Ano C – VI Domingo de Páscoa

1ª Leitura: Act 15, 1-2. 22-29;
Salmo: Sl 66 (67), 2-3. 5. 6 e 8;
2ª Leitura: Ap 21, 10-14. 22-23;
Evangelho: Jo 14, 23-29.

A liturgia da Palavra deste VI Domingo da Páscoa assegura-nos que o Senhor Ressuscitado não abandona a sua Igreja na sua peregrinação até à pátria definitiva. Além disto, também nos mostra que a promessa de Jesus de não abandonar a sua comunidade não é uma simples promessa mas é uma realidade que todos experimentamos na nossa vida eclesial. 

O evangelho deste Domingo é retirado do capítulo XIV do evangelho de São João. Jesus, na véspera da sua paixão e morte de cruz, reúne-se com os seus discípulos numa ceia de despedida. Todos os gestos e palavras de Jesus neste contexto são solenes porque nascem do seu amor levado ao extremo na entrega da sua vida na cruz. Além disto, estes gestos e palavras de Jesus são considerados como o seu testamento, testamento esse que resume o essencial da mensagem de Jesus e da missão dos discípulos. 

O trecho evangélico que escutamos neste Domingo pretende mostrar como é que os discípulos poderão manter a sua relação com Jesus depois da sua paixão, morte e ressurreição. A primeira forma de manter essa comunhão é o cumprimento da palavra de Jesus. O evangelho deste dia começa por afirmar: “quem Me ama guardará a minha palavra e meu Pai o amará; nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada”. Com tal afirmação, Jesus deixa bem claro que a comunhão entre o crente e Deus só é possível através do cumprimento da Palavra de Jesus. Só quando ouvimos a Palavra de Deus e a pomos em prática é que estamos verdadeiramente em comunhão com Deus. Quem se coloca na disponibilidade de cumprir a Palavra de Jesus não opõe resistência a Deus que vem até nós. O pôr em prática a Palavra de Jesus é caminho seguro de comunhão com Deus. S. João, numa das suas cartas, explica-nos esta realidade nos seguintes termos: “sabemos que o conhecemos por isto: se guardamos os seus mandamentos. Quem diz: «Eu conheço-o», mas não guarda os seus mandamentos é um mentiroso e a verdade não está nele; ao passo que quem guarda a sua palavra, nesse é que o amor de Deus é verdadeiramente perfeito; por isto reconhecemos que estamos nele. Quem diz que permanece em Deus também deve caminhar como Ele caminhou” (1 Jo 2, 3-6).

Depois de ter apresentado o cumprimento da sua Palavra como um caminho concreto para os discípulos manterem a sua relação com Deus, Jesus, diz-nos como continuará a acompanhar a sua comunidade: “o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo o que Eu vos disse”. É através do Espírito Santo que o Ressuscitado continua a guiar e a acompanhar a sua comunidade. Prestemos atenção a esta promessa do Espírito Santo para compreendermos melhor como o Senhor continua a acompanhar-nos. 

Em primeiro lugar, devemos prestar atenção à forma como Jesus designa o Espírito Santo: “Paráclito”. João é o único evangelista a usar o termo Paráclito e aplica-o a Cristo e ao Espírito Santo. O termo Paráclito provém da linguagem forense e significa advogado de defesa, intercessor, consolador. Não deixa de ser significativo que João utilize este termo. Na verdade, o evangelho de João está construído sobre o esquema de um processo entre Cristo/Igreja e o mundo que termina na aparente derrota da morte de Cristo na cruz e na perseguição da Igreja. No entanto, nem Cristo nem a Igreja estão sozinhos neste processo. Cristo tem a seu lado o Pai e a Igreja terá sempre o Espírito que a guiará, defenderá e sustentará no desenvolvimento da sua história. No entanto, o Espírito não se limitará a uma acção de consolo e de defesa. Jesus, no evangelho deste Domingo, indica outras duas funções do Espírito Santo Paráclito na Igreja: ensinar e recordar tudo o que Jesus disse.  

