Ano C – XXIV Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Ex 32, 7-11. 13-14;
Salmo: Sl 50 (51), 3-4. 12-13. 17 e 19;
2ª Leitura: 1 Tim 1, 12-17;
Evangelho: Lc 15, 1-32 ou Lc 15, 1-10.

A liturgia deste domingo, através de uma linguagem que se caracteriza pelo excesso, convida-nos a reflectir sobre o amor compassivo de Deus pelo pecador, amor que reabilita e transforma. 

Numa sociedade em que tudo é permitido o conceito de pecado parece que já não tem lugar. Na verdade, falar de pecado é algo que cria mau estar porque nos evoca uma proibição que foi violada e que exige um castigo que repare essa transgressão. No entanto, esta é uma concepção redutora do pecado. O pecado não é algo arbitrário. Fomos criados para a Vida Eterna, para uma vida com qualidade e para uma vida feliz. E todos os homens e mulheres lutam e trabalham por alcançar esta felicidade. E é nesta busca de felicidade e de vida que muitas vezes nós não seguimos os caminhos que nos conduzem à vida plena mas vamos por outros caminhos que não nos conduzem à felicidade mas à infelicidade. O pecado outra coisa não é senão um caminho errado que nós seguimos. Um caminho que quebra a nossa relação com Deus, com os irmãos e connosco próprios. O pecado é um caminho que não nos leva à realização plena mas que nos autodestrói.

No entanto muitas vezes nas críticas que fazemos ao pecado colocamos no mesmo barco o pecado e o pecador. Temos o dever de denunciar e combater o pecado com todas as forças. No entanto, o pecador é um ser humano, um filho de Deus, que merece respeito e ajuda. O pecador apesar de poder ser culpado pelas más acções que fez também é vítima e necessita de ajuda. 

É nesta linha que se apresenta a liturgia deste XXIV Domingo do Tempo Comum. O evangelho deste domingo abarca todo o capítulo 15 do evangelho de Lucas. São Lucas é o evangelista por excelência da misericórdia. Na verdade, a parábola da dracma perdida e a do filho pródigo, que deveria ser designada de parábola do pai misericordioso, só se encontram neste evangelista. 

Jesus conta esta parábola porque os fariseus e os escribas, aqueles que se consideravam irrepreensíveis e sem pecado mas que se fechavam à vida como relação, se escandalizavam com o acolhimento que Jesus fazia aos publicanos e os pecadores. 

Jesus, revelação de Deus, com as suas palavras e atitudes não afastava mas aproximava os pecadores de si e ajudava-os a saírem do seu pecado. Jesus sempre condenou violentamente o pecado como uma força destruidora da dignidade humana mas sempre, com compaixão e misericórdia, acolheu os pecadores e os ajudou a sair do círculo viciosos em que o pecado os colocara. Jesus morreu perdoando os pecadores. A sua morte é a destruição do pecado. 

Assim sendo, este Jesus compassivo e misericordioso aproveita esta situação em que os fariseus e os escribas se escandalizam por ele acolher os pecadores para revelar quem é Deus. Jesus não se limita a fazer uma afirmação mas conta uma parábola composta por três partes (ovelha tresmalhada, dracma perdido e do pai misericordioso) para mostrar até onde vai o amor de Deus. Em todas as partes desta única parábola assistimos à salvação como inversão da realidade. Todas começam numa situação negativa e de infelicidade (uma ovelha que se extravia, um dracma que se perde, um filho que recusa a ser filho para viver na libertinagem) e todas terminam numa situação positiva (o reencontro da ovelha e da dracma e o restabelecimento da filiação) que desencadeia a festa e a alegria que se alarga à comunidade. 

Tomemos por momentos a parábola do pai misericordioso e deixemos que ela ilumine a nossa vida. 

Tudo começa com a relação familiar de paternidade e fraternidade. Um pai que tem dois filhos. Um pai que se abre ao amor e que é capaz de dar vida gera dois filhos que vivem como irmãos. A família é o espaço em que os indivíduos se desenvolvem e aprendem a viver na comunhão. Na família os méritos não contam. A família é o espaço da gratuidade onde o que tenho não é mérito mas dom. Mas há algo que perturba esta relação familiar. O filho mais novo, no seu desejo e na sua ânsia de viver e ser feliz, renuncia à vida em família. O filho mais novo pede ao pai a sua herança. Este pedido do filho é muito dramático. Na verdade, a herança só se dá perto da hora da morte e uma única vez. Assim sendo, o filho ao pedir a sua herança está a pedir para não ser mais filho e não ter mais pai. No entanto, respondendo à interpelação do seu filho, o pai divide os bens, melhor dizendo, e utilizando o termo que aprece no original grego, a vida entre os filhos. Depois disto, o filho mais novo, como a ovelha perdida que se falou antes, parte, depois de ter juntado todos os seus bens, para uma região longínqua operando assim um corte radical com o seu pai. 

