Ano C – Solenidade da Assunção da Virgem Maria

1ª Leitura: Ap 11, 19a; 12, 1-6a. 10ab;
Salmo: Sl 44, 10. 11. 12. 16;
2ª Leitura: 1 Cor 15, 20-27;
Evangelho: Lc 1, 39-56.


“Bendita és tu entre as mulheres!”

Celebramos hoje a Solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria. Nesta celebração a luz da Páscoa de Cristo resplandece de uma forma especial porque Maria que sempre esteve unida à pessoa e a obra de Cristo Salvador participa do triunfo glorioso de Cristo, ou seja, Nossa Senhora tem uma participação singular na Ressurreição de Cristo e antecipa a ressurreição dos cristãos.

Celebrar a Assunção de Nossa Senhora outra coisa não é do que proclamar a nossa fé na Ressurreição de Cristo que vence a nossa morte e encher-nos de esperança, porque uma mulher da nossa raça, a Mãe da Igreja, foi elevada ao céu como aurora e imagem da Igreja triunfante.

A Assunção de Nossa Senhora em corpo e alma aos céus é um dos quatro dogmas marianos (Maternidade Divina, Virgindade, Imaculada Conceição e Assunção aos Céus) que a Igreja professa e celebra. 

Se os dois primeiros dogmas marianos, Virgindade e Maternidade Divina (definido no Concílio de Éfeso em 431) são uma manifestação da verdade cristológica, os dogmas da Imaculada Conceição (Pio IX, 1854) e da Assunção de Nossa Senhora são uma manifestação da verdade antropológica em chave teológica. 

No dia 1 de Novembro de 1950, Pio XII publicou a constituição apostólica Munificentissimus Deus com a qual definia o dogma da Assunção de Nossa Senhora. Exprime-se nestes termos o referido documento: «Pela autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados apóstolos Pedro e Paulo e pela nossa própria autoridade, nós afirmamos, nós declaramos e nós definimos como um dogma divinamente revelado que a Imaculada Mãe de Deus, Maria sempre Virgem, após ter terminado o percurso da sua vida terrestre, foi elevada em corpo e alma a glória celeste». 
Apesar do dogma da Assunção só ter sido proclamado no século XX, ele proclama uma fé que já há muito tempo e universalmente era professada pela Igreja. Na verdade, desde os primeiros séculos que a Igreja do oriente celebrava a passagem de Maria à vida em Deus com a festa da «Dormição de Maria». Passado algum tempo também a Igreja do ocidente passou a celebrar este acontecimento com a festa da «Assunção de Maria».

O dogma da Assunção de Nossa Senhora exprime a antropologia optimista do catolicismo e a importância da mediação da Igreja como actualização da única mediação de Cristo frente ao pessimismo das Igrejas reformadas que acentuam o absoluto primado de Deus na salvação e rejeitam toda a mediação humana. 

Maria não é auto-referencial. Ela não se justifica a si própria. Maria é uma realidade complexa que só se pode dizer nas suas conexões. Ela só se pode dizer em relação à Trindade e à Igreja. Ela é Filha de Deus, Mãe de Cristo, Esposa do Espírito Santo e Mãe da Igreja. Como fragmento no todo e o todo no fragmento, Maria é a “micro-história” da Salvação, o Mistério da Salvação “concentrado”, como uma “Suma Teológica mínima”. Maria é a mulher ícone do mistério. 

Quando queremos celebrar nossa Senhora nunca a celebramos sozinha. Toda a vida de Maria faz referência a Deus, a Cristo e a comunidade dos discípulos, a Igreja. Assim sendo, a solenidade da Assunção da Virgem Santíssima ao céu possui uma dimensão teológica, cristológica e eclesiológica que as leituras deste dia nos ajudam a compreender. 

– Celebrar a Assunção de Maria é celebrar as Maravilhas que Deus operou na sua vida!