O Espírito ensina não como um professor ensina na escola mas “ensina de uma forma dinâmica, torna-se impulso innterior, impele de forma irresistível na direcção justa, estimula para o bem, leva a escolhas de acordo com o Evangelho” (F. Armellini). Ante as novas situações com que a Igreja se depara o Espírito ensina o Evangelho de sempre. Cristo é a plenitude da Revelação (cf. Dei Verbum, 4). Assim sendo, não podemos esperar que o Espírito diga algo mais ou algo diferente do que Jesus nos revelou. No entanto, o Espírito ensina-nos, porque, a Igreja, no caminho que faz em direcção à pátria definitiva, depara-se muitas vezes com situações novas sobre as quais Jesus não se referiu explicitamente (ex: questões da bioética, …). É ante estas novas situações que o Espirito exerce a sua função de ensino. Ele torna explícito aquilo que está implícito na mensagem de Jesus. “Jesus garante que os seus discípulos encontrarão sempre uma resposta às suas perguntas, uma resposta conforme ao seu ensinamento, se souberem ouvir a sua palavra e manter-se em sintonia com os impulsos do Espírito presente neles” (F. Armellini).

Além de ensinar, o Espírito também recorda tudo o que Jesus nos disse. Há muitas palavras, muitos ensinamentos de Jesus que estão recolhidos na Sagrada Escritura mas que parece que fazemos questão em esquece-los. As palavras e os ensinamentos do Senhor Jesus são incómodos, porque denunciam as situações erradas que vivemos e nos desinstalam. Gostaríamos, muitas vezes, de esquecer essas palavras e esses ensinamentos de Jesus. No entanto, o Espírito da Verdade não permite que a Palavra de Jesus seja esquecida ou manipulada. 

Ilustração clara desta acção do Espirito Santo na vida da Igreja é a primeira leitura do livro dos Actos dos Apóstolos. O episódio que lemos neste Domingo refere-se a um momento complicado da vida da Igreja primitiva. Com a entrada dos pagãos na Igreja surgiu uma questão complicada: para a salvação basta a fé em Cristo ou também é necessária a observância da lei judaica? Tal questão esteve na origem do chamado concílio de Jerusalém. Neste concílio chegou-se à conclusão que as tradições judaicas não são fundamentais para a salvação e que por isso não deviam ser impostas aos pagãos. Para a salvação basta Cristo. No entanto, esta decisão não é uma simples e mera decisão humana. Diz assim o texto: “o Espírito Santo e nós decidimos”. É o Espírito que guia e anima a Igreja na sua peregrinação pela história. Cumpre-se neste episódio da vida da Igreja primitiva a promessa de Jesus: “o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo o que Eu vos disse”. 

Um dos frutos da presença constante de Jesus na vida da Igreja é a paz: “deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como a dá o mundo”. Jesus é a fonte daquela paz que não é simplesmente a ausência de guerra mas harmonia, tranquilidade, serenidade e vida plena, ou seja, a plenitude das bênçãos messiânicas. No entanto, Jesus não nos concede a paz como a dá o mundo. Quando Jesus fez esta afirmação, no império romano vivia-se uma paz aparente que apoiava a escravidão, a marginalização e a opressão, uma paz baseada na força militar e não na justiça. Não é esta a paz que Jesus nos oferece. Jesus quer conceder-nos a verdadeira paz: a paz com Deus, a paz com os outros e a paz connosco próprios. “A paz de Cristo difere em absoluto da paz que o mundo dá. A paz de Deus é dom gratuito que nasce do favor divino, isto é, do amor do Pai e de Jesus aos seus, que assim se sabem amados e reconciliados com Deus. Por isso é distinta da paz interesseira e temporal que dá o mundo, resumida basicamente na ausência de guerra e violência, ou melhor, no equilíbrio de forças” (B. Caballero). 

Que a celebração deste VI Domingo de Páscoa reavive em nós a certeza que o Senhor não nos abandona mas sempre nos acompanha e guia através do seu Espírito e nos leve a viver mais intensamente a nossa relação com Ele no cumprimento da sua Palavra. Só assim podemos encontrar a verdadeira paz.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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