Ano C – X Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: 1 Reis 17, 17-24;
Salmo: Sl 29 (30), 2 e 4. 5-6. 11-12a e 13b;
2ª Leitura: Gal 1, 11-19;
Evangelho: Lc 7, 11-17.

Neste X Domingo do Tempo Comum, a liturgia da Palavra oferece-nos dois relatos de ressurreição de filhos de viúvas. A primeira leitura do primeiro livro dos Reis narra-nos a ressurreição do filho da viúva de Sarepta através da acção de Elias. Por sua vez, o evangelho deste domingo narra-nos a ressurreição do filho da viúva de Naim operada por Jesus. 

A ressurreição do filho da viúva de Sarepta, narrada na primeira leitura deste domingo, é um dos milagres atribuídos a Elias e, na polémica contra a religião cananeia, mostra que só Deus é a fonte da vida e da fertilidade. O episódio mostra-nos duas reacções diversas ante a morte do filho da viúva de Sarepta. A mãe entra em desespero e culpa-se a si própria pela morte do filho. Por sua vez, Elias continua a confiar e a acreditar no Deus da vida e ressuscita o menino. Também nós quando nos deparamos diante de situações de morte adoptamos muitas vezes a mesma postura da viúva de Sarepta. Procuramos responsáveis pela desgraça mesmo quando não os há e terminamos muitas vezes acusando Deus ou acusando-nos a nós próprios. “As doenças e as desgraças são factos que acontecem no nosso mundo, são devidos à causalidade, às coincidências, a factores biológicos, não são um castigo de Deus” (F. Armellini). Por sua vez, Elias ensina-nos que mesmo ante as tragédias devemos seguir confiando em Deus. É Ele que nos devolve a vida e a esperança. É Ele que nos dá força para seguir o caminho.

No evangelho deste domingo narra-se o episódio, exclusivo de Lucas, da ressurreição do único filho da viúva de Naim. O cortejo da vida, composto por Jesus, os seus discípulos e a multidão que seguia o Senhor, cruza-se com o cortejo de morte, composto pela mãe viúva que levava o seu filho único a sepultar e a gente da cidade que a acompanhava. Do cruzamento destes dois cortejos resultou a ressurreição do filho único da viúva. Este episódio recorda-nos a primeira leitura deste domingo. No entanto, a acção de Jesus supera a acção de Elias. Na verdade, se Elias para devolver a vida ao filho da viúva de Sarepta teve de fazer longas orações e repetidos ritos simbólicos (estender-se por três vezes sobre o menino), o Senhor Jesus ressuscitou o filho da viúva de Naim só com a força da sua palavra: “jovem, Eu te ordeno levanta-te” e tocando no caixão. 

Diz-nos o evangelho que à palavra de Jesus “o morto sentou-se e começou a falar”, ou seja, à palavra de Jesus o rapaz retorna à vida (não nos esqueçamos que no evangelho o verbo levantar-se refere-se muitas vezes à ressurreição) e retoma as relações humanas.

Ante tal episódio a multidão encheu-se daquele temor que é a reacção natural do homem quando entra em contacto com a realidade divina e começou a exclamar: “apareceu no meio de nós um grande profeta; Deus visitou o seu povo”. A presente reacção do povo é a chave interpretativa deste texto evangélico. O milagre que Jesus realizou é um sinal messiânico, é algo que mostra que o Reino de Deus está inaugurado na pessoa e na acção de Jesus. Também não deixa de ser curioso de ser neste episódio a primeira vez, depois do evangelho de infância, que se atribui a Jesus o título divino de Senhor. É a vitória sobre a morte que começa a revelar Jesus como o Senhor da vida e da morte. Se a tudo isto juntarmos o facto de Jesus se ter referido também a este episódio (“os mortos ressuscitam” Lc 7, 22) para responder a pergunta de João Baptista (“És Tu o que está para vir, ou devemos esperar outro?” Lc 7, 20), não podemos deixar de afirmar o significado messiânico que este episódio evangélico possui.

