Ano C – XIV Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Is 66, 10-14c;
Salmo: Sl 65 (66), 1-3a. 4-5. 6-7a. 16 e 20;
2ª Leitura: Gal 6, 14-18;
Evangelho: Lc 10, 1-12. 17-20 ou Lc 10, 1-9.

A liturgia da Palavra deste XIV domingo do tempo comum é um convite a reflectirmos no envio. Deus nunca se cansa de enviar testemunhas e construtores do Reino de Deus. 

A primeira leitura deste dia é um exemplo concreto desta solicitude divina. Ante as dificuldades e a crise de esperança que o povo estava a viver, Deus envia o seu profeta a proclamar o amor divino e a reavivar a esperança, apesar das dificuldades que estava a viver.

Viviam-se então momentos complicados em Jerusalém. Apesar de o povo já ter regressado do exílio da Babilónio há vários anos, a reconstrução da cidade santa desenvolve-se de uma forma muito lenta, devido a penúria da população e aos constantes ataques de que é vitima. Tudo isto leva o povo ao desespero e ao desânimo. É neste contexto, que Deus envia ao seu povo um profeta com uma mensagem de salvação que convida à esperança e à alegria (“alegrai-vos com Jerusalém, exultai com ela, todos vós que a amais. Com ela enchei-vos de júbilo, todos vós que participastes no seu luto ”), porque o Senhor não abandonou Jerusalém mas “como uma mãe que anima o seu filho, também Eu vos confortarei: em Jerusalém sereis consolados”. 

Palavras como estas, repletas do confortante amor de Deus, em todo o tempo são necessárias e a todos devolvem a alegria e a esperança. Assim sendo, Deus jamais para de enviar os seus mensageiros a anunciar e a instaurar o seu reino: “reino eterno e universal: reino de verdade e de vida, reino de santidade e de graça, reino de justiça, de amor e de paz”. Na verdade, como ouvíamos no evangelho de hoje, o Senhor não só envia mensageiros como também nos recomenda que não nos cansemos de pedir a Deus que nos envie os seus mensageiros: “a seara é grande mas os trabalhadores são poucos. Pedi ao dono da Seara que mande trabalhadores para a sua seara”. O Senhor Jesus convida-nos a ganharmos consciência da necessidade e da falta que nos fazem os seus enviados. Muitas vezes não possuímos esta consciência. Na verdade, muitas vezes damos como dado adquirido ter um sacerdote que sirva a nossa comunidade e não o vemos como um dom do Senhor à comunidade. Devemos saber rezar e trabalhar pelas vocações. Devemos pedir que o Senhor continue a chamar e enviar trabalhadores para a seara do Reino e ajudar os chamados a descobrirem a sua vocação. É triste ver comunidades cristãs que querem um sacerdote que as sirva mas que tem muita dificuldade em aceitar ou chegam mesmo a impedir que o Senhor chame alguém dessa comunidade. 

No entanto, o evangelho deste domingo não é só composto pelo pedido do Senhor a que se reze pelas vocações. O evangelho de hoje também nos narra o envio dos 72 discípulos por Jesus a todas as cidades e lugares onde havia de ir. Este episódio que decorre no caminho, mais formativo que geográfico, de Jesus e dos seus discípulos até Jerusalém é um episódio exclusivo de Lucas e é uma boa catequese sobre a missão da Igreja no nosso mundo, ou seja, sobre a continuação da missão salvífica de Cristo através da acção da Igreja. O episódio dos 72 discípulos enviados por Jesus é um episódio programático da missão que Jesus confiou a Igreja e a que nos envia. Convém recordar que esta missão não é uma tarefa exclusiva dos sacerdotes, dos religiosos e das religiosas mas é de todos os membros da Igreja. Assim, será de grande utilidade para todos lermos e meditarmos neste texto evangélico para descobrirmos a que missão estamos chamados e de que forma a devemos realizar.

