No palácio do Sumo Sacerdote (Mt 26, 57-27,10)

por P. Nuno Ventura Martins, CP

Com Jesus manietado, deslocamo-nos do Monte das Oliveiras para a casa de Caifás, o sumo sacerdote de então. Os versículos que narram o acontecido neste espaço ajudam-nos a pôr em contraponto a coerência e coragem de Jesus, a incoerência e temor de Pedro e Judas e as duas atitudes possíveis ante o erro.

Jesus diante das autoridades judaicas (26, 57-68)

Jesus é levado ante Caifás e alguns membros do sinédrio, para uma reunião estratégica. “Não se trata do verdadeiro e próprio processo, mas de um debate instrutório preliminar e informal, mas decisivo. O direito judaico proibia os debates processuais durante a noite.” (Bruno Maggioni) A presente cena deixa bem claro a hipocrisia do Sumo-Sacerdote e do conselho. Querem manter formalmente o respeito pela legalidade, mas para isso não se inibem de recorrer a depoimentos falsos. Após se terem apresentado várias testemunhas falsas, apresentam-se por fim duas (cf. Dt 17, 16), que aludem às palavras de Cristo sobre o templo: “Posso destruir o templo de Deus e reedifica-lo em três dias.” No entanto, “em nenhuma parte do evangelho de Mateus, Jesus faz uma declaração exatamente idêntica àquela.” (Donald Senior) Ante todas as falsas acusações, Cristo permanece em silêncio, clara alusão ao Servo Sofredor (cf. Is 53,7). Querendo sair do impasse, o Sumo Sacerdote dirige-se a Cristo, com termos semelhantes à confissão messiânica de Pedro em Cesareia de Filipe (cf. Mt 16, 16). Ante esta pergunta, Jesus quebra o silêncio e afirma sem medo a sua identidade. Não é somente o Cristo e o Filho de Deus, mas também o Filho do Homem.  Ao ouvir tão clara afirmação, o Sumo Sacerdote rasga as suas vestes, demonstrando a sua raiva (cf. Gn 37, 29). Além disto, declara a blasfémia de Jesus que, segundo a opinião dos presentes, o torna merecedor da morte. Sem demora começam os maus tratos a Cristo por parte dos presentes. Estes maus tratos apontam para o servo de Deus de Is 50, 6. Os ultrajes de Cristo mais do que porem em dúvida a sua inocência e a sua condição messiânica, afirmam que Jesus é o Messias, mas na linha do servo sofredor.

A negação de Pedro (26, 69-75)

Em contraposição com a afirmação corajosa da identidade de Jesus, temos a tripla negação de Pedro. Este apóstolo continuou a seguir Jesus, mas de longe. Um seguimento sem compromisso. Neste estado de divisão interna, coloca-se num território escorregadio e propício à negação. Além disso, devido ao seu orgulho, não aceitou os sérios avisos que Jesus lhe tinha feito sobre a traição. Tudo isto o encaminhou para a fatalidade da negação. Um combate em três rounds, onde, de cedência em cedência, acaba por negar totalmente o seu Senhor. De um simples “Não sei o que dizes”, pronunciado ante uma serva, passando por uma negação com juramento, termina na imprecação e no juramento diante de todos: “Não conheço esse homem!”

Porém, a negação não é a última palavra. “A nossa narração garante que a possibilidade do perdão é sempre oferecida.” (Bruno Maggioni) Como Cristo tinha predito, o galo cantou depois da negação de Pedro. O som deste animal que anuncia o nascimento do novo dia bastou para que Pedro se recordasse das palavras de Jesus e desatasse a chorar amargamente.  As suas lágrimas são as da penitência que abre ao futuro e não as dos remorsos que bloqueiam no passado. Como nos recorda Santo Ambrósio, a Igreja “além da água, possui as lágrimas: a água do Batismo; as lágrimas da Penitência.”

A condenação de Jesus pelas autoridades Judaicas (27, 1-2)

Os primeiros dois versículos de Mt 27 narram a condenação formal de Jesus. De manhã cedo, os chefes religiosos judeus decidem deliberadamente condenar Jesus à morte. Como não possuem o direito de matar o acusado, conduzem-no ao governador Pilatos, único detentor do Ius Gladii. Cumpre-se assim a profecia do terceiro anúncio da Paixão de Jesus: “vamos subir a Jerusalém e o Filho do Homem vai ser entregue aos sumos sacerdotes e aos doutores da Lei, que o vão condenar à morte.  Hão de entregá-lo aos pagãos, que o vão escarnecer, açoitar e crucificar.” (Mt 20-18-19) No entanto, a mesma profecia também abre à esperança: “Mas Ele ressuscitará ao terceiro dia.”

O fim de Judas (27, 3-10)

A servir de transição para o processo romano e em contraponto com o episódio das negações de Pedro, está o destino trágico de Judas. Uma cena exclusiva de Mateus, também mencionada, apesar das diferenças, em At 1, 15-20.

O evangelista Mateus, evidencia a inocência de Jesus com a afirmação de Judas: “Pequei, entregando sangue inocente.” Judas tem consciência do seu erro e está empenhado em corrigi-lo. No entanto, em vez de se dirigir a Cristo, continua a confiar em si mesmo e dirige-se aos Sumo-Sacerdotes que o deixam só ante a sua culpa: “Que nos importa? Isso é lá contigo.”  Sozinho, abandonado e cheio de remorsos, Judas cai na desespero. Podemos ver aqui a diferença entre o arrependimento/penitência e os remorsos. “O arrependimento abre-nos ao futuro, os remorsos fecham-nos no passado. Basta pensar em S. Pedro e Judas. Ambos negaram Jesus. Mas, enquanto Judas ficou preso em remorsos e suicidou-se, S. Pedro arrependeu-se e chegou a ser o primeiro Papa.” (GPS da Vida Cristã)

Com o episódio das moedas devolvidas, os Sumo-Sacerdotes são obrigados a admitir a sua culpa. Por isso mesmo, não as colocam no tesouro do templo, mas compram o campo do oleiro, destinado a ser um cemitério de estrangeiros, que ficou a ser conhecido como o campo de sangue. Toda esta conjuntura é interpretada por Mateus como o cumprimento de uma profecia que ele atribui a Jeremias, mas que na realidade é uma adaptação de Jr 18,2, Jr 36,6-9 e Zc 11, 12-13.