Ano C – XXXI Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Sab 11, 22 – 12, 2;
Salmo: Sl 144, 1-2. 8-9. 10-11. 13cd-14;
2ª Leitura: 2 Tes 1, 11 – 2, 2;
Evangelho: Lc 19, 1-10.

“De todos vos compadeceis, porque sois omnipotente”

A liturgia da palavra deste XXXI Domingo do Tempo Comum inicia-se com uma página belíssima do livro da Sabedoria. Este livro, escrito por um Judeu da diáspora no século I a.C., é um convite aos Judeus da diáspora e aos pagãos a acreditarem no Senhor Deus que libertou Israel do Egipto. Fazendo o elogio da sabedoria Israelita e recorrendo a exemplos retirados do Êxodo o hagiógrafo mostra que a sabedoria de Israel é a verdadeira fonte de felicidade e que o paganismo só conduz à infelicidade. Nesta linha, o autor sagrado pergunta-se por que razão é que Deus foi tão moderado para com os Egípcios, porque é que não castigou àqueles que oprimiram o Povo de Deus? A primeira leitura desta celebração é a resposta a esta pergunta. 

Esta leitura inicia-se com uma afirmação que nos parece contraditória: “De todos vos compadeceis, porque sois omnipotente”. Na verdade, devido a algumas imagens deformadas que podemos ter de Deus, os termos omnipotência divina e compaixão parecem não encaixar. 

Na verdade, quando falamos de omnipotência divina vêm-nos logo à mente um Deus com um poder sem limites, infinito e inesgotável. Sem querer a imagem que nos pode vir à mente quando falamos da omnipotência de Deus é a de um tirano. No entanto, a omnipotência do nosso Deus não corresponde a estas imagens. 

Dizer que Deus é omnipotente é firmar que Deus tudo pode no Amor. Citando o teólogo Bruno Forte podemos dizer que “omnipotência divina é amor na liberdade, capacidade de infinito respeito e de activa compaixão, até ao ponto de parecer inclusivamente debilidade”.

Deus de todos se compadece porque é todo-poderoso no amor. É este amor de Deus que o faz buscar e esperar que a criatura se arrependa dos seus pecados, dos seus erros de percurso que o conduzem à infelicidade e volte para Deus que é fonte de vida e de comunhão. 

Em plena continuidade com esta imagem de Deus deparamo-nos neste domingo com a cena evangélica de Zaqueu. 

Lucas, o evangelista por excelência da misericórdia divina, quase a terminar o caminho de Jesus em direcção à Jerusalém recorda-nos mais uma vez o rosto misericordioso de Jesus e de Deus. 

Jesus encontra-se em Jericó, ultima paragem dos peregrinos antes de chegarem a Jerusalém, e aí há alguém que quer ver Jesus e que acaba por ser visto por Jesus. É o chefe dos publicanos Zaqueu que procura ver Jesus. Deste homem, o nosso texto oferece-nos duas características: era rico mas era de pequena estatura. Além disto, possui um nome curioso: Zaqueu que quer dizer puro.

Como já constatamos domingo passado, os publicanos devido à sua profissão e aos abusos que cometiam, eram considerados pecadores e por isso eram postos de lado e criticados por aqueles que se consideravam santos e irrepreensíveis. 

Zaqueu, como chefe de publicanos, muito provavelmente tinha enriquecido à custa dos outros. Enriqueceu para ser alguém nesta vida, mas era de pequena estatura. Era humilhado e desprezado pelos outros por causa da sua condição de pecador. 

No entanto, há algo nele que o leva a querer ver Jesus, a querer encontrar-se com Jesus. Com esforço, tentando vencer com as barreiras culturais daqueles que o desprezavam aproxima-se da estrada onde Jesus devia passar e sobe a um sicómoro para ver Jesus. 

Ele estava para ver Jesus mas foi Jesus que o viu e começou o diálogo com ele onde simplesmente se faz de convidado para ir comer a casa de Zaqueu. O chefe dos publicanos, como se tivesse recebido uma coisa pela qual esperava há muito desce da árvore rapidamente e recebe Jesus em sua casa com alegria. 

Jesus não precisa que o procurem, ele vê a situação de cada homem e adiantando-se chama-o pelo seu próprio nome como se o conhecesse há muito para a comunhão consigo.   

Zaqueu, recebendo Jesus em sua casa, recebe o dom da salvação, da vida plena que é comunhão, que o leva a ultrapassar as exigências legais da lei e a restituir quatro vezes mais àqueles que prejudicou e a dividir os seus bens. 

É o encontro com Jesus que porta a salvação não só para Zaqueu mas para toda a sua família. De um ponto de vista humano podíamos dizer que os seus filhos ficaram prejudicados por este encontro. Na verdade, o pai ao restituir quatro vezes mais o que roubou e a dar metade dos seus bens diminuiu a quantidade dos bens materiais que podia deixar em herança. No entanto, Zaqueu deu a melhor herança que podia dar à sua família: o sentido da justiça e do amor ao próximo. 

Jesus não pediu que Zaqueu restabelecesse primeiro a justiça para depois ir a sua casa. Jesus, apesar de condenar o pecado, como uma força que destrói o homem, acolhe o pecador e com o seu amor quer ajuda-lo a sair do círculo vicioso do pecado e a entrar na verdadeira vida que é comunhão com Deus e os irmãos.  

Quando o Senhor nos encontra nos caminhos desta vida somos capazes de o acolher na nossa própria história, muitas vezes marcada por erros de percurso que levam à infelicidade, e de nos deixarmos transformar pelo seu amor que acolhe e dá novo sentido à nossa vida?

No entanto, há um grupo de pessoas que não entendeu a metodologia pedagógica de Jesus e que o criticou. Os fariseus, os politicamente correctos, os impecáveis começaram a criticar Jesus por ele se ter ido hospedar em casa de Zaqueu. Na verdade, segundo a mentalidade judaica sentar-se à mesa com alguém não é só comer juntos mas partilhar também da sua vida. No entanto, os fariseus não entendiam que sentando-se à mesa com Zaqueu não era Jesus que estava a partilhar da impureza de Zaqueu mas que era Zaqueu que estava a entrar em comunhão com a salvação. Este tipo de Banquetes em que Jesus acolhe os pecadores é uma antecipação do Banquete escatológico.

Na nossa caminhada de fé como nos relacionamos com aqueles irmãos que tiveram erros de percurso? Será que não somos um pouco fariseus até ao ponto de os desprezarmos, de lhe fecharmos as portas da salvação? Sendo discípulos de Jesus, não deveríamos ter a mesma atitude de Jesus que acolhendo com amor o pecador e capaz de o libertar da escravidão do pecado?

Há encontros que mudam a nossa vida! Jesus tem uma predilecção pelos pecadores e pelos excluídos. O que muda em nós quando somos encontrados pelo Deus todo-poderoso no amor? Que imagem damos de Deus quando nos encontramos com os outros?

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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