Ano C – XXIX Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Ex 17, 8-13;
Salmo: Sl 120, 1-2. 3-4. 5-6. 7-8;
2ª Leitura: 2 Tim 3, 14 – 4, 2;
Evangelho: Lc 18, 1-8.


“A necessidade de orar sempre sem desanimar”

Fica a ressoar na nossa mente a pergunta com que Jesus termina o evangelho deste XXIX Domingo do Tempo Comum: “Mas quando vier o filho do homem, encontrará fé sobre a terra?”

São várias as dificuldades que se nos apresentam no nosso caminho de fé. O mais interpelador é a presença do mal, da injustiça e do sofrimento no mundo. Se há um Deus Bom e justo, porque é que há sofrimento? 

Foi num ambiente hostil que esta perícope evangélica, exclusiva de Lucas, surgiu. Lucas escreveu o seu evangelho num ambiente de hostilidade e perseguição aos cristãos quer por parte dos judeus quer por parte dos pagãos.

Assim sendo, é a pessoas desanimadas que o evangelista Lucas convida a não desanimar e a rezar sempre através da parábola do juiz e da viúva.

Mas porque razão não devemos desanimar e devemos orar sempre num mundo em que existem tantos convites a negar Deus? A primeira e a segunda leitura deste domingo dão-nos algumas pistas de resposta a esta grande interrogação que tantas vezes nos colocamos. 

A segunda leitura deste domingo é retirada da 2ª Epístola de S. Paulo a Timóteo e dá-nos algumas pistas de reflexão para não desanimarmos. Esta carta é um convite aos destinatários a reanimarem a sua fé no meio das perseguições e dos desvios doutrinais a que estavam sujeitos e que originavam uma diminuição do fervor inicial. Ante esta situação, o autor sagrado convida Timóteo e hoje convida-nos a todos a permanecermos firmes no que aprendemos e aceitamos como verdadeiro. 

Permanecer firme naquilo que aprendemos e que aceitamos como certo. A fé é comunitária, uma comunidade que extravasa o tempo e o espaço. É essa comunidade que me transmite a fé. No entanto, a fé, apesar da sua dimensão comunitária, também exige uma decisão pessoal.

Neste processo de transmissão de fé há algo de extrema importância: as Sagradas Escrituras. É na Sagrada Escritura que nós encontramos a Revelação de Deus e por isso é fonte da sabedoria que nos encaminha à salvação, à vida em abundância. Sendo a fé uma atitude de confiança em alguém, as Sagradas Escrituras ocupam um papel importante pois são inspiradas por Deus e são revelação deste mesmo Deus em quem confiamos e em quem firmamos a nossa existência. 

Consequentemente, os cristãos no seu peregrinar como homens de fé, devem relacionar-se com a Sagrada Escritura. Na verdade, é ela que nos ensina aquilo que desconhecemos, nos persuade nas nossas dúvidas, nos corrige nos nossos erros de caminhada e que nos vai formando segundo a Justiça de Deus. Para sermos homens de Deus temos de nos relacionar com as Sagradas Escrituras não só como um texto informativo mas acima de tudo como um texto performativo. É o mesmo Espírito Santo que inspirou os autores Sagrados que nos vais transformando em Homens de Deus pela leitura da Sagrada Escritura.

No entanto, são muitos aqueles que desconhecem a Palavra de Deus; são muitas as situações que precisam de ser iluminadas pelas Sagradas Escrituras, fonte de Salvação. Por isso, os cristãos têm o direito e o dever de anunciar a propósito e fora do propósito, ou seja, sempre a Palavra de Deus como caminho para a verdadeira felicidade. 

A primeira leitura deste domingo é retirada do livro do Êxodo e ajuda-nos a compreender porque é que devemos rezar sempre. A perícope do Êxodo que é proposta para este domingo insere-se na narrativa da caminhada dos hebreus em direcção à terra prometida. Nesta caminhada o povo várias vezes esquece-se do Deus libertador da escravidão e murmura contra ele. É neste contexto que nos aparece o povo de Deus a lutar contra um dos grupos de habitantes do deserto. Quando Moisés rezava ao Senhor o povo vencia. No entanto, quando, Moisés, pela fadiga, baixava as suas mãos o povo era derrotado. 

Este texto mais que uma reportagem jornalística do acontecimento é uma catequese sobre a relação que o povo deve manter com o Deus que o libertou do Egipto e o acompanha na sua peregrinação em direcção à terra prometida.

São duas maneiras de enfrentar as situações que se nos apresentam neste texto. Josué combate com as armas, enquanto, no monte, Moisés reza ao Senhor com os braços levantados e com o seu bastão (símbolo da presença e da acção do Deus libertador em favor do seu Povo). A exclusiva confiança nas forças humanas não leva à vitória. Só a confiança em Deus, verdadeiro libertador e guia do Povo, é que nos leva à vitória. 

Muitas vezes queremos resolver os problemas todos do mundo só com as nossas forças. Lutamos contra o vento e muitas vezes desperdiçamos as nossas forças. A acção do cristão deve ser sempre sustentada pela oração. É pela oração que nos vamos conformando com a vontade de Deus e é pela oração que recebemos o auxílio divino. É por isto que devemos rezar sempre. É este o exemplo que o próprio Jesus nos dá: antes de qualquer momento importante aí o encontramos a rezar. É dos momentos íntimos de comunhão com Deus que nasce a Missão. 

No entanto, também dizemos que as vezes Deus parece surdo porque ele não nos satisfaz alguns pedidos que lhe fazemos com tanta insistência. 

Jesus ensinou-nos a rezar no Pai-nosso e na sua oração no Horto das Oliveiras a que se faça a vontade de Deus em nós. Toda a nossa oração deve assentar aqui. Cada suplica que fazemos deve ser para cumprir a vontade de Deus em nós, porque a sua vontade é caminho de vida e de felicidade. A sua vontade é que vivamos numa comunhão de amor e de vida à imagem da Santíssima Trindade. O que acontece muitas vezes é que os pedidos que fazemos nas nossas orações não são para fazer a vontade de Deus mas a nossa própria vontade mesquinha e por isso são fonte de destruição para os outros e muitas vezes para nós próprios.

Porque confiamos em Deus, porque Ele dá sentido à nossa vida e nos sustenta é que nós lhe devemos rezar sempre e sem desanimar para que a sua vontade aconteça em nós para a Salvação do Mundo.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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