Crucifixão, morte e sepultura de Jesus (Mt 27, 32-61)

por P. Nuno Ventura Martins, CP

Deixando o pretório de Pilatos dirigimo-nos agora, com Jesus carregado com a cruz, para o Gólgota. Esta VI secção do Paixão segundo São Mateus está cheio de reminiscências de textos do Antigo Testamento (cf. Gn 22; Sb 2; Sl 22; Sl 68; Is 53) e acentua a aparente solidão com que Jesus enfrenta os seus últimos momentos

O caminho até ao Gólgota e a crucifixão (27, 32-38)

Jesus inicia o seu caminho em direção ao lugar do suplício, o monte Gólgota, também chamado “Lugar do Crânio”, devido ao seu formato geológico ou por ser o lugar reservado às penas capitais.  Neste seu caminho, Jesus recebe a ajuda de Simão de Cirene. Notemos que esta não foi uma ajuda voluntária, mas forçada. No entanto, este estrangeiro da Líbia representa a imagem do verdadeiro discípulo (cf. Mt 16, 24). Chegados ao local, dão a beber a Jesus vinho misturado com fel, uma espécie de narcótico. No entanto, Jesus não o bebe, quer viver a sua hora plenamente consciente. Em seguida, Jesus é crucificado. Espanta a rapidez com que Mateus descreve este terrível suplício reservado aos escravos, classes mais baixas, criminosos violentos e revolucionários e que era considerada uma maldição para os judeus (cf. Dt 21, 23). Sobre a cruz de Jesus, erguida, no meio de dois salteadores, está um escrito com a causa da sua condenação: “Este é Jesus, o rei dos judeus”. Uma solene declaração da verdadeira identidade de Jesus. Após a sua crucifixão, os soldados repartem entre si as vestes de Jesus. Esta cena, cheia de alusões do Sl 22 e do Sl 69, termina com os soldados sentados a guardar Jesus, como se estivessem à espera de algum acontecimento surpreendente.

As últimas tentações de Jesus (27, 39-44

Neste momento, começa a desfilar, diante da cruz de Cristo, um conjunto de personagens que escarnecem do Crucificado. É curiosa a importância que Mateus atribui a esta cena. Na verdade, no monte calvário e no momento derradeiro, Jesus volta a enfrentar as mesmas tentações que enfrentou no início do seu ministério no deserto (cf. Mt 4, 1-11). Ante tais desafios, a única resposta de Jesus é o silêncio e o não descer da cruz.

A morte de Jesus (27, 45-50)

O silêncio de Jesus na cruz só é interrompido, às três horas da tarde, quando Jesus, com voz forte, pronuncia as palavras iniciais do Salmo 22: “Meu Deus, Meu Deus porque me abandonaste?” No entanto, não podemos querer resolver o escândalo destas palavras, dizendo que Jesus estaria a rezar um salmo de confiança. As palavras de Jesus são uma expressão da sua angústia e da sua solidão. Jesus não estava desesperado e continuava a confiar em Deus. Centremo-nos no conteúdo do grito de Jesus. Para o teólogo Bruno Forte a tradução mais adequada seria “para quê?”, com que finalidade me abandonaste? Esta não é uma questão linguística de lana-caprina. Com efeito, representa as duas atitudes possíveis ante um problema: ficar na lamentação estéril ou ver como se pode crescer. Aqueles que ouvem o grito de Jesus, pensam que Ele está a chamar por Elias, considerado o padroeiro das causas impossíveis, na tradição hebraica. Assim, aproveitam a ocasião para escarnecerem mais um pouco daquele crucificado. Depois disto, a morte chega com rapidez. Jesus grita outra vez, e entrega o seu espírito, o espírito que é o sopro vital dado por Deus na criação (Cf. Gn 2, 7; Sl 104, 27-30).

Reações à morte de Jesus (27, 51-54)

Após a morte de Jesus, têm lugar uma série de acontecimentos que mostram o caracter salvífico da cruz, a presença de Deus e a Sua resposta à morte de Jesus. “Deus não nos salva da cruz, mas na cruz.” (D. Bonhoeffer). O primeiro desses sinais, antes mesmo da morte de Jesus, são as trevas que envolveram a terra e que indicam a chegada do dia do Senhor (cf. Am 8,9; Mt 24, 29). Logo após a morte de Jesus, o véu do templo rasgou-se. A morte de Jesus oferece-nos um novo acesso a Deus. Deus deixa de estar encerrado no templo. Este é também um sinal de condenação, pela rejeição de Jesus. A própria terra reage à morte de Jesus: um tremor de terra e rochas que se fendem, fenómenos associados aos últimos tempos e ao poder de Deus. Outro fenómeno característico dos últimos tempos é a ressurreição dos justos (cf. Dn 12, 1-2; Ez 37, 11-14). A morte de Jesus é o caminho do cumprimento da salvação prometida a Israel. Todos estes fenómenos conduzem os guardas e o centurião à profissão de fé. São os pagãos e não os membros do povo eleito que reconhecem, na cruz, a verdadeira identidade de Jesus.

As discípulas de Jesus (27, 55-56)

Após a narração destes eventos, o evangelista Mateus refere a presença de uma série de discípulas. Estas mulheres, que tinham seguido e servido Jesus, são testemunho da autêntica qualidade do discipulado. Se os discípulos abandonaram o seu Mestre, na hora da cruz, as mulheres são exemplo de fidelidade na prova!

A sepultura de Jesus (27, 57-61)

A sepultura de Jesus é descrita por Mateus com grande objetividade e sem demora. Nesta cena, há uma personagem que se reveste de singular importância: José de Arimateia. Este discípulo é capaz de comprometer a sua fama e os seus bens por Jesus. A Paixão de Cristo infunde-lhe coragem.  O corpo de Jesus não vem ungido, porque já foi ungido logo no início do relato da Paixão (cf. Mt 26, 6-13), mas simplesmente envolvido num lençol limpo e colocado no sepulcro. À entrada do sepulcro, é colocada uma grande pedra, tão grande que só Deus a poderá remover. De frente para o sepulcro, como esperando que algo aconteça, permanecem às fiéis mulheres.