No evangelho desta celebração escutamos aquela saudação que ainda hoje todos nós dirigimos a Nossa Senhora: “Bendita és tu entre as mulheres!”. Todos nós reconhecemos o papel importante que Maria desempenha na história da salvação. No entanto, podemos perguntar-nos de onde advém essa importância. A grandeza de Maria aponta para Deus que a escolheu e a predestinou desde o seio materno. Maria, na continuidade da tradição do seu povo, está consciente disto. Ela sabe que é aquilo que é porque o Espírito Santo veio sobre ela e a sombra do altíssimo a cobriu. É este o sentimento que leva a Maria a cantar de alegria as maravilhas que Deus realiza na sua vida e na história do seu povo. “A Minha alma glorifica o Senhor, porque pôs os olhos na humildade da sua serva”. Ela sabe que é aquilo que é porque Deus pôs olhos na humildade da sua serva. É essa mirada benevolente de Deus sobre ela que a encheu de graça e a escolheu na sua misericórdia. Maria apresenta-se em relação a Deus. No entanto, a Graça de Deus não a dispensou da sua liberdade. Com atitude de fé ela entregou-se toda a Deus. Esta entrega que nasce da obediência da fé não a afastou da sua auto-realização pessoal e da felicidade. Na verdade, foi o sim de Maria aos planos de Deus que lhe permitiu ser a bendita entre as mulheres. Só quando correspondemos a Deus que nos visita com a sua graça é que encontramos a realização plena. Maria é a Bendita porque é a toda de Deus. 

– Celebrar a Assunção de Nossa Senhora é celebrar Cristo, o primogénito dentre os mortos. 

O apóstolo Paulo no capítulo XV da sua carta aos coríntios oferece-nos uma reflexão aprofundada sobre a ressurreição. Depois de ter afirmado que Jesus morreu pelos nossos pecados, foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia e apareceu a diversas testemunhas, o apóstolo Paulo afirma com vigor que se Cristo ressuscitou também nós ressuscitaremos. 

Na verdade, nós ressuscitaremos porque Cristo ressuscitou (causa eficiente), à imagem de Cristo ressuscitado (causa exemplar) e como membros do corpo ressuscitado de Cristo. Cristo é o primogénito de entre os mortos.  

No texto proclamado nesta celebração o apóstolo Paulo apresenta-nos uma genealogia da ressurreição e uma ordem de prioridade na participação deste mistério. O primeiro a ressuscitar como primícias da nova humanidade ressuscitada foi Cristo. Assim sendo, ao celebrarmos a Assunção de Maria estamos a celebrar uma forma privilegiada de ressurreição que tem a sua origem em Cristo e que manifesta o aparecimento, em Cristo, de uma nova humanidade. 

Na verdade, para nos referirmos a assunção de Nossa Senhora usamos a fórmula passiva “foi elevada” e não a fórmula activa que usamos no credo para nos referir a ascensão de Cristo: “subiu aos céus”. Não podemos confundir a assunção de Maria com a ascensão de Cristo.

– Celebrar a Assunção de Nossa Senhora é celebrar a dimensão Pascal da Igreja. 

Com uma linguagem simbólica que se serve das imagens de animais terrificantes para designarem os perseguidores, o autor do livro do Apocalipse, a uma comunidade que sofre duras perseguições, quer transmitir a mensagem que Deus liberta os seus fiéis de todas as formas de morte. A mulher que aparece com uma coroa de 12 estrelas na cabeça foi interpretada pela tradição da Igreja como Maria a Mãe de Jesus mas também como Maria enquanto figura da Igreja. Na verdade, as doze estrelas são símbolo do povo de Deus. Assim sendo, o esplendor que envolve a mulher é símbolo da glória que depois da perseguição a Igreja terá junto de Deus.

Na verdade, a festa da assunção de Nossa Senhora é uma festa centrada na participação de Maria na vitória de Cristo ressuscitado. No entanto, este destino glorioso de Maria está intimamente ligado ao destino glorioso da Igreja porque Maria elevada aos céus é a «aurora e a imagem da Igreja triunfante, ela é sinal de consolação e esperança» (Prefácio). 

Que a celebração da Assunção de Maria aos céus nos ajude a colaborar com o projecto de Deus, reavive em nós a fé na ressurreição de Cristo e acenda a esperança feliz de que a humanidade será acolhida junto de Deus.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *