Ano C – XXXII Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: 2 Mac 7, 1-2. 9-14;
Salmo: Sl  16, 1. 5-6. 8b e 15;
2ª Leitura: 2 Tes 2, 16 – 3, 5;
Evangelho: Lc 20, 27-38.

“Temos a esperança em Deus de que Ele nos ressuscitará!”

A ressurreição ocupa um papel fundamental na vida dos crentes. Na verdade, ela é um dos artigos de fé que professamos no Credo niceno-constantinopolitano: “espero a ressurreição dos mortos”. A liturgia da palavra deste domingo convida-nos a aprofundar e a reflectir sobre esta verdade fundamental da nossa fé. 

No entanto, nos dias de hoje, seja entre pseudo-crentes seja entre não crentes, encontramos várias pessoas que negam a ressurreição. São vários os motivos que estão na origem desta contestação. Alguns consideram que o facto de acreditar na ressurreição é um anestesiante que nos impede de lutar por um mundo presente mais justo e solidário. Outros afirmam que o facto de acreditar na ressurreição resulta de uma necessidade psicológica do homem projectar os seus desejos insatisfeitos ou de fuga dos problemas deste mundo. Além disto, outros fascinados pela cultura oriental, acreditam na reencarnação que não é compatível com a fé cristã.

Ante estes desafios, o cristão tem de “saber dar razões da sua esperança”(2 Pe). Com efeito, “A Ressurreição dos mortos é a fé dos cristãos: é por crer nela que somos cristãos” (Tertuliano). E a nossa fé na ressurreição é credível. A nossa fé na ressurreição está intimamente ligada à fé pascal. Se acreditamos que Jesus morreu e ressuscitou, do mesmo modo Deus levará com Jesus os que em Jesus tiverem morrido”. (1 Tes 4, 14) “Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram” (1 Cor 15, 20)

Para os discípulos de Jesus não há morte definitiva. Jesus é a “Ressurreição e a Vida”. Para os cristãos, a morte física é apenas uma passagem para uma verdadeira vida: “Para vós Senhor a vida não se acaba apenas se transforma” (Prefácio dos Defuntos I). Os homens passarão pela morte biológica como uma passagem para a vida em abundância. 

Fomos criados por Deus por Amor e é o Amor de Deus que sustenta cada momento da nossa vida. Amar é dizer tu não morrerás. Deus que nos criou por amor quer-nos como seus interlocutores para sempre, porque o amor de Deus pela sua criatura é eterno. Assim sendo, se a ressurreição é uma questão de amor, nós ressuscitaremos porque Cristo nos amou e se entregou por nós. “Se, na verdade, quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte do Seu Filho, com muito mais razão, depois de reconciliados, seremos salvos pela sua vida” (Rm 5, 10). Ressuscitaremos porque Cristo ressuscitou (causa eficiente), à imagem de Cristo (causa exemplar) e como membros do corpo de Cristo. 

No evangelho deste domingo, assistimos a uma controvérsia entre os saduceus e Jesus sobre o tema da ressurreição. Estamos já em Jerusalém e muito próximos à Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. Neste contexto, Lucas apresenta-nos várias controvérsias de Jesus com os líderes religiosos do judaísmo que rejeitam a sua mensagem.

Os saduceus eram uma corrente do judaísmo constituída especialmente pelos sacerdotes das famílias mais influentes que seguiam escrupulosamente a lei e que rejeitavam a tradição oral. Assim sendo, à diferença dos fariseus, não acreditavam na existência dos anjos e na ressurreição dos mortos no último dia. Na verdade, a crença na ressurreição dos mortos é uma crença tardia no judaísmo. A primeira leitura deste domingo, retirada do segundo livro dos Macabeus, é a primeira afirmação clara da esperança da ressurreição no Antigo Testamento. 

No entanto, esta crença embrionária da ressurreição dos mortos não coincide com a nossa esperança cristã da ressurreição. Na verdade, os fariseus afirmavam que a ressurreição seria uma simples continuação da vida que vivemos neste mundo na linha de uma revivificação. 

É nesta linha de pensamento que os saduceus, querendo ridicularizar a crença na ressurreição, colocam o caso caricato da mulher, que seguindo a lei do levirato (Dt 25, 5-10), se casou com sete irmãos porque cada um deles morria sem ter deixado descendência. Deste caso, surge a sábia pergunta dos saduceus a Jesus: “De qual destes será ela esposa na ressurreição, uma vez que os sete a tiveram por mulher?”

Jesus aproveita a ocasião para fazer uma catequese sobre a ressurreição. A sua resposta divide-se em duas partes. Na primeira parte da resposta (Lc 20, 27-36) Jesus aborda o como da ressurreição e na segunda parte (Lc 20, 37-38) afirma a certeza da ressurreição. 

Assim sendo, Jesus começa por afirmar que a ressurreição não é, como os fariseus acreditavam, uma continuação da vida presente que vivos. A ressurreição ultrapassa as nossas categorias de entender a vida presente e se a quisermos descrever segundo estas categorias podemos cair no ridículo. Assim sendo, a questão que os saduceus colocaram não faz sentido. Jesus termina esta primeira parte da resposta afirmando que na ressurreição seremos como anjos, ou seja, que estaremos diante de Deus e o louvaremos. 

A segunda parte da resposta de Jesus é a afirmação da existência da ressurreição. Como argumento, Jesus utiliza a citação de Ex 3, 6 para mostrar a verdade da ressurreição. Deus é um Deus de vivos e não de mortos. Assim sendo, mesmo depois de terem morrido há muitos anos, Abraão, Isaac e Jacob estão vivos em Deus. 

Mas por que razão será importante a fé na ressurreição? Será que essa fé traz ou deve trazer algumas consequências para a nossa vida como crentes?

Para responder a estas perguntas talvez seja útil reflectirmos um pouco sobre a primeira leitura deste domingo. O contexto histórico a que o nosso texto do segundo livro de Macabeus faz referência é o do reinado de Antíoco IV Epífanes. Este monarca tentou realizar uma helenização forçada do povo de Israel com o intuito de acabar com o judaísmo. O nosso texto fala-nos de uma mãe e de sete filhos que foram martirizados porque se mantiveram fiéis às suas tradições judaicas não abandonando a sua fé e não comendo carne de porco, animal impuro, segundo a lei.  

O nosso texto apresenta-nos a postura e as respostas corajosas dos membros desta família. A fé na ressurreição levou-os a vencer os medos e a manterem-se fiéis à sua fé. Acreditar na ressurreição dá sentido ao presente. Acreditar na ressurreição faz-nos vencer o medo. Quem espera age em função do esperado. “Temos a esperança em Deus de que Ele nos ressuscitará!” 

Iluminados pela ressurreição de Jesus acreditamos que a ressurreição dos mortos existe e que nós somos chamados a ela. Que a nossa vida de cristãos manifeste esta esperança de um amor que é mais forte que a morte!

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *