Ano C – XXIII Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Sab 9, 13-19 (gr. 13-18b);
Salmo: Sl 89 (90), 3-4. 5-6. 12-13. 14 e 17;
2ª Leitura: Flm 9b-10. 12-17;
Evangelho: Lc 14, 25-33.

Apesar de todas as correntes laicistas e ateias podemos dizer que ainda vivemos numa sociedade maioritariamente cristã, ou, pelo menos, que assim se afirma. Assim sendo, também hoje grandes multidões acompanham Jesus (cf. Lc 14, 25).

No entanto, Jesus não está preocupado com a quantidade de discípulos mas com a qualidade dos seus discípulos. Por isso, no episódio do evangelho que nos é proposto para este Domingo, Jesus mostra as exigências que comporta a opção pelo Reino. 

O evangelho deste domingo insere-se na grande viagem de Jesus até Jerusalém onde se realizará o dom total de Si para a vida do mundo através da sua Paixão, Morte e Ressurreição. As multidões seguem Jesus, vão atrás dele. No entanto, muitos deles não estão dispostos a seguir os seus passos de fidelidade total a Deus e aos irmãos que se traduz na entrega da vida para que os outros tenham mais vida. Segue-se Jesus mas não com as motivações de Jesus. Também hoje são muitos aqueles que se dizem cristãos e que querem seguir Jesus mas não o fazem com as motivações de Jesus, com os valores do Reino de Deus, “reino eterno e universal, reino de verdade e de vida, reino de santidade e de graça, reino de justiça, de amor e de paz” (Prefacio da Festa de Cristo Rei). Refiro-me àqueles para quem o cristianismo é apenas um acto social, àqueles que ao longo de toda a sua vida vão quatro vezes à Igreja (Baptismo, Comunhão, Matrimónio e Funeral), àqueles para quem o cristianismo se reduz a uma religião de tapa buracos e que por isso só quando se vêem em aflições recorrem a Deus; àqueles que até participam assiduamente na celebração dos mistérios da sua fé mas cuja vida não se orienta pelos valores do Reino. 

Ante esta situação e também hoje Jesus volta-se para nós e diz-nos que segui-lo não é algo para ficar bem na fotografia, não é algo politicamente correcto mas é algo que exige de nós entrega, renuncia e fidelidade à sua pessoa e à sua mensagem. 

O evangelho deste domingo fala-nos de três exigências, todas elas subordinadas ao tema da renúncia, que são pedidas àqueles que verdadeiramente e com fidelidade querem seguir Jesus. O preferir Jesus à própria família, a renúncia à própria vida e a renúncia aos bens materiais são as exigências que Jesus coloca aos seus discípulos e que nós, se queremos ser coerentes com a fé que professamos, temos que aceitar. 

A primeira exigência de preferir Jesus à própria família (Lc 14, 26) à primeira vista pode-nos chocar. Literalmente Jesus diz: “Se alguém vem a mim e não odeia seu próprio pai e mãe, mulher e filho, irmãos e irmãs e até própria vida, não pode ser meu discípulo”. Soam-nos demasiado forte estas palavras e de certa maneira não a esperávamos da boca de Jesus. Como pode Jesus dizer para odiar a nossa família? No entanto, não nos podemos esquecer que Jesus era um oriental e falava como os orientais. Esta expressão de “odiar” é um hebraísmo e por isso não pode nem deve ser interpretada literalmente. O que Jesus pede é o desapego completo e imediato à família e a toda a nossa tradição ancestral, aos hábitos familiares e aos usos e costumes hereditários.  

Prender-se a Jesus e seguir Jesus exige desprendimento. Quantos são àqueles que até querem seguir Jesus mas para não entrarem em contraste com a sua família, com os valores transmitidos pela sociedade (alienação do ter, do poder e do prazer), não vivem em fidelidade à sua fé. Quantos de nós já não deixamos de actuar em conformidade com a nossa fé pelo medo de entrarmos em contraste com a família, com a sociedade? 

A terceira exigência de Jesus prende-se com os bens materiais (cf. Lc 14, 33). Esta exigência relaciona-se com a primeira. Tenho de saber renunciar a uma cultura que afirma que a felicidade está intimamente ligada à quantidade de bens materiais. Há alguns domingos atrás Jesus já tinha advertido: “A vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens” (Lc 12, 15). Quem entra na aventura do seguimento de Jesus sabe que a pessoa humana não existe em função dos bens materiais, mas que os bens materiais existem em função das pessoas. Os bens não devem ser algo que nos feche em nós mesmos mas devem ser algo com o qual eu socorro e ajudo os meus irmãos. 

