O processo diante de Pilatos (Mt 27,11-31)

por P. Nuno Ventura Martins, CP

Após a narração do fim trágico de Judas, o evangelista Mateus volta a sua atenção para Jesus, conduzido, pelas autoridades judaicas, à presença do governador Pilatos. O tema principal do processo de Jesus diante de Pilatos é o tema da realeza.

O interrogatório de Pilatos (27, 11-14)

Entregue a Pilatos, pelas autoridades judaicas, Jesus terá agora ocasião de dar testemunho da verdade diante do governador e dos pagãos (cf. Mt 10, 19). O governador pergunta-lhe: “Tu és o rei dos Judeus?” Ante esta interpelação, Jesus dá uma resposta enigmática, parecida à que tinha dado a Judas no decorrer da última ceia (cf. Mt 26, 25), mas que confirma o que Pilatos tinha afirmado. No entanto, mais importante do que as palavras de Jesus é o seu silêncio ante as acusações dos sumo-sacerdotes e dos anciãos. Tal postura evoca o quarto cântico do servo (cf Is 53,7) e deixa perplexo o governador (cf. Is 52, 14-15). O silêncio de Jesus é eloquente. Convida-nos a atuar de uma maneira diferente e nova.

Jesus Barrabás ou Jesus, chamado Cristo: a escolha decisiva (27, 15-26)

Pilatos, fazendo referência a um costume historicamente não atestado, propõe que o povo escolha entre a libertação de Barrabás ou a libertação de Jesus. Pilatos recorre a este estratagema, porque sabia que era por inveja que as autoridades judaicas reclamavam a condenação de Jesus. Não deixa de ser significativa a forma como a proposta de Pilatos é apresentada. Segundo o testemunho de manuscritos antigos, o preso afamado que disputava a liberdade com Jesus, não se chamava simplesmente “Barrabás”, mas “Jesus Barrabás”. Assim, a escolha do povo não se fica somente entre duas pessoas, mas entre duas propostas de salvação bem diversas. Com efeito, o nome “Jesus” significa Deus Salva.

Neste momento, o evangelista Mateus introduz uma cena exclusiva: o sonho da mulher de Pilatos. O sonho, na mentalidade bíblica, era uma das formas privilegiadas de Deus se revelar. Uma pagã reconhece a inocência e a verdadeira identidade de Jesus: “este justo”.

Seria de esperar que a multidão, que no evangelho de S. Mateus é apresentada como neutra e até favorável a Jesus e que o tinha aclamado alguns dias antes, pedisse a libertação de Jesus Cristo. No entanto, ante a segunda interpelação de Pilatos, pediu a libertação de Barrabás e a crucifixão de Jesus. Mateus explica este comportamento com a influência e persuasão dos sumos sacerdotes e anciãos que manipularam assim a liberdade do povo.

Mateus introduz aqui outro dado particular da sua narração. Vendo a confusão a aumentar e vendo que não conseguia a libertação de Jesus, Pilatos lavou as suas mãos afirmando a sua inocência pela morte de Jesus. Este gesto hipócrita reclama o ritual seguido quando um homem inocente tinha sido assassinado e não se tinha encontrado o responsável, conforme o descrito em Dt 21, 6-7. Contudo, este gesto não isenta Pilatos da responsabilidade da morte de um inocente. Pilatos somente está disposto a defender a justiça até que essa defesa não lhe traga problemas. Quando tem de correr riscos na defesa da justiça, põe de lado a justiça. O seu poder e prestígio sobrepõem-se à verdade e à justiça.

A este gesto de Pilatos, todo o povo respondeu: “que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos.” Tais palavras manifestam a rejeição de Jesus, pelo povo eleito, à imagem do que aconteceu com os antigos profetas. Não podemos negar que estas palavras acentuam a responsabilidade dos chefes e do povo de então na morte de Jesus. No entanto, estas palavras não fundamentam as atitudes antissemitas que se serviram destas palavras para realizar tais atrocidades. “Ainda que as autoridades dos judeus e os seus sequazes urgiram a condenação de Cristo à morte não se pode, todavia, imputar indistintamente a todos os judeus que então viviam, nem aos judeus do nosso tempo.” (Nostra Aetate, 4)

Neste contexto, Pilatos liberta Barrabás, ordena a flagelação de Jesus e entrega-o para ser crucificado. A flagelação não vem descrita, mas somente mencionada. A flagelação era um tormento muito cruel. “Os romanos para flagelar não usavam uma simples vara de correção como os hebreus, mas o flagrum de cordas grossas, munidas de pequenos pedaços de osso ou de metal para incidirem mais atrozmente na carne da vítima.” (Ravasi)

A coroação de espinhos (27, 27-31)

Antes de iniciar o seu caminho em direção ao calvário, Jesus vem torturado e escarnecido, por parte dos cerca de 600 soldados que constituíam a coorte que se reuniu em seu redor. Os soldados romanos encenam uma coroação e vassalagem para se burlarem de Jesus. Envolvem-no num manto escarlate e colocam-lhe uma coroa de espinhos na cabeça e uma cana na mão. De seguida, começam os ultrajes morais (“Salve! Rei dos Judeus!) e físicos (“cuspindo-lhe no rosto, agarravam na cana e batiam-lhe na cabeça”). No entanto, ao burlarem de Jesus, os soldados estão a afirmar a sua verdadeira identidade: Ele é o verdadeiro Rei. Esta cena está presente no evangelho não só para mostrar quanto Jesus sofreu e se humilhou, mas também para mostrar a sua verdadeira realeza, bem diferente da dos senhores deste mundo (cf. Mt 20, 25-28).