Ano C – V Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Is 6, 1-2ª. 3-8;
Salmo: Sl 137 (138), 1-2a. 2bc-3. 4-5. 7c-8;
2ª Leitura: 1 Cor 15, 1-11 ou 1 Cor 15, 3-8. 11;
Evangelho: Lc 5, 1-11.

A liturgia da Palavra deste V Domingo do Tempo Comum convida-nos a reflectir sobre a vocação. Na verdade, a primeira leitura narra a vocação de Isaías, a segunda leitura acena à vocação do apóstolo Paulo e o evangelho relata a vocação dos primeiros discípulos.  

Quando em Igreja se fala de vocação muitas vezes entendemo-la num sentido redutor. Muitos pensam que a vocação é algo exclusivo daqueles que foram chamados a seguir o Senhor Jesus mais de perto, numa vida de especial consagração, isto é, padres, missionários e freiras. No entanto, tal interpretação da vocação é extremamente redutora e pobre. A vocação, palavra vinda do latim que significa chamamento, é uma realidade comum a todos os cristãos. Todos os cristãos, na variedade das suas funções e ministérios, são chamados pelo Senhor Jesus a uma missão muito concreta e se hoje somos cristãos é porque já respondemos a um chamamento do Senhor. A palavra que Cristo nos dirige é uma palavra que nos convoca e desinstala. Assim sendo, a liturgia da Palavra deste dia muito nos ajudará a compreender a realidade da vocação, pois estes textos, ao apresentarem episódios concretos de homens chamados por Deus para uma missão, oferecem-nos uma apresentação teológica da vocação. 

Os relatos da vocação de Isaías e dos primeiros apóstolos obedecem ao mesmo esquema composto por três momentos. Este é o esquema típico dos relatos vocacionais que a Sagrada Escritura nos oferece. O primeiro desses momentos é o escalafrio, o arrepio e o temor do homem pecador ante a santidade de Deus (“Ai de mim, que estou perdido, porque sou um homem de lábios impuros, moro no meio de um povo de lábios impuros e os meus olhos viram o Rei, Senhor do Universo” e “ ‘Senhor, afasta-Te de mim, que sou um homem pecador’. Na verdade, o temor tinha-se apoderado dele e de todos os seus companheiros, por causa da pesca realizada”). O momento seguinte é a iniciativa divina de confiar ao homem uma missão (“Ouvi então a voz do Senhor, que dizia: «Quem enviarei? Quem irá por nós?” e “Não temas. Daqui em diante serás pescador de homens”). O terceiro e último momento é a resposta pronta e incondicional do homem ao chamamento divino (“Eis-me aqui: podeis enviar-me” e “Tendo conduzido os barcos para terra, eles deixaram tudo e seguiram Jesus”).

Depois da apresentação geral dos relatos vocacionais que a liturgia da Palavra deste Domingo nos oferece, gostaria de deter-me em alguns aspectos presentes nestes relatos: dizer o indizível, o sentido da indignidade como objecção, a confiança/disponibilidade/desprendimento total, a barca de Pedro e a missão de pescadores de homens. 

Intitulei o primeiro aspecto que gostaria de reflectir convosco de “dizer o indizível”. Na verdade, ao lermos a vocação de Isaías, podemos deixar sair desabafos deste género: “só a mim é que o Senhor não me aparece tão claramente a dizer o que tenho de fazer”. Corremos o risco de estar sempre a espera de manifestações extraordinárias e espectaculares de Deus para saber o que devemos fazer. No entanto, Deus revela-se muitas vezes na banalidade do dia-a-dia. Certamente que a experiência vocacional que Isaías viveu foi mais simples do que a relatada. Com efeito, este texto não é uma reportagem jornalística mas uma apresentação teológica da vocação que utiliza alguns pormenores folclóricos (trono, manto, serafins, fumo, …) como símbolos da grandeza, omnipotência e magnificência de Deus. Para descrever a experiência espiritual, as emoções e os sentimentos que viveu no momento da sua vocação Isaías recorre a imagens, porque há experiências na nossa vida que as palavras frias e racionais não conseguem descrever. 

