Ano C – XIX Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Sab 18, 6-9;
Salmo: Sl 32 (33), 1 e 12. 18-19. 20 e 22;
2ª Leitura: Hebr 11, 1-2. 8-19 ou Hebr 11, 1-2. 8-12;
Evangelho: Lc 12, 32-48 ou Lc 12, 35-40.

A liturgia deste Domingo convida-nos a reflectir e a viver uma fé vigilante. 

Todas as leituras, que escutamos neste Domingo, surgem em contextos de crise e destinam-se a fortalecer a fé dos seus destinatários. A leitura do Livro da Sabedoria é dirigida aos Judeus da diáspora que viviam num ambiente de idolatria e imoralidade para os animar a viverem de acordo com a sua fé no Senhor Deus que os libertou da Terra do Egipto. A Epístola aos Hebreus é um sermão destinado a animar os cristãos primitivos ante o desalento e os sofrimentos que tinham de sofrer por parte dos não crentes. Por sua vez, o Evangelho fala da necessidade de uma fé vigilante a uma comunidade que esperando a última vinda de Cristo diminui a sua vigilância. 

Também nós hoje vivemos num momento de crise de fé. Acreditar e professar a fé cristã na nossa sociedade não está na moda e, muitas vezes, até pode ser causa de descriminação e de chacota. 

A fé numa sociedade técnica e científica parece que não tem lugar e até é apresentada por alguns como um atraso cultural e social. São várias as críticas a que está sujeita a nossa fé e que se podem reduzir a três: Se Deus é Amor porque é que existe o mal?; A ciência explica tudo, já não precisamos de Deus (Positivismo); A rotina do nosso existir como crentes. (Na prática, em que é que nos somos diferentes dos outros? Como é que a fé da sentido a minha vida?)

São estes alguns dos desafios que se nos colocam e que muitas vezes nos fazem pensar. Torna-se assim necessário fazer uma séria reflexão sobre o que é a fé e qual é o lugar dela na nossa vida. 

Todas as nossas relações sociais e familiares estão baseadas num acto de fé. No princípio de todas as relações está um acto de confiança, quase as escuras, no outro. É esta fé no outro que permite a construção de uma família e de um grupo de amigos. É daqui que surge a gravidade da mentira. 

Também os nossos conhecimentos partem de um acto de fé. Eu acredito naquilo que me ensinam e porque acredito naquilo que me ensinam actuo segundo o que me ensinaram e isto permite, algumas vezes, ver a verdade daquilo que me ensinaram. Até a própria ciência, que se diz tão objectiva, comporta uma certa dose de crença e inicia-se num acto de fé.

Assim sendo, não podemos negar que a fé é necessária para uma boa vida social. No entanto, vemos que a nossa sociedade mais voltada para o individualismo vê o outro não como alguém em quem se pode confiar mas alguém que esta a competir connosco e de quem tem de duvidar. O homem desta nossa sociedade parece que não confia em mais ninguém senão em si próprio. O que tem valor é o que ele próprio e sozinho descobriu e construiu. 

De certa maneira, podemos dizer que este individualismo que vê no outro um concorrente e um inimigo que não dá nada mas que pretende roubar algo é um obstáculo à fé e à confiança entre as pessoas e, consequentemente, à fé em Deus, à fé religiosa. 

A fé é-nos apresentada, pelo autor da carta aos hebreus como: “a garantia dos bens que se esperam e a certeza das realidades que não se vêem”. Tal garantia nasce de uma atitude necessária para haver fé: a confiança. 

A fé não se resume a acreditar em alguns artigos. A fé é uma adesão a uma pessoa. A palavra fé em hebraico (emuna) tem a mesma raiz que a nossa resposta de crentes “Amém”. Assim sendo, a fé é uma resposta de confiança a alguém sobre o qual construímos a nossa existência. 

Esta confiança nasce de uma aposta que temos de fazer na nossa vida. Como na nossa experiência de amizades nós não temos 100% de certezas. Temos fortes indícios da fidelidade de Deus que podemos encontrar na Sagrada Escritura e naqueles que arriscaram e confiaram a Deus e que atestam que a fé dá sentido à sua vida. Não temos 100% de certezas mas temos fortes indícios e depois de arriscarmos vemos que a fé é uma totalidade de sentido para a nossa vida e é coerente.

