Ano C – V Domingo da Quaresma

1ª Leitura: Is 43, 16-21;
Salmo: Sl 125 (126), 1-2ab. 2cd-3. 4-5. 6;
2ª Leitura: Filip 3, 8-14;
Evangelho: Jo 8, 1-11.

O itinerário quaresmal que iniciamos na passada quarta-feira de cinzas aproxima-se da sua meta, ou seja, do mistério da paixão, morte e ressurreição de Jesus. Assim sendo, a liturgia da Palavra faz-nos notar como o cerco dos fariseus e escribas a Jesus se aperta. Na verdade, o evangelho deste Domingo é uma das ciladas que estes armaram a Jesus para encontrarem um pretexto para o acusar. No entanto, não é só a perseguição enquanto tal que se torna mais presente à medida que nos aproximamos do termo do nosso itinerário quaresmal. O significado salvífico desse acontecimento, os efeitos da morte de Jesus na cruz e da sua ressurreição também se fazem sentir cada vez mais à medida que nos aproximamos das solenidades pascais. Com efeito, a primeira leitura deste dia recorda a novidade salvífica que Deus sempre é capaz de realizar na história, a segunda leitura mostra os efeitos de uma vida alcançada por Cristo e pela sua ressurreição e o evangelho, jóia literária e religiosa, desmascara o coração mesquinho dos homens e revela o coração misericordioso de Deus sempre disposto a conceder o perdão que renova vidas e refaz existências. 

No nosso dia-a-dia, sempre buscamos modelos a imitar e objectivos a alcançar. O Apóstolo Paulo, na segunda leitura deste Domingo, recorda-nos qual o modelo que devemos imitar e o objectivo que devemos perseguir: “considero todas as coisas como prejuízo comparando-as com o bem supremo que é conhecer Jesus Cristo, meu Senhor”. Conhecer Jesus Cristo deve ser o objectivo da vida de todo o cristão. No entanto, este conhecer, de que Paulo fala, não se reduz a um simples conhecimento racional. Paulo utiliza aqui o verbo conhecer com o sentido que ele tem na Sagrada Escritura, ou seja, no sentido de comunhão de vida e de destino. “O verbo conhecer na Bíblia não tem, como para nós, apenas um significado conceptual, racional. Implica o envolvimento activo de toda a pessoa. Paulo aspira a uma adesão plena a Cristo: quer assimilar os seus pensamentos, os seus juízos, as suas palavras, o seu modo de comportar-se” (Armellini). Para atingir este seu objectivo, Paulo renuncia a tudo o resto. Considera tudo como lixo, porque encontrou o tesouro enterrado no campo e a perola mais preciosa que Jesus um dia falou numa das suas parábolas. 

A exemplo de Paulo, os cristãos não devem adoptar como modelos de vida os VIP, os ricos, os poderosos. O modelo de todo e qualquer cristão não pode ser outro senão Cristo. É de Cristo que vem o nosso nome de cristãos. No entanto, a identificação com Cristo é uma tarefa nunca acabada: “não que eu tenha já chegado à meta, ou já tenha atingido a perfeição. Mas continuo a correr, para ver se a alcanço, uma vez que também fui alcançado por Cristo Jesus. Não penso, irmãos, que já o tenha conseguido. Só penso numa coisa: esquecendo o que fica para trás, lançar-me para a frente, continuar a correr para a meta, em vista do prémio a que Deus, lá do alto, me chama em Cristo Jesus.” Cada dia, entre avanços e recuos, temos de fazer este esforço por nos identificar com Cristo. Só este é o caminho da ressurreição e da vida. 

No entanto, ainda estamos longe, mesmo muito longe, desta identificação total com Cristo e se dúvidas tivéssemos disso o evangelho deste domingo as Dissipa. Na verdade, é mais comum na humanidade em geral e nos cristãos em particular a atitude condenatória dos escribas e dos fariseus do que a misericórdia de Jesus. Encontramos com mais facilidade na nossa vida atitudes de crítica severa, de desconfiança e de condenação do que da misericórdia que não compactua com o pecado mas que ama e quer salvar o pecador. Assim sendo, far-nos-á muito bem aproximarmo-nos do evangelho deste Domingo para descobrirmos a misericórdia de Deus que deve transparecer nas atitudes concretas dos cristãos. Na verdade, nesta cena Jesus está sentado e sentado é a posição dos mestres que ensinam em Israel. Assim sendo, os gestos e as palavras de Jesus nesta cena são um ensinamento a todos os cristãos. 