No entanto, o presente milagre não se encerra em si mesmo mas aponta-nos para a ressurreição de Cristo. A ressurreição do filho da viúva de Naim não têm como finalidade última confortar a mãe que chora a morte do seu filho único que agravou a sua situação de penúria (viúva e sem filhos, ou seja, sem ninguém que a defendesse e a cuidasse). A ressurreição do filho da viúva de Naim, assim como os outros episódios de ressurreição narrados nos evangelhos (ressurreição da filha de Jairo e de Lázaro) são sinais da ressurreição de Cristo que proclama que Jesus é o Senhor da vida e que veio para que todos tenham vida e a tenham em abundancia (cf. Jo 10, 10). Cristo ressuscitou vencendo a morte e também nós iremos ressuscitar. A morte não tem a última palavra.

No entanto, não nos podemos concentrar só no resultado final deste episódio, ou seja, a ressurreição do filho da viúva. Não podemos nem devemos esquecer-nos do motivo que levou Jesus a ressuscitar o filho da viúva de Naim e que foi única e exclusivamente a sua compaixão: “Ao vê-la, o Senhor compadeceu-Se dela e disse-lhe: ‘Não chores’. Jesus aproximou-Se e tocou no caixão”. Mais extraordinário que Jesus ter ressuscitado um morto é a sua compaixão. 

Este episódio evangélico revela-nos o coração de Jesus. Cristo compadece-se da dor da pobre viúva de Naim no momento doloroso do enterro do seu filho único. O Senhor Jesus é o Deus compassivo, o Deus simpático que, mesmo sem ninguém lhe pedir, se aproxima da dor humana oferecendo consolação. Jesus vem ao encontro da humanidade com o rosto e o calor compassivo do bom samaritano (cf. Lc 10, 29-37). Jesus aproxima-se da humanidade, perdida no seu desespero e incapaz de acreditar e pedir, e vence as forças do mal e da morte que nos aprisionam. Jesus com a sua compaixão devolve a vida aos mortos, a esperança aos desesperados e restitui um espaço de vida àqueles a quem foi negado.

Assim sendo, o texto evangélico deste Domingo revela-nos um Jesus atento ao sofrimento das pessoas e compassivo. Um Jesus que cruzando-se com vários cortejos de morte é capaz de arrancar-nos da morte e introduzir-nos no cortejo da vida que Ele lidera. 

O encontro com o Senhor Jesus é sempre um encontro transformante, um encontro que nos arranca da morte e nos devolve à vida. É também sobre este encontro transformante com Cristo de que nos fala a segunda leitura deste domingo da carta aos Gálatas. Paulo alude ao episódio da sua conversão, da sua passagem de uma vida de morte e de perseguição à vida nova em Cristo. Paulo refere-se ao momento da sua conversão não por vaidade mas para adquirir autoridade diante dos Gálatas, para lhes mostrar que o seu ministério apostólico foi-lhe entregue pelo próprio Cristo. Este texto é um precioso documento autobiográfico de Paulo sobre a passagem da sua fase judaica para a sua fase cristã. Na origem da vocação/conversão de Paulo está o encontro com Cristo. Foi o encontro com Cristo e não um esforço meramente humano que transformou Paulo. Foi Cristo que saiu ao encontro de Paulo no caminho e, envolvendo-o com a intensa luz do seu amor, o transformou. 

Temos uma necessidade urgente de nos cruzarmos com o cortejo da vida encabeçado por Cristo. Muitas vezes o nosso peregrinar neste mundo assemelha-se a um cortejo fúnebre. Quantas vezes andamos chorando a morte de sonhos e lamentando-nos das nossas perdas. Mas podemos estar seguros que o Senhor Jesus não é insensível aos nossos lamentos e às nossas perdas. Ele vem ao nosso encontro com a sua presença, a sua palavra e o seu amor para nos consolar. Ele hoje, nesta eucaristia, vem ao nosso encontro devolvendo-nos a vida e a esperança. Ele hoje, nesta eucaristia, faz-se nosso alimento e diz a cada um de nós “jovem, Eu te ordeno levanta-te” e devolve-nos a esperança como devolveu o filho à viúva de Naim. 

No entanto, não nos esqueçamos que o cortejo da vida encabeçado por Jesus não é um cortejo solitário composto só por Jesus. Com Jesus ia e vão os seus discípulos e uma grande multidão. A Igreja é, neste mundo repleto de sinais de morte, o cortejo da vida que leva Jesus. Assim sendo, não nos dispensemos da urgente tarefa de levar o Ressuscitado ao nosso mundo. Saiamos, corramos ao encontro dos inúmeros cortejos de morte que deambulam nas nossas ruas. Contagiemo-los com a vida que vem de Cristo e que é o próprio Cristo.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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