Ano C – Solenidade da Epifania do Senhor

1ª Leitura: 1Is 60, 1-6;
Salmo: Sl 71, 2. 7-8. 10-11. 12-13;
2ª Leitura: Ef 3, 2-3a. 5-6;
Evangelho: Mt 2, 1-12.

Celebramos hoje a comummente designada festa dos reis. O nome litúrgico desta festa é Epifania do Senhor. O nome da festa já indica aquilo que celebramos neste dia. 

Epifania é um termo proveniente do grego e quer dizer manifestação. O Natal do Senhor é a manifestação do amor salvador de Deus não só ao povo de Israel mas a todos os povos de todos os tempos e lugares. O coração de Deus é do tamanho do mundo. 

O evangelho deste dia apresenta-nos o relato da visita dos magos a Jesus menino e a entrega dos seus presentes: ouro, incenso e mirra. Esta é uma narração exclusiva do evangelho de infância de São Mateus. Não estamos diante de uma narração jornalística dos acontecimentos mas diante de uma catequese sobre a identidade e a missão de Jesus. Nesta catequese, Mateus serve-se de vários elementos para demonstrar que Jesus é o Messias universal e que a sua mensagem é destinada também aos pagãos e não só aos judeus.

O evangelho de Mateus começa por situar o nascimento de Jesus em Belém da Judeia. Ao colocar o nascimento de Jesus em Belém, Mateus mostra como Jesus é descendente do rei David, daquele rei de cuja descendência nasceria o messias. 

À procura do Messias vem alguns magos guiados por uma estrela. O evangelho não nos diz que eram três, que eram reis e que se chamavam Belchior, Baltazar e Gaspar. Devemos estes elementos aos evangelhos apócrifos que com a sua imaginação tentaram colmatar as lacunas informativas dos evangelhos canónicos. 

Na verdade, o evangelho de Mateus limita-se a dizer que uns magos guiados por uma estrela chegaram a Jerusalém à procura do rei dos judeus acabado de nascer. Depois de algumas indagações os magos continuaram a sua busca e reencontrando a estrela encontraram o Menino com sua mãe e ofereceram-lhe os seus presentes: ouro, incenso e mirra.

Aparecem-nos aqui alguns dados curiosos. O primeiro facto refere-se ao facto de serem magos. A língua grega com o termo magos designava várias pessoas: mágicos, feiticeiros, charlatães, sacerdotes persas, propagandistas religiosos. O importante da utilização deste termo é que também os pagãos vão à procura de Jesus. A identidade e a missão de Jesus ultrapassam as fronteiras de Israel. Jesus é aquele que vem cumprir a promessa que a primeira leitura deste dia nos anuncia. 

Tal facto ganha maior relevância quando nos damos conta que Israel, o principal destinatário das promessas de Deus, se não fosse pela intervenção dos magos não se tinha apercebido do nascimento de Jesus. O povo de Israel tinha a Sagrada Escritura que continha as promessas messiânicas de Deus. No entanto, viviam como se não possuíssem tais escrituras. Só quando os sacerdotes são interrogados é que se recordam que elas diziam que o messias devia nascer em Belém.

Além disto, se os magos procuram o rei dos judeus para o adorarem o rei Herodes e depois os seus soldados o procurarão não para o adorar mas para o matar. Desde o nascimento de Jesus se indica a rejeição de Jesus por parte dos judeus e a sua aceitação pelos pagãos. 

Outro dado curioso deste texto evangélico é a estrela. Na verdade, segundo a mentalidade dos povos antigos o nascimento de uma personagem importante era acompanhado pelo nascimento de uma nova estrela. Além disto, segundo a tradição judaica o messias seria como uma estrela que surge de Jacob. Assim sendo, os Magos, em contraposição com o Povo Judeu que possuindo as escrituras não se deu conta do nascimento de Jesus, são apresentados como pessoas atentas aos sinais de Deus e que se desinstalam da sua comodidade para irem ao encontro de Deus que vem ao seu encontro. 

Procurando o messias recém-nascido e guiados pela estrela, os magos colocam-se a caminho e encontram o menino e sua mãe. Diante do menino prostram-se, adoram-no e dos seus tesouros oferecem-lhe três presentes que indicam a identidade de Jesus. Na verdade reza assim um texto litúrgico: “Os magos do Oriente vieram a Belém para adorar o Senhor e, abrindo os seus tesouros, ofereceram-lhe presentes: ouro como a rei soberano, incenso como a Deus verdadeiro e mirra como a homem mortal”. O ouro é o símbolo por excelência da realeza. O incenso é um elemento importante no culto as divindades. A mirra é uma planta medicinal e evoca-nos os sofrimentos de Jesus durante a sua paixão e morte na Cruz. 

Assim sendo, a adoração dos magos, cumprimento dos oráculos messiânicos a respeito da homenagem que as nações prestariam ao Deus de Israel, é um texto que catequético sobre a missão e identidade de Jesus. No entanto, este texto também nos interpela sobre a forma como recebemos Jesus. 

A primeira vista salta-nos logo a diferença entre os magos e os judeus. Os magos eram pagãos mas descobrindo a estrela desinstalaram-se e vieram à procura do Messias. Por sua vez, o povo de Deus, possuidor das escrituras, não se apercebeu do nascimento de Jesus. Não basta dizer que somos cristãos. Temos de estar atentos àquilo que o concílio Vaticano II chamou os sinais dos tempos (Gaudium et Spes 4). As vezes, pessoas que estão “fora” da igreja conseguem ser mais sensíveis a estes sinais com que Deus nos fala e encontram caminhos verdadeiramente evangélicos de actuação.

Outra pergunta que nos levanta este texto é sobre as intenções com que nos aproximamos de Cristo. O texto diz-nos que Herodes também queria encontrar o menino. No entanto, as motivações que tinham eram bem diferentes daquelas dos magos. Os magos queriam encontrar o messias para o adorar e Herodes para o matar. Herodes viu em Jesus um inimigo e trata logo de elimina-lo. O representante do povo de Deus rejeita o enviado de Deus para salvar o seu povo. Muitas vezes também nós expulsamos Deus da nossa vida e queremos mata-lo porque a sua presença na nossa vida é incomoda. 

Na verdade, quem se encontra com o menino outra coisa não pode fazer que, à imagem dos magos, “regressar à sua terra por outro caminho.” Quem encontra este Deus que nos vem visitar fica diferente. O amor de Deus manifestado a todas as nações e a todos os povos leva-nos a mudar os nossos caminhos. 

Cada celebração litúrgica termina com a fórmula “ide em paz e o Senhor vos acompanhe”. Que caminho sigo eu depois de ter e de me ter encontrado com Deus? Que atitude tenho? A atitude de Herodes que quer matar aquele que vem para salvar o seu povo só para não perder os seus privilégios? Ou a atitude dos magos, homens atentos aos sinais de Deus que procuram o messias que veio ao seu encontro e que encontrando-o e reconhecendo-o como verdadeiro rei, verdadeiro Deus e verdadeiro homem mudam os caminhos da sua existência? 

Em tempo de Natal quem se encontra com Jesus menino outro caminho não pode seguir senão o caminho do amor, da proximidade, da paz, da justiça, da solidariedade e do perdão. Se não forem estes os caminhos que seguimos, a celebração deste Natal reduziu-se a simples folclore religioso.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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