A segunda exigência de tomar a cruz e seguir Jesus (Lc 14, 27) é uma das características fundamentais dos discípulos de Jesus. Os cristãos sãos os discípulos do Senhor Crucificado. Foi do lado aberto de Cristo na Cruz que nasceu a Igreja. Assim sendo, a cruz de Cristo deve ser o princípio hermenêutico e crítico do ser e da autoconstrução da Igreja. A Igreja que segue o Senhor Crucificado tem de ser uma Igreja pobre, que não busque o poder. Assim sendo, os principais beneficiários da acção da Igreja devem ser os pobres. Uma Igreja que ama o Crucificado tem de amar os crucificados com quem Ele se identifica. Além disso, a Igreja que segue o Senhor Crucificado também deve ser uma Igreja fecunda no sofrimento dos seus membros e que se alegra quando é perseguida pela sua autenticidade. A Igreja, peregrina na terra, está chamada a seguir Cristo pelos passos do sofrimento, da paixão e da cruz. Tal como Jesus arriscou a sua vida em defesa dos valores do Reino, assim também a Igreja está chamada a ter uma dimensão profética. Consequentemente, cada membro da Igreja, corpo místico do Senhor Crucificado, deve seguir o caminho da cruz, o caminho da entrega da vida por amor e fidelidade. Todos e cada um dos discípulos de Jesus de Nazaré devem confrontar a sua imagem de Jesus com o Jesus Crucificado-ressuscitado. Cristo Crucificado tem de ser o critério hermenêutico e fundacional do ser, do pensar e do actuar dos seus discípulos. Os discípulos de Cristo têm de confrontar as suas vidas e a sua actuação com a Cruz de Cristo. A exemplo de Jesus, os seguidores do Senhor Crucificado devem seguir o caminho da entrega da sua vida por amor. 

São estas a exigências que Jesus coloca a todos aqueles que com verdade e sinceridade o querem seguir. Seguir Jesus é algo exigente e comprometedor. Aceitar e viver este projecto de vida é dom de Deus que tem de ser acolhido pela liberdade humana. 

Também nós podemos fazer nossas as palavras que escutamos na primeira leitura do livro da sabedoria: “Quem poderá conhecer, Senhor, os vossos desígnios, se Vós não lhe dais a sabedoria e não lhe enviais o vosso espírito santo?” (Sab 9, 17). Na verdade, neste mundo que de todos os lados somos bombardeados por valores que estão em contradição dos valores do reino, só através do dom da Sabedoria que o Espírito Santo nos concede, e que outra coisa não é que a Sabedoria da Cruz, é que podemos encontrar a verdadeira felicidade, a verdadeira qualidade de Vida que é o Reino de Deus e assim entramos num processo de conversão. Só encontrando e vivendo segundo a sabedoria da Cruz é que podemos ser felizes. “Deste modo foi corrigido o procedimento dos que estão na terra, os homens aprenderam as coisas que Vos agradam e pela sabedoria foram salvos” (Sab 9, 18).  

Quem se deixa guiar por esta sabedoria da Cruz consegue ir antecipando neste mundo o reino de Deus. Prova disto é a segunda leitura desta celebração da carta a Filémon. Esta carta apesar de ser o escrito mais breve do Apóstolo Paulo é de uma beleza e de uma actualidade formidável. Numa sociedade em que a escravatura era uma prática normal, o apóstolo não luta contra ela com as armas do mundo mas com as armas da fé. O Mistério Pascal, pelo qual participamos através do Baptismo, torna-nos todos irmãos. Assim sendo, os outros não devem ser tratados como escravos mas como irmãos. Ainda hoje existem muitas formas de escravatura (materialismo, publicidade, droga, álcool a alienação do sexo). Também nós que seguimos o Senhor Crucificado temos de lutar pela libertação do Homem antecipando no aqui e agora da história o Reino de Deus.

“Quem não toma a sua cruz para me seguir, não pode ser meu discípulo” (Lc 14, 27). Somos os discípulos do Senhor Crucificado. A nossa identidade é a Cruz de Cristo. A exemplo de Jesus, os seguidores do Senhor Crucificado devem seguir o caminho da entrega da sua vida por amor. É esta Sabedoria da Cruz que conduz a verdadeira qualidade de Vida do Reino.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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