Ano C – XV Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Deut 30, 10-14;
Salmo: Sl68 (69), 14 e 17. 30-31. 33-34. 36ab-37
ou Sl 18 B (19), 8. 9. 10. 11;
2ª Leitura: Col 1, 15-20;
Evangelho: Lc 10,25-37

A liturgia da Palavra deste XV domingo do tempo comum, através da pergunta feita pelo doutor da lei, expressa o desejo profundo do ser humano: “Mestre, que hei-de fazer para receber como herança a vida eterna?”, ou seja, que devemos fazer para sermos pessoas verdadeiramente felizes e realizadas. 

Jesus, apesar desta pergunta não ter sido feita com intenção recta mas com o intuito de o experimentar, responde a esta questão humana fundamental. No entanto, Jesus não se limita a dar uma simples resposta mas implica o seu interlocutor na resposta. Jesus remete-se à lei de Deus e pergunta ao doutor da lei como a lê, ou seja, como a interpreta. Neste remeter-se de Jesus à lei de Deus para responder a uma das questões fundamentais que o homem traz no seu coração podemos concluir o valor positivo que tem a lei de Deus na nossa vida. Na verdade, a lei de Deus é um caminho de vida e de felicidade e não apenas de proibições e de limitações.  

Interpelado por Jesus, o Doutor da lei responde, baseando-se na Sagrada Escritura, “amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento; e ao próximo como a ti mesmo”. O doutor da Lei responde a Jesus citando Dt 6,5 e Lv 19, 18. 

Jesus concorda plenamente com a resposta do doutor da lei e convida não só o doutor da lei mas também todos nós a pôr isso em prática: “respondeste bem. Faz isso e viverás”. Assim sendo, Jesus afirma que o caminho a seguir para receber a vida eterna como herança não se reduz a um acto isolado que depois de cumprido nos deixa tranquilos mas é uma atitude radical e permanente, uma atitude de amor a Deus e ao próximo. No entanto, talvez seja conveniente deter-nos um pouco no que consiste o amor a Deus e o amor ao próximo. 

Antes de mais é de referir que estes dois amores não são dois amores diferentes mas duas dimensões do único amor que os discípulos de Jesus devem viver. O amor que conduz à vida eterna é um amor que se concretiza numa dimensão vertical (para com Deus) e numa dimensão horizontal (para com o próximo). 

Muitas vezes esquecemo-nos desta verdade na nossa vida de crentes. Pensamos que ser cristão é algo que se resume à nossa relação com Deus. Pensamos que ser bom cristão limita-se a rezar muito, a vir à missa ao domingo e a amar muito a Deus Nosso Senhor. No entanto, se é assim que estamos a viver a nossa vida de fé, estamos mancos. Falta-nos a outra dimensão essencial da nossa existência de cristão: o amor ao próximo. Amor a Deus e amor ao próximo são as duas pernas da nossa existência cristã. Se nos falta uma destas pernas estamos a mancar. 

No entanto, o amor de que estamos a falar não é algo que se reduza a uma pura emoção ou a um sentimento. O amor que Jesus nos pede a Deus e aos irmãos deve traduzir-se em acções concretas. O amor que Jesus nos pede é um amor de obras e não só de palavras. 

Em primeiro lugar o amor que devemos ter para com Deus deve ser um amor “com todo o teu coração e com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento”. Toda a existência do homem está implicada no amor a Deus. Devemos amar a Deus com todo o coração, devemos amar a Deus com um coração indiviso. Quantas vezes dizemos que amamos a Deus mas são outras coisas aquelas que enchem o nosso coração. Quantas vezes dizemos que somos cristãos mas aquilo que enche o nosso coração é o ter, o poder e o prazer. Amar a Deus é amá-lo com todo o coração. Na verdade, só Deus é que é capaz de encher o nosso coração. 

Devemos amar a Deus com toda a nossa alma, com toda a nossa vida e com toda a nossa força. Amar a Deus com toda a vida é estar disposto a enfrentar as dificuldades, as incompreensões e as discriminações que surgem da nossa fidelidade a Deus. Sabemos que os valores que regem o nosso mundo são diferentes dos valores de Deus e sabemos que se quisermos ser fieis a Deus vamos entrar em choque com a sociedade e que isto vai causar sofrimento. Amar a Deus com toda a alma, com toda a vida, com todas as forças é estar disposto a dar, a gastar a sua vida pelos valores de Deus. 

