, familiar e eclesial, o Deus Amor. “Em cada cristão deve-se reconhecer o rosto de Deus que é Pai, Filho e Espírito. Imagem visível da Trindade deve ser a Igreja que tudo recebe de Deus e tudo gratuitamente dá, que está completamente, orientada, como Jesus, para os irmãos, numa atitude de disponibilidade incondicional. Nela a diversidade não se elimina em nome da unidade, mas considera-se um enriquecimento. Deve-se poder ver a marca da Trindade nas famílias que se tornam sinal de um autêntico diálogo de amor, de entendimento reciproco e de disponibilidade a abrir o coração a quem precisa de se sentir amado” (F. Armellini).

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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