O primeiro dado curioso deste texto evangélico é o número dos discípulos enviados em missão, ou seja, 72. O presente número é um número simbólico que, segundo Gn 10, engloba todas as nações pagãs que vivem na terra. Assim sendo, ao serem 72 os discípulos que Jesus envia, Lucas está a dizer que a missão confiada por Jesus destina-se a todos os povos. O coração de Deus é do tamanho do mundo e por isso ninguém deve ser excluído do seu amor.

Depois do destino universal da missão, este texto oferece-nos outra característica importante do envio de Jesus, ou seja, o facto de Jesus ter enviado os seus discípulos dois a dois. Além da necessidade jurídica de duas testemunhas para que algo fosse considerado verdade, este dado também nos leva a concluir que a missão não é uma aventura de solitários mas é uma realidade comunitária. 

Os locais aonde os discípulos são enviados são os locais onde Jesus devia ir. Também este facto não deixa de ter a sua relevância. Na verdade, os discípulos não se vão pregar a si próprios e os seus valores mas vão dar testemunho de Jesus e favorecer o seu acolhimento. 

Àqueles que envia, Jesus não deixa de fazer algumas advertências, recomendações sobre a dificuldade da missão e sobre a maneira correcta de a exercer. Jesus começa por afirmar que aqueles que são enviados são como cordeiros enviados para o meio de lobos. A mensagem e o testemunho que devem dar choca com os valores defendidos pelo mundo. Assim sendo, a hostilidade e a perseguição não serão realidades estranhas para os discípulos de Jesus. 

Depois do aviso da perseguição que hão-de sofrer, Jesus adverte-os sobre a forma como deverão desempenhar a missão. A missão é uma realidade urgente e necessária e, por isso mesmo, os discípulos não devem perder tempo em saudações. Jesus não pede que os discípulos sejam mal-educados. Pede sim que a missão principal dos enviados seja o anúncio do reino e que nada nem ninguém atrasem esse anúncio que deve ser feito na simplicidade e na pobreza: “não leveis bolsa nem alforge nem sandálias”. Na verdade, o êxito da missão não depende dos recursos humanos utilizados mas na força da mensagem que devem anunciar. Pelo mesmo motivo, ou seja, para que nada distraia os discípulos da sua missão Jesus ordena aos discípulos: “ficai nessa casa, comei e bebei do que tiverem, que o trabalhador merece o seu salário. Não andeis de casa em casa”. Os discípulos não se devem preocupar em encontrar uma casa mais confortável mas em anunciar o reino de Deus.

A mensagem que os discípulos devem anunciar é a proximidade do reino de Deus: “paz a esta casa … está perto o reino de Deus”. A paz que os discípulos devem levar não é a simples ausência de guerra mas a saúde, fecundidade, prosperidade e amizade com Deus e os irmãos e que é a plenitude dos bens messiânicos, do reino de Deus. No entanto, os discipulos estão chamados a anunciar essa paz não só com os seus lábios mas também com os gestos de libertação que mostram a proximidade do Reino. Anúncio da Palavra e promoção humana é a tarefa confiada por Jesus aos seus enviados.

Ao finalizar as suas advertências aos discípulos, Jesus, como bom oriental, utiliza uma linguagem dura e repleta de ameaças dirigidas àquelas cidades que renunciarem o anúncio do reino. Tal descrição não deve ser entendida à letra mas deve levar-nos a concluir a tragicidade da recusa de Jesus e do Reino de Deus. 

As últimas linhas do evangelho deste domingo narra-nos o retorno dos discípulos até Jesus. Assim tem de ser. O sucesso do empreendimento missionário dos enviados não dependeu deles mas daqueles que os enviou. Na missão sempre devemos partir do Senhor e a Ele regressar.

Que a participação nesta eucaristia reavive em nós o convite à missão que Jesus a todos faz e nos leve a pedir que o Senhor jamais se canse de enviar trabalhadores para a messe do Reino pois deles carecemos.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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