Nesta sua experiência o filho mais novo cai no mau uso da liberdade ao ponto de descer ao próprio nível dos porcos, o animal mais impuro para a mentalidade semita. É nesta situação que o filho se recorda do pai. Quando é tratado segundo a lógica do patrão/trabalhador ele recorda-se do pai, símbolo da dádiva por excelência. Contudo, ele recorda-se do seu pai segundo a lógica do patrão-empregado. Na verdade, ele não quer converter-se de não filho para filho. Ele quer voltar a casa, pensando ser tratado como um assalariado. Contudo, o pai que, quando o vê ao longe corre em sua direcção enche-se de compaixão, ou seja, daquele movimento visceral onde há a união de duas vidas, e restabelece com o seu filho novamente a relação de pai-filho. O anel e a túnica que o pai entrega ao filho são símbolo disto. Assim sendo, não é o filho que quer ser filho é o pai que o torna filho. Esta história como as duas precedentes termina em festa porque aquele que estava perdido foi encontrado. Cristo conta a história de um Pai que procedia como ele estava a proceder. 

No entanto, nesta história aparece uma outra personagem interpeladora: o irmão mais velho. Alguém que apesar de ter estado sempre com o Pai não entendia nada da filiação e da fraternidade e por isso renuncia a entrar na alegria da festa da família restabelecida. O irmão mais velho apesar de ter estado sempre em caso do pai não vivia na lógica do dom mas do mérito. Por isso não entende a atitude do pai que é amor gratuito e que por isso se alegra com o filho recuperado. Jesus conta esta parábola aos escribas e fariseus. Eles são os irmãos mais velhos, aqueles que se apresentam como irrepreensíveis mas que estão longe dos verdadeiros sentimentos de irmandade que se alegra com aquele que regressa à vida. Também nós não seremos assim? Que atitude temos nós para com os irmãos que erram? Fazemos os possíveis até os trazermos de novo a comunhão com Deus e com os irmãos ou, com uma certa vingança, esperamos que eles sofram pelo erro de caminho que cometeram? 

Muito temos que aprender com a atitude de Moisés que a leitura do Livro do Êxodo nos apresenta hoje. Moisés é apresentado como aquele que intercede ante Deus pelo pecador. Não acusa os pecados dos seus irmãos mas intercede por eles diante de Deus. Ante um irmão pecador que fazemos? Pedimos que Deus o perdoe e o traga de novo à vida ou pedimos e esperamos que ele seja castigado e punido por esse acto?

Esta parábola de Jesus, uma das mais belas páginas do evangelho, não pode ficar num passado mas tem de ser vivida hoje. Na verdade, também nós muitas vezes na busca da felicidade renunciamos à nossa condição de filhos de Deus. Queremos viver por nossa conta. Dizemos que seremos mais felizes se não seguirmos os caminhos do amor e da comunhão que Deus nos propõe. Renunciamos à nossa condição de filhos de Deus e vamos por este mundo esbanjando todos os nossos bens, destruindo o bem mais precioso que temos que é a nossa dignidade de pessoas humanas criadas à imagem e semelhança de Deus. Esbanjamos esta dignidade de tal modo que muitas vezes, e à semelhança, do filho mais novo sentimo-nos imundos e a viver no meio da imundice. Quantas pessoas que se entregando totalmente à alienação do ter, do poder e do prazer desenfreado terminam totalmente despedaçados e desfeitos por dentro. Notam que não foram tratados como filhos mas como um simples e mero objecto que só serviu para satisfazer a necessidade de amigos oportunistas que ante as dificuldades desaparecem. É ante esta situação que surge no coração a nostalgia do Pai, daquele que não tira mas dá a vida. Momento duro e de verdade este. Momento em que temos de reconhecer que falhamos no caminho. No entanto, este momento não nos deve levar ao desespero mas ao arrependimento e ao reconhecimento que só seremos pessoas verdadeiramente dignas quando vivermos como Filhos de Deus e irmãos.

O próprio apóstolo Paulo, como vimos na segunda leitura deste Domingo, reconhece que houve um momento na sua vida em que andou por caminhos que não o levaram à verdadeira felicidade. Só o encontro com Cristo, que veio para salvar os pecadores, é que o reabilitou e o tornou testemunha do amor reconciliador de Deus. Como a Paulo, Jesus procura-nos para nos dar a sua graça e a sua misericórdia, para nos trazer de novo à relação de filhos de Deus e de irmãos. No sacramento da Reconciliação é a graça pascal de Cristo que é derramada no nosso coração para que nós, arrependidos dos passos errados que demos e ajudados pelo amor de Deus que nos perdoa, conforta e anima, vivamos de novo a nossa condição de filhos de Deus e de irmãos, não como mérito mas como dom gratuito.

“Cristo Veio salvar os pecadores”. Todos temos erros de percurso que nos afastam da verdadeira felicidade porque tanto aspiramos. Cristo, condenando o pecado, acolhe o pecador para o trazer de novo a Deus que nos reabilita como filhos e como irmãos. Com verdade reconheçamos os nossos erros de percurso, com confiança aproximemo-nos de Deus que nos perdoa e com alegria vivamos a salvação que Jesus nos oferece.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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