Ano C – XVIII Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Co (Ecle) 1, 2; 2, 21-23;
Salmo: Sl 89 (90), 3-4. 5-6. 12-13. 14 e 17ac;
2ª Leitura: Col 3, 1-5. 9-11;
Evangelho: Lc 12, 13-21.

“A Vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens”

Todos nós desejamos ser pessoas realizadas e felizes, homens e mulheres com uma autêntica qualidade de Vida. Este desejo está em perfeita harmonia com o facto de termos sido criados por Deus. Na verdade, fomos criados para sermos felizes e pessoas realizadas. É este o grande dom e a grande tarefa que Deus nos confia. 

No nosso peregrinar quotidiano, todos nos esforçamos para sermos felizes. O grande motivo que leva as pessoas a fazerem as coisas é o seu desejo de serem mais felizes e mais realizadas. 

Mas o que é ser feliz? A que corresponde a verdadeira auto-realização e a verdadeira qualidade de vida?

São vários os modelos de felicidade que se nos vendem nestes dias. Modelos mais quantitativos que qualitativos. A felicidade é apresentada como uma coisa que se pode contar e não como algo que se pode viver e desfrutar. 

Desde pequenos, quer seja na família, quer seja na escola, quer seja nos meios de comunicação social passam-nos a ideia de que se queremos ser felizes temos de ter uma recheada conta bancária, um bom carro e um emprego em que se faça pouco e se ganhe imenso. 

São estes os exemplos que nos são propostos e nós, consciente ou inconscientemente, vamo-nos apropriando deles e tornando-os as metas pelas quais lutamos diariamente. 

No entanto, cada vez que conseguimos aproximar-nos destas metas a que nos propomos não nos sentimos felizes. Sentimos a nossa conta bancária a aumentar mas aquela felicidade e realização plena pela qual tanto lutamos parece não chegar. Automaticamente nos desculpamos: “Eu ainda não me sinto feliz e realizado porque ainda não atingi o valor máximo da minha conta bancária. Tenho que ganhar mais!” E assim entramos num ciclo vicioso que nos fecha sobre nós mesmos e que em vez de nos conduzir à felicidade conduz-nos à alienação do ter, do poder e do prazer. 

No entanto, nós não somos incultos. Quantas vezes é que em algum momento de lucidez já não passou pela nossa mente ou chegou mesmo a sair, como um desabafo, dos nossos lábios aquela lamentação que ouvíamos na 1ª leitura do livro do Eclesiastes: “Mas então, que aproveita ao homem todo o seu trabalho e a ânsia com que se afadigou debaixo do sol? Na verdade, todos os seus dias são cheios de dores e os seus trabalhos cheios de cuidados e preocupações; e nem de noite o seu coração descansa.” 

Ante esta situação até certas correntes de pensamento laicas afirmam o sem-sentido e a futilidade de uma vida que só busca o material, a inutilidade da busca da felicidade, o fracasso de uma vida que é condenada à morte. 

Todos nós reconhecemos a verdade e a dor destas palavras. Mas fazemo-nos surdos e pensamos que se adquirirmos mais coisas é que seremos realmente felizes. 

É este o sentimento daquele irmão que no evangelho interpela Jesus: “Mestre, diz a meu irmão que reparta a herança comigo”. 

É um irmão que pede a Jesus que resolva um conflito de irmãos. No entanto, não são os sentimentos de fraternidade que levam o irmão a ir ter com Jesus. É a avareza, é aquele desejo de acumular sempre mais esquecendo-se do resto. 

Jesus não cede aos desejos deste irmão. No entanto, aproveita esta situação que ocorre no Seu caminho para Jerusalém, onde dará a sua vida como dom, para fazer uma catequese sobre a atitude que devemos ter face aos bens materiais. 

Porque quer realmente resolver um conflito de irmãos, que infelizmente tantas vezes acontece entre os membros da comunidade cristã, Jesus afirma que “a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens” e para comprovar isto conta-nos a excelente parábola que escutamos e que nos leva a pensar na insensatez que constitui a escravidão aos bens materiais.

Os bens materiais, como toda a criação, são bons porque foram criados por Deus e com eles podemos fazer verdadeiros milagres. No entanto, alguns usos que fazemos dos bens materiais são perversos. Os bens estão ao nosso serviço para proporcionarem a todos condições de vida dignas. Os bens existem para servir a nossa relação com Deus, com a família e com os irmãos. Quantos insensatos que trabalhando pela ilusão da felicidade do ter sacrificam o tempo e a disponibilidade para Deus, para a família e para os irmãos, fonte de verdadeira felicidade. 

Caros irmãos, a liturgia deste Domingo não condena a riqueza mas a deificação que fazemos da riqueza. Os bens existem para nos servir e não para nos escravizar. Quantas vezes sacrificamos o tempo que era devido à família ou aos irmãos para ganhar mais uns cêntimos? Quantos de nós não olhamos para os outros só em função daquilo que eles podem produzir ou nos dar e não como irmãos que devemos respeitar e amar? Quantos de nós não entramos no círculo vicioso do ter que pôs em perigo e que até pode ter danificado a nossa saúde e a nossa família?

É assim que acontece quando fazemos do dinheiro o deus da nossa vida: tornamo-nos egoístas, fechamo-nos em nós mesmos, desumanizamo-nos, tornamo-nos insensíveis aos valores do Reino. Quando o coração está cheio da avareza, do egoísmo e da obsessão do ter o Homem torna-se indiferente a Deus e é capaz de escravizar o seu irmão e de cometer as maiores injustiças. 

Tomemos consciência da escravidão, maior ou menor, que todos temos dos bens materiais. Todos nós temos um pouco de materialismo e a todos, sem excepção, Jesus nos diz: “A vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens”. Esta advertência não é só para os ricos. É para todos, ricos ou pobres, que vivem obcecados com os bens, orientam a sua vida no sentido do ter e fazem dos bens materiais os deuses que condicionam a sua vida e o seu agir.

Caros irmãos, a liturgia deste Domingo não se limita a condenar uma situação. Ela aponta caminhos. Ela recorda o verdadeiro caminho para termos uma vida feliz e realizada. 

Que fazer para atingir a felicidade? Responde-nos Paulo como respondeu à comunidade de Colossos, convocando-os a viverem, no dia-a-dia, a sua condição de baptizados, ou seja, de participação no mistério Pascal de Cristo: “Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus.”

Caros irmãos, só seremos pessoas felizes e realizadas se formos àquilo que estamos chamados a ser. Fomos criados à imagem e à semelhança de Deus. Muitas vezes o egoísmo, a soberba, a avareza escureceram esta imagem. No entanto, todos nós, como baptizados estamos chamados à aspirar as coisas do alto e a nos ir renovando à imagem do nosso criador. 

Fomos criados à imagem de Deus e Deus é Amor e comunhão que se dá e gera vida. É este o nosso projecto para sermos felizes. Ninguém pode ser feliz sozinho. Só seremos felizes quando, à imagem da Santíssima Trindade, vivermos em plena Comunhão uns com os outros e com Deus e quando soubermos gastar a nossa vida em favor desta humanidade que padece e que precisa da compaixão de Deus.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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