O segundo aspecto que gostaria de reflectir convosco é o sentido de indignidade do chamado que muitas vezes é apresentado como objecção ao chamamento divino. Isaías considera-se um homem de lábios impuros e Pedro pede que o Senhor se afaste dele porque é um pecador. No entanto, este sentido de indignidade não foi algo impeditivo para Deus os chamar à missão. Na verdade, Deus, mais que chamar os capacitados, capacita aqueles que chama. A missão que nos é confiada não é algo que se realize só com as capacidades humanas mas acima de tudo é dom de Deus. S. Paulo compreendeu bem esta realidade e é por isso que pode afirmar, como ouvíamos na segunda leitura: “porque eu sou o menor dos Apóstolos e não sou digno de ser chamado Apóstolo, por ter perseguido a Igreja de Deus. Mas pela graça de Deus sou aquilo que sou e a graça que Ele me deu não foi inútil”.

O contacto com a santidade de Deus revela as nossas limitações, as nossas incoerências e as nossas debilidades. Esta experiência é dolorosa e muitas vezes pode provocar um sentimento de indignidade pela incoerência em que vivemos. No entanto, não deve ser isto a impedir-nos de seguir o Senhor Jesus e de cumprir a missão que Ele nos confia. E isto não porque Deus ignore os nossos pecados e as nossas debilidades mas porque Deus, com a sua Palavra e o seu Amor, é capaz de nos purificar: “um dos serafins voou ao meu encontro, tendo na mão um carvão ardente que tirara do altar com uma tenaz. Tocou-me com ele na boca e disse-me: ‘Isto tocou os teus lábios: desapareceu o teu pecado, foi perdoada a tua culpa’”.

Em terceiro lugar gostaria de ressaltar a confiança, a disponibilidade e o desprendimento total dos vocacionados de que nos fala a liturgia da Palavra deste Domingo. Isaías aceita a missão que o Senhor lhe confia mesmo antes de saber qual é essa missão. Isaías torna-se assim paradigma de uma confiança absoluta em Deus e mostra-nos que na vocação mais importante do que a missão pedida é Aquele que nos pede tal missão. É a confiança em Deus que nos leva a responder afirmativamente aos convites do Senhor. Muitas vezes as recusas vocacionais outra coisa não são do que uma falta de confiança em Deus. Também Pedro viveu esta confiança absoluta em Jesus. O pedido de Jesus a Pedro de lançar as redes ao mar depois de uma noite de trabalho em que nada pescaram é algo de ilógico e até de ridículo. No entanto, Pedro, em atenção Àquele que lhe pede, confia e cumpre as indicações dadas. Esta confiança também se manifesta no desprendimento dos discípulos. Eles deixaram tudo, deixaram todas as seguranças humanas e confiando em Jesus e só n’Ele seguiram-no. Quem entra na aventura do seguimento de Jesus deve ser uma pessoa desprendida, uma pessoa que deixa tudo e faz da sua vida um dom porque confia no Senhor. 

O quarto aspecto que gostaria de reflectir relaciona-se com o cenário onde se desenrola o episódio evangélico deste Domingo: a barca de Pedro. Pedro e Jesus estão no mesmo barco e é desse barco que Jesus anuncia a Palavra de Deus ao mundo. A barca de Pedro é símbolo da Igreja, da comunidade dos crentes. A comunidade é então o lugar privilegiado onde se pode encontrar Jesus e onde a sua Palavra é anunciada. E esta barca não está parada nas margens mas navega no mar turbulento da história humana.

O último aspecto que gostaria de reflectir é a missão confiada por Jesus a Pedro, ou seja, a missão de ser pescador de homens. Na mentalidade judaica, o mar era o lugar dos monstros, das forças e espíritos demoníacos que procuravam roubar a vida e a felicidade dos homens. Assim, a missão de Pedro e de todos os discípulos é a de tirar/libertar os homens do poder do mal e das forças da morte. Quanto aos instrumentos que devem ser usados nesta missão diz-nos Santo Ambrósio: “os instrumentos da pesca apostólica são as redes, que não matam quem está preso nelas, mas conservam-no para a vida, trazem-no dos abismos para a luz e das profundezas conduzem à superfície quem estava submerso”.

A celebração deste Domingo recorda-nos a nossa vocação de cristãos: somos chamados por Deus, na simplicidade do dia-a-dia e apesar de sermos indignos, para, na confiança total em Deus e na sua companhia, salvarmos os homens de morrerem afogados nos mares tenebrosos do mal e da morte. Não tenhamos medo e aceitemos este desafio do Senhor!

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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