Os escribas e os fariseus apresentam a Jesus uma mulher apanhada a cometer adultério para que Jesus desse a sua opinião sobre o caso. Como o texto afirma, esta situação era uma cilada que os escribas e fariseus pretendiam armar a Jesus, para assim terem um pretexto para o acusar. Se Jesus disse-se que não se devia apedrejar essa mulher, Jesus estava a ir contra a lei. Na verdade, Lv 20,10 e Dt 22, 22-24 sentenciam a morte para quem tenha praticado o adultério. Por outro lado, se Jesus disse-se que a mulher devia ser apedrejada estava a ir contra as normas do império Romano que no ano 30 tinha privado o sinédrio do ius gladii, ou seja, do direito de condenar alguém à morte. 

Uma das primeiras notas que gostaria de ressaltar é o facto de os acusadores só terem levado a mulher a Jesus. Na verdade, segundo a lei não era só a mulher mas também o homem que com ela tinha cometido adultério que deviam ser apedrejados. O facto de só apresentarem a Jesus a mulher já nos mostra a injustiça desta situação. Só os mais frágeis é que muitas vezes são condenados. Os mais fortes conseguem escapar sempre.

Confrontado com esta situação, Jesus permanece sentado no templo, inclina-se e começa a escrever no chão. Muito se especulou ao longo da história sobre o que Jesus teria escrito neste momento. No entanto, mais importante do que sabermos o que Jesus escreveu é o facto de Jesus se ter posto a escrever com o dedo no chão. Estamos no contexto da interpretação da lei e na Sagrada Escritura só há outra ocasião em que alguém escreve com o dedo. É o dedo de Deus que escreve as tabuas da lei (Ex 31, 18; Dt 9,10). Assim sendo, o que encontramos neste episódio é uma interpretação autorizada da lei. Aquele que escreve no chão é o Filho de Deus que não veio revogar a lei mas leva-la à perfeição (cf. Mt 5,17) e que além da lei conhece muito bem os homens por dentro (cf. Jo 2, 24-25). 

Jesus não se apressa a dar uma resposta e a resposta que dá desarma aqueles que se apressam a condenar a mulher: “quem dentre vós estiver sem pecado atire a primeira pedra”. Interpelados por tal desafio os presentes, continua o texto, “foram saindo um após outro, a começar pelos mais velhos”. Aqueles homens que se apresentaram diante de Jesus condenando a mulher, interpelados pelas palavras de Jesus descobriram que também eles eram pecadores e que por isso não tinham direito a condenar a mulher. Jesus ao revelar que também os fariseus eram pecadores e que por isso não tinham direito a condenar aquela mulher está a convidar os fariseus, os escribas e todos os presentes a não enveredarem pelo caminho da crítica fácil e dos juízos condenatórios mas da tolerância e da compreensão para com os pecadores. 

Todos se foram embora, ficando frente a frente Jesus e a mulher, e pela primeira vez no texto há alguém que fala com a mulher. Até este momento, quer no adultério quer na cilada que os judeus pretendiam montar a Jesus, a mulher foi tratada como um simples objecto. Jesus é o primeiro que fala com essa mulher, tratando-a como pessoa humana: “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou? … Nem Eu te condeno. Vai e não tornes a pecar”. 

No entanto, a atitude de Jesus de não julgar e de não condenar a mulher não é o compactuar de Jesus com o pecado. Jesus não disse à mulher que ela fez bem em ter cometido o adultério mas convida-a a não tornar a pecar. Jesus é aquele que detesta o pecado mas que ama o pecador e o quer salvar. “Ninguém odeia tanto o pecado quanto Jesus, porque ninguém ama o homem mais do que Ele. Todavia não condena quem erra (e não permite que ninguém atire pedras) para não acrescentar outro mal àquele que o pecador já causou a si mesmo” (Armellini).

Neste V Domingo da Quaresma, somos convidados a sermos cristãos a sério, a identificar-nos com Cristo. Aceitar este desafio é renunciar à crítica fácil, aos juízos severos, à coscuvilhice destruidora e à condenação pronta e adoptar a atitude de Jesus: tolerância, compreensão, misericórdia e perdão que refaz vidas e reconstrói existências.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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