Ano C – V Domingo de Páscoa

1ª Leitura: Act 14, 21b-27;
Salmo: Sl144 (145), 8-9. 10-11.12-13ab;
2ª Leitura: Ap 21, 1-5a;
Evangelho: Jo 13, 31-33a. 34-35.

A liturgia da Palavra deste V Domingo da Páscoa coloca-nos diante do tema do novo. A segunda leitura, retirada do livro do Apocalipse, apresenta a visão de “um novo céu e uma nova terra” e a promessa divina de “renovar todas as coisas”. Por sua vez, o evangelho deste dia, retirado do longo e intenso discurso de despedida de Jesus, recorda-nos o mandamento novo: “dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros”.

O tema do novo é um tema querido na Sagrada Escritura. Com efeito, “na bíblia é utilizado muitas vezes o termo novo – são 347 vezes no Antigo Testamento e 44 no Novo Testamento – e com este adjectivo quer-se significar uma mudança radical em relação ao que existia antes. O novo operado por Deus é algo de inesperado, de imaginável, de surpreendente” (F. Armellini). Além disto, se há tempo litúrgico que se relacione com o adjectivo novo é o tempo pascal que estamos a celebrar e a viver. A Páscoa é o tempo da novidade por excelência. O tempo pascal com o seu anúncio de que a vida é mais forte que a morte, de que o amor é mais forte que o ódio, de que a ternura é mais forte que a violência, de que a esperança dissipa todo o desespero é o tempo da mensagem inaudita, sempre nova e criadora de novidade da Ressurreição. Além disto, o tempo pascal, sendo um tempo essencialmente baptismal, é o tempo por excelência da vida nova. Na verdade, quem se encontra com o Senhor Ressuscitado vê toda a sua vida transformada. O tempo pascal é o tempo do lume novo, do canto novo, da mensagem nova e da vida nova. Tudo isto convida-nos, neste domingo, a meditar na novidade que o Senhor nos concede (um novo céu e uma nova terra) e nos pede (mandamento novo) na Páscoa. 

O novo céu e a nova terra que João, na leitura do livro do Apocalipse, nos apresenta é a meta da humanidade. Apesar de peregrinarmos num mundo marcado pela morte, pela violência, pela mentira e pelo pecado sabemos que não é esta a palavra definitiva. Deus renova todas as coisas e cria um novo céu e uma nova terra, “porque o primeiro céu e a primeira terra tinham desaparecido e o mar já não existia”. A nova realidade que Deus cria traz consigo uma renovação da terra e uma eliminação do mar, ou seja, de tudo aquilo que é contra a vida do homem e hostil a Deus. 

A este novo mundo que Deus cria, João chama a Jerusalém celeste. A cidade de Jerusalém era a cidade santa e o lugar onde, segundo a mentalidade de então, Deus habitava. Além disto, no livro do Apocalipse a “nova Jerusalém” é uma designação da Igreja. Assim sendo, João ao dizer que viu “ também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do Céu, da presença de Deus bela como noiva adornada para o seu esposo” está-nos a dizer que esta nova Jerusalém é um dom de Deus, tem origem em Deus e é o lugar da salvação e do encontro entre Deus e o seu povo. 

Tudo isto deve encher-nos de alegria. Na verdade, apesar de peregrinarmos num mundo marcado e atormentado pelo mal, pelo sofrimento, pela morte e pelo pecado nós sabemos e acreditamos que a história humana terá um final feliz, porque “Deus habitará com os homens: eles serão o seu povo e o próprio Deus, no meio deles, será o seu Deus. Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos; nunca mais haverá morte nem luto, nem gemidos nem dor, porque o mundo antigo desapareceu”. 

Este mundo novo já pode começar a ser saboreado hoje graças à ressurreição de Cristo. A ressurreição de Cristo é princípio de renovação de todas as vidas e de todo o mundo. Assim sendo, e apesar de ainda não vermos totalmente realizada esta promessa do mundo novo, vemos já vários sinais que indicam que este novo mundo está a surgir. 

No entanto, e apesar de os novos céus e a nova terra serem um dom de Deus, o homem também tem de se aplicar na construção deste novo mundo. O dom de Deus, a possibilidade oferecida na ressurreição de Jesus não dispensa antes exige a colaboração do homem na edificação dos novos céus e da nova terra. Talvez por isso a liturgia da Palavra deste dia, juntamente com a promessa do novo céu e da nova terra, recorda-nos o mandamento novo deixado por Jesus aos seus discípulos, aos homens novos: “dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros”.

O texto evangélico que hoje escutamos insere-se no discurso de despedida de Jesus. Na véspera da sua paixão e morte de cruz, Jesus, “que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo” (Jo 13, 1), reuniu-se com os seus discípulos numa ceia de despedida. Nesta ceia, todos os gestos e palavras de Jesus estão repletos do seu amor e são tidos como o testamento de Jesus. Assim como um pai, quando sente que a hora da sua morte se aproxima, deixa o seu testamento aos seus filhos, assim Jesus, na véspera da sua paixão e morte, deixa aos seus discípulos o seu testamento espiritual, um resumo do essencial da sua mensagem e da missão dos discípulos. Talvez por isso o texto evangélico deste domingo começa com o vocativo “filhinhos”. 

A parte do discurso de despedida de Jesus que se lê este domingo é o mandamento novo: “que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros”. Mas onde está a novidade do mandamento de Cristo? Certamente que não reside no mandamento do amor em si. Na verdade, o Antigo Testamento já ordenava o amor ao próximo: “amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lev 19,8). A novidade deste mandamento está no termo de comparação “como eu vos amei”. A medida do nosso amor pelos demais deve ser o amor sem medidas de Cristo que entrega a sua vida para que tenhamos vida e a tenhamos em abundância. Devemos amar os outros não como nos amamos a nós mas como Cristo amou a todos os homens. E isto porque muitas vezes, por inacreditável que pareça, nós não nos amamos a nós próprios e porque o amor de Jesus pelos homens é o verdadeiro amor. “Jesus revela um amor novo: amou quem precisava do seu amor para ser feliz. Amou os pobres, os doentes, os marginalizados, os maus, os corruptos, os seus próprios algozes, porque só amando-os podia fazê-los sair da sua condição de mesquinhez, de miséria e de pecado” (F. Armellini). 

E indo mais além, Jesus afirma que só na medida em que vivermos este amor é que seremos reconhecidos como seus discípulos: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros”. Não encontro melhor comentário a este versículo que um trecho da Carta a Diogneto do II século: “os cristãos não se distinguem dos demais homens, nem pela terra, nem pela língua, nem pelos costumes.  Nem, em parte alguma, habitam cidades peculiares, nem usam alguma língua distinta, nem vivem uma vida de natureza singular”. O que distingue e identifica os cristãos é o amor ao estilo de Jesus.  Era mais fácil que o sinal identificativo dos cristãos fosse uma peça de vestuário ou um objecto que levássemos connosco. No entanto, o sinal identificativo dos cristãos é o amor ao estilo de Jesus. Reconhece-se que uma pessoa é cristã não quando ela leva ao peito uma cruz mas quando ela ama os homens como Cristo nos amou na cruz. 

Que a participação nesta celebração a todos devolva a esperança, porque apesar de vivermos num mundo ferido e marcado pelo mal sabemos, pela Ressurreição de Cristo, que a última palavra não pertence à morte, ao ódio, à violência, ao desespero e ao pecado mas à vida, ao amor, à ternura, à esperança e à graça. Assim sendo, colaboremos na construção do novo céu e da nova terra através da vivência do mandamento novo do amor, sinal identificativo e inconfundível dos cristãos.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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