Devemos amar a Deus com todo o nosso entendimento. O aspecto racional também faz parte do nosso amor de Deus. Devemos mostrar que a nossa fé em Deus é credível. Amar a Deus não se reduz a uma simples emoção. 

No entanto, o cristão também é aquele que ama o próximo como a si mesmo. Assim como gostamos de ser tratados assim devemos tratar o próximo. Assim como gostamos de ser perdoados, ajudados, consolados, estimulados assim devemos perdoar, ajudar, consolar e estimular o nosso próximo. Não te limites a não fazeres aos outros aquilo que não queres que não te façam a ti, mas faz ao teu próximo aquilo que queres que te façam a ti; trata o teu irmão como gostarias de ser tratado. Uma religião que não ama o seu irmão é uma hipocrisia e uma mentira. O amor a Deus nosso Pai leva-nos e exige de nós o amor aos irmãos. Como podemos dizer que amamos a Deus se não amamos os outros seus filhos que são nossos irmãos? 

No entanto, e apesar de ser tão claro o que devemos fazer para alcançarmos a vida eterna não são raras as vezes que tentamos arranjar desculpas para deixarmos de fazer aquilo que deve ser feito. A liturgia da Palavra deste domingo apresenta-nos duas dessas desculpas que apresentamos. 

Uma das desculpas que usamos muitas vezes é que amar a Deus com todo o coração e com toda a alma, com todas as forças e com todo o entendimento e ao próximo como a nós mesmo é algo que está acima das nossas forças e capacidades. Contra esta desculpa que usamos está a afirmação de Deus que escutávamos na primeira leitura: “este mandamento que hoje te imponho não está acima das tuas forças nem fora do teu alcance”.

Outra das desculpas que usamos é a mesma do doutor da lei: “E quem é o meu próximo?”, ou seja, a nossa ignorância. Somos obrigados a admitir que no tempo de Jesus a questão de quem seria próximo era uma questão complicada onde havia opiniões muito divergentes. Para dissipar dúvidas e ignorâncias sobre quem é o nosso próximo, sobre quem deve ser o destinatário do nosso amor o Senhor Jesus conta a parábola do bom samaritano. 

Um homem não identificado é assaltado, mal tratado e deixado meio-morto a beira do caminho. Passam junto deste homem desvalido mas sem parar dois homens da religião: um sacerdote e um levita. Pelo seu comportamento quer o sacerdote quer o levita, mostraram que apesar de terem conhecimentos acerca de Deus não o conhecem verdadeiramente, porque são incapazes de assumir a atitude da compaixão que caracteriza o nosso Deus e que se vai manifestar na outra personagem que passa pelo caminho, se aproxima, vê e cuida do desvalido do caminho, ou seja, o samaritano. Foi exactamente o samaritano, aquele que a religião de Israel considerava um herege e um inimigo, que revelou conhecer Deus pela compaixão manifestada para com o homem assaltado e espancado. 

Depois de ter contado a presente história e para ver se realmente as dúvidas sobre quem é o próximo se tinham dissipado, Jesus pergunta: “Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?». O doutor da lei respondeu: O que teve compaixão dele”. A conclusão é óbvia. O nosso amor ao próximo deve ser um amor capaz de ultrapassar todas as barreiras e que se sabe tornar próximo. O amor ao próximo exige que todos nós nos aproximemos dos outros, especialmente daqueles que mais precisam. Não podemos estar à espera que nos peçam ajuda. O verdadeiro amor ao próximo leva-nos a adivinhar as suas necessidades e a aproximarmo-nos dele. 

Termina este texto evangélico com a expressão que nos leva a iniciar o evangelho na nossa vida quotidiana: “então vai e faz o mesmo”. Se sabemos o que fazer, se sabemos que não é uma tarefa impossível e se não temos dúvidas, de que estamos à espera para nos aproximarmos, com o nosso amor compassivo, de todos aqueles que mais necessitam?

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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