Ano C – XVI Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Gen 18, 1-10a;
Salmo: Sal 14 (15), 2-3a. 3cd-4ab. 4c-5;
2ª Leitura: Col 1, 24-28;
Evangelho: Lc 10, 38-42.

Acolhidos para acolher!

Vivemos num mundo de “peregrinos” voluntários ou forçados. São muitos aqueles que em busca de melhores condições de vida deixam a segurança do seu lar e das suas convivências. São muitos aqueles que são expulsos pelo desemprego, pela pobreza, pela intolerância e pela perseguição das suas pátrias!

Nós próprios, enquanto cristãos, dizemos que somos peregrinos. A nossa pátria definitiva é o céu, a vida no seio de Deus. Para lá caminhamos tendo os olhos postos na meta que nos espera mas os pés bem assentes nesta terra. A nossa condição de peregrinos leva-nos a agir em função daquilo que esperamos e a irmos construindo já neste mundo o reino de Deus, a verdadeira comunhão de Deus com os homens e dos homens entre si. 

O próprio Jesus no evangelho deste domingo é-nos apresentado como um “peregrino”. Ele enquanto caminha resolutamente para Jerusalém, para aí fazer o dom total de si, entra numa povoação. Povoação essa sem nome. Povoação que pode ser qualquer cidade, vila ou aldeia deste século XXI. E ante tão ilustre protagonista, há uma mulher, de nome Marta, que o recebe em sua casa e que começa logo a trabalhar nas lides domésticas para que nada lhe falte. No entanto, tinha-se esquecido daquilo que era mais importante: o acolhimento do hóspede, o dar-lhe tempo, o escuta-lo!

Enquanto, Marta andava atarefadíssima, sem tempo para si e sem tempo para o seu anfitrião, sua irmã aprendia a magnifica lição de hospitalidade que Jesus trazia àquela povoação. Na verdade, Maria sentando-se aos pés de Jesus escutava a Sua Palavra. Parece-nos banal esta descrição, mas não o é. A atitude de Jesus e de Maria são tudo menos banais. São atitudes comprometedoras. 

Na verdade, em Israel a mulher estava numa relação de subordinação em relação ao homem. Primeiro, estava subordinada ao pai e depois, quando se casava, estava subordinada ao seu esposo a quem devia servir como esposa e mãe. Ao nível cultual comparava-se com os escravos nos deveres religiosos e não era instruída na Torá. Na vida civil, a mulher não tinha voz e não era contada na assembleia do povo. Assim sendo, a mulher devia aparecer em público o menos possível. 

Face a este cenário de descriminação espanta-nos a relação de Jesus com as mulheres. Na verdade, Jesus acolhe sem distinção homens e mulheres, estabelecendo entre eles uma total igualdade de dignidade diante do Reino que há-de vir. Magnifico exemplo desta hospitalidade de Jesus na sua vida e no seu ministério é a página evangélica de hoje. Na verdade, é Lucas o evangelista que nos narra o grupo das mulheres que seguem a Jesus, é o evangelista que nos mostra até onde vai a hospitalidade de Jesus. Ao permitir que Maria se sente aos seus pés e ao abrir-lhe os tesouros da Palavra de Deus, Jesus esta a realizar a verdadeira hospitalidade que vence os preconceitos sociais e que é a antecipação do reino nesta terra. Na verdade, ao permitir que Maria se sente aos seus pés, posição típica dos discípulos diante dos seus mestres, e ao abrir-lhe os tesouros da Palavra de Deus, Jesus estava a vencer o preconceito cultural de então que excluía às mulheres alguns direitos religiosos e sociais e que levava a que os mestres não aceitassem mulheres no grupo dos seus discípulos. 

E tudo isto não se realiza na pressa a que estamos habituados e a que somos impelidos nesta sociedade que corre desenfreadamente atrás da sua própria sombra no desejo nunca conseguido de a abarcar totalmente. 

Os tempos verbais utilizados, particípio e pretérito imperfeito, indicam-nos a continuidade e o tempo gasto nesta hospitalidade. Jesus quando acolhe alguém não tem pressas. Nesse momento, o mais importante é a pessoa que está diante de si.  

A eucaristia é uma experiência privilegiada desta hospitalidade que Jesus oferece a cada um de nós. À sua mesa sentam-se todas as pessoas independentemente da sua cor, idade, sexo, posição social, conta bancária e capacidades. Jesus acolhe a todos. Acolhe as suas dores, os seus problemas, as suas ânsias e as suas alegrias e a todos eles oferece o pão da sua palavra e do seu corpo para que nós, ao comungarmos todos o mesmo pão, nos tornemos o único corpo de Cristo que é a Igreja. Tanto que temos de aprender da hospitalidade de Jesus. 

Também nós, a exemplo de Abraão, como escutávamos na primeira leitura desta celebração, enquanto estamos sentados à entrada da nossa casa temos de levantar o nosso olhar. E ao levanta-lo não veremos só três mas um cortejo inúmero de peregrinos que temos de acolher como Jesus acolhe. 

Na verdade, a primeira leitura deste domingo é uma belíssima página da hospitalidade nómada. Abraão acolhe na sua tende os três homens que passam. Não se limita a oferecer-lhes água para lavarem os seus pés mas prepara um pequeno banquete com pães cozidos no borralho, um vitelo tenro, manteiga e leite. E como se isso não bastasse ainda ficou de pé junto dos hospedes enquanto comiam para os servir e para que nada lhes faltasse. Assim sendo, a presente leitura apresenta-nos um Abraão bondoso, misericordioso, acolhedor, hospitaleiro e generoso. E não podemos pensar que Abraão tenha agido assim em busca da recompensa. Na verdade, no texto nada nos indica que Abraão sabia que nestes três homens que hospedava era o próprio Deus que acolhia.  

No entanto, Deus não Deixa de recompensar a hospitalidade de Abraão. Porque foi capaz de acolher a sua visita, Deus promete a Abraão o dom desejado de um filho. Deus não deixa de recompensar quem sabe acolher os outros. 

Também nós hoje somos chamados a acolher a visita de Deus que nos acolhe. Hoje em dia, Deus continua-nos a visitar e a solicitar o nosso acolhimento através dos nossos irmãos que mais sofrem, dos mais pequeninos. Na verdade, é o próprio Jesus que nos diz na parábola do julgamento das nações: “em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes” (Mt 25, 40). Na mesma linha, S. Paulo da Cruz afirmava que via o nome de Jesus gravado na fronte dos pobres. 

Deus continua a visitar o seu povo e a pedir a nossa hospitalidade através dos famintos, dos sedentos, dos migrantes, dos despojados, dos doentes e dos encarcerados (cf. Mt 25, 37-40). Será que a exemplo de Abraão somos suficientemente generosos e hospitaleiros para os acolher e assim acolher o próprio Deus? Podemos estar seguros que se soubermos acolher a visita de Deus através dos mais carenciados também nós, a exemplo de Abraão, seremos cumulados das bênçãos de Deus.

Vivamos então a presente eucaristia como uma forte experiência de acolhimento do Homem por Deus e dela aprendamos a acolher nos nossos corações e nas nossas vidas àqueles peregrinos que por nos passam reclamando compaixão e com os quais Deus se identifica.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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