Prelúdio: palavras e factos anunciam a Paixão (Mt 26, 1-16)

por P. Nuno Ventura Martins, CP

O relato da Paixão de Jesus, no evangelho de São Mateus (26-27), pode ser divido em seis secções: Prelúdio (Mt 26, 1-16), Última Ceia (Mt 26, 17-29), Getsémani (Mt 26, 36-56), Processo judaico (Mt 26, 57-27,2), Processo romano (Mt 27, 11-31) e a Crucifixão, Morte e Sepultura de Jesus (Mt 27, 27-31). Estas seis cenas desembocam na na Ressurreição de Jesus.
A primeira secção poderia intitular-se “Prelúdio: palavras e factos anunciam a Paixão” e está