Assim sendo, porque acreditamos na fidelidade de Deus confiamos e entregamo-nos a Ele. A fé é assim a atitude fundamental do homem em relação a Deus. A fé mais que acreditar que Deus existe é acreditar que eu existo para Deus. A fé é uma atitude inclusiva: implica a fidelidade de Deus para com o Homem e a entrega confiante do Homem a Deus. A fé é uma atitude existencial em que o homem entra em relação com Deus confiando nele e agindo em função daquilo que acredita. A fé em Deus exige fidelidade à relação que se estabelece com Ele. Assim sendo, a fé é coerente e oferece-se como uma oferta de sentido para aqueles que acreditam. 

Prova desta coerência de sentido é o exemplo de Abraão e de Sara que a Carta aos Hebreus nos apresenta e que são modelos de fé para os crentes de todos os tempos. Tanto Abraão como Sara, atentos aos apelos de Deus, viveram empenhados em responder aos seus desafios e conseguiram descobrir os bens futuros nas limitações e na caducidade da vida presente. 

A vida de fé não é fácil e são muitos os desafios e os obstáculos que se nos colocam. No entanto, ela é o que dá sentido ao nosso peregrinar. Todos nós, caminhando com os pés bem assentes na terra, devemos ter sempre os olhos colocados naquilo que acreditamos. 

É este o conselho que o livro da Sabedoria oferecia aos judeus, que viviam na diáspora num ambiente de idolatria e de imoralidade que colocava em risco a sua fé: “Para que, sabendo com certeza a que juramentos tinham dado crédito, ficassem cheios de coragem.” Na verdade, foi a fé que permitiu aos judeus piedosos viverem sempre em coerência com a sua fé em Deus que se manifesta numa nova relação de fraternidade: “Os piedosos filhos dos justos ofereciam sacrifícios em segredo e de comum acordo estabeleceram esta lei divina: que os justos seriam solidários nos bens e nos perigos”. 

Como cristãos também nós vivemos em função da fé. O Reino de Deus é o dom e a tarefa que Jesus nos oferece. Como ouvimos, no evangelho de hoje, o Pai promete-nos o seu Reino, “reino eterno e universal: reino de verdade e de vida, reino de santidade e de graça, reino de justiça, de amor e de paz” (Prefácio de Cristo Rei).

É esta a esperança da nossa fé. Todos nós esperamos os novos céus e a nova terra onde a comunhão e a paz entre os homens e destes com Deus seja uma realidade. Isto é o que esperamos que aconteça na Parusia, ou seja na última vinda gloriosa de Cristo. 

No entanto, esta feliz esperança não nos despede das nossas funções. Pelo contrário ela impele-nos a agir em função daquilo que esperamos e a aceitar na nossa vida pessoal e social este reino que se nos oferece. Porque, “a quem muito foi dado muito será exigido” e a nós foi dado, em primeiro lugar e como promessa, o Reino de Deus é que podemos vender tudo e dá-lo em esmola. Deus não tira nada mas dá tudo. Ele dá-nos o seu reino. E quem aceita este reino outra atitude não pode adoptar senão a partilha e a dádiva. Assim como Jesus deu a sua vida para que todos tenham vida assim também nós nos devemos dar e gastar pelos outros. 

Caríssimos irmãos, a nossa fé é tudo menos anestesiante. A nossa fé tem de ser uma fé vigilante e activa. É esta a recomendação que Jesus nos dá através das parábolas do servo e do patrão, do dono e do ladrão e do administrador que escutamos no evangelho de hoje. 

A rotina, a monotonia, a repetitividade e a banalidade de todos os dias não devem enfraquecer a nossa fé e a nossa esperança. É verdade que a repetição dos mesmos gestos da fé arriscam-se a perder todo o seu esplendor. Mas é no quotidiano concreto que eu sou chamado a viver a minha fé como fonte de sentido para a minha existência com uma fidelidade nova e criativa. 

Cada novo dia a fé no Reino de Deus, a Páscoa da Criação, deve reacender a minha esperança e levar-me a uma atitude de vigilância. Os discípulos de Jesus não vivem de braços cruzados sem fazer nada numa atitude de comodismo e resignação. Os discípulos de Jesus estão sempre disponíveis para acolher o Senhor que Vem até nós e que nos convida a construir o seu reino. 

O juramento a que nós damos crédito é o reino de Deus. Assim, cheios de coragem, actuemos em conformidade com aquilo que acreditamos antecipando, no já e agora da nossa historia, a eternidade do amor. É esta fé activa que dá sentido a nossa vida.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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