Ano C – XVII Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Gen 18, 20-32;
Salmo: Sl137 (138), 1-2a. 2bc-3. 6-7ab. 7c-8;
2ª Leitura: Col 2, 12-14;
Evangelho: Lc 11, 1-13.

A liturgia da Palavra do XVII domingo do tempo comum convida-nos a reflectir sobre a oração e ensina-nos a forma correcta de levarmos a cabo esta acção fundamental da vida cristã. Com efeito, a oração não só tem sentido como é algo de extrema importância na vida dos crentes, pois a oração é expressão privilegiada da nossa fé. A oração é a “fé em acção” (D. Anacleto), porque pela oração exercemos a nossa plena confiança em Deus. No entanto, não são poucas as vezes que os crentes se sentem um pouco perdidos no que à oração se refere. Sabemos e reconhecemos a importância da oração mas não sabemos como rezar. É por isso que também nós, a exemplo dos discípulos, devemos pedir: “Senhor, ensina-nos a orar, como João Baptista ensinou também os seus discípulos”. 

O presente pedido dos discípulos brota da oração Jesus. Os discípulos viram Jesus a rezar, esperaram que Ele terminasse a sua oração e pediram-lhe que os ensinasse a rezar. O evangelista Lucas, no seu evangelho, dá muita importância aos momentos de oração de Jesus. O Jesus apresentado por S. Lucas é um Jesus que reza. No seu evangelho, Lucas apresenta-nos Jesus a rezar várias vezes: baptismo, antes da eleição dos doze, antes do primeiro anúncio da paixão, na transfiguração, depois do regresso dos discípulos em missão, na última ceia, no Getsémani e na cruz. O facto de Lucas apresentar-nos Jesus, o filho de Deus, tantas vezes em oração é uma advertência para todos os crentes. Se Jesus necessitava destes encontros de intimidade com Deus e de discernimento da sua vontade quanto mais nós necessitamos deles. 

A oração de Jesus era de tal modo intensa e feita com tal intimidade que os discípulos pediram a Jesus que os ensinasse a rezar só quando Ele terminou de rezar. Na verdade, o Senhor Jesus é modelo de oração para todos nós. A nossa oração de cristãos deve ser uma oração como a de Jesus. É por isso que o Senhor Jesus nos ensina a rezar, ensinando-nos o Pai-Nosso, a súmula do evangelho. 

A versão do Pai-Nosso que escutamos, hoje, no evangelho é um pouco diferente da versão que estamos habituados a rezar. Na verdade, a versão do Pai-Nosso adoptada pela Igreja é a versão do evangelista Mateus. Apesar de coincidirem no essencial, a versão de Lucas e Mateus diferem entre si. O Pai-Nosso da versão de Lucas é mais breve (só tem cinco petições) do que o da versão de Mateus (tem sete petições).

A oração do Pai-Nosso divide-se em duas partes. Os primeiros pedidos que constituem a primeira parte desta oração são teologais, ou seja, dizem respeito a Deus. Na verdade, “é próprio do amor pensar antes de mais n’Aquele que amamos” (Compendio do Catecismo da Igreja Católica, 587). A segunda parte do Pai-Nosso é composta por petições mais humanas “que apresentam ao Pai de Misericórdia as nossas misérias e as nossas expectativas” (Compendio do Catecismo da Igreja Católica, 587).       

Depois desta apresentação geral da oração do Pai-Nosso, talvez nos seja de grande utilidade, repassarmos, passo a passo, esta oração tão fundamental mas tantas vezes desconhecida. Na verdade, só assim aprenderemos a rezar correctamente. Só assim a nossa oração será verdadeiramente uma oração cristã, ou seja, uma oração a exemplo e segundo os ensinamentos de Jesus. 

Começa a presente oração com o vocativo “Pai”. Esta breve invocação já diz muito da especificidade da oração cristã e da forma correcta de a realizar. A oração cristã deve ser uma oração filial. É esta a especificidade da oração cristã. “Porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: “Abbá! – Pai!” (Gl 4,6). Devemos rezar a Deus como um filho fala com o seu pai, com confiança e ternura e não como quem fala com um patrão, cheio de medo. Devemos rezar a Deus com a mesma confiança, ousadia, humildade e respeito com que Abraão, na primeira leitura deste domingo, se dirigia a Deus pedindo a sua misericórdia. Além disto, a invocação “Pai” também nos recorda a nossa condição de irmãos. Não sou o único a invocar Deus como Pai, não sou o único filho de Deus. Assim sendo, se todos somos Filhos de Deus, todos somos irmãos e como irmãos devemos viver.

A este Pai comum pedimos, em primeiro lugar, que o seu nome seja santificado. Na verdade, muitas vezes os cristãos através da sua acção podem abusar e desonrar o nome de Deus. Quantas vezes, os cristãos invocaram ou ainda invocam o nome de Deus para justificarem atitudes de intolerância e de violência como foi o caso das cruzadas. Pedir que Deus santifique o seu nome é um compromisso a que os cristãos na sua vida mostrem a santidade de Deus. De seguida, pedimos pelo advento do reino de Deus e ao fazermos este pedido nós próprios nos comprometemos com a edificação deste reino, pois quem deseja algo actua em função do desejado. O nosso principal e fundamental pedido deve ser o Reino de Deus, deve ser a vontade de Deus e não as nossas vontades mesquinhas. É triste ver como os cristãos muitas vezes reduzem a sua oração a um comércio, a uma tentativa de convencerem Deus das suas vontades egoístas e mesquinhas.

A segunda parte do Pai-Nosso começa pelo pedido do pão, não de um pão qualquer mas do pão de cada dia e nosso: “dai-nos em cada dia o pão da nossa subsistência”. Desta petição podemos concluir que o pão que está na minha mesa não é meu, mas nosso (meu e dos irmãos) e que devemos pedi-lo com confiança e só para hoje, como as crianças que confiam. 

Segue-se o pedido pelo perdão dos pecados justificado pelo facto de também nós perdoarmos a quem nos tem ofendido. Quem pede o perdão de Deus deve aprender a viver desse perdão e a dá-lo aos demais. Não recebemos verdadeiramente o perdão de Deus se formos incapazes de dar o nosso perdão. Para sermos perdoados temos de saber perdoar e “perdoar não é esquecer mas é aprender a recordar de outra maneira. Perdoar é afirmar que alguém é mais do que os seus actos”.

Finaliza a oração do Pai-Nosso, segundo a versão de Lucas, com o pedido para não cairmos na tentação. Pedimos não que as tentações desapareçam mas que não caiamos nelas. A tentação é algo comum a todos os seres humanos. Todos os homens sentem muitas vezes o seu coração divido e no meio de um campo de batalha. Até o próprio Jesus foi tentado. Nestes momentos devemos pedir o auxílio de Deus para vencermos a tentação e podemos estar seguros, porque “Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças” (1 Cor 10, 13). Na verdade, “porque Ele mesmo [Jesus] sofreu e foi tentado é que pode socorrer os que são tentados” (Heb 2, 18). “De facto, não temos um Sumo Sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, pois Ele foi provado em tudo como nós, excepto no pecado.” (Heb 4, 15). 

É esta a forma correcta de rezarmos. Outras palavras poderemos usar na nossa oração mas outras coisas não deveremos pedir. Na verdade, como nos recorda, Santo Agostinho, “quaisquer outras palavras que podemos usar na oração, ou precedendo-a … ou prolongando-a …, nada mais dizem além do que se encontra na oração do Senhor… quem pede alguma coisa que não tenha qualquer relação com esta oração … a sua oração é certamente segundo a carne”.  

Depois de ter ensinado o Pai-Nosso Jesus recomenda aos seus discípulos: “Pedi e dar-se-vos-á; procurai e encontrareis; batei à porta e abrir-se-vos-á”. Mas por que motivo a nossa oração deve ser uma oração de petição? Não conhece já o Senhor aquilo que necessitamos? Santo Agostinho responde assim a estas interrogações: “O Apóstolo recomenda: apresentai a Deus os vossos pedidos, não quer dizer que os apresentemos para que Deus os conheça, pois Ele conhece-os perfeitamente muito antes de os formularmos, mas para que os conheçamos nós mesmos com perseverança diante de Deus e não com ostentação diante dos homens”. Quem pede algo a alguém é porque confia em quem pede e porque está consciente de que sem ajuda não o poderá alcançar. 

Que a participação nesta eucaristia a todos nos ensine a rezar segundo o espírito de Jesus.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on print
Print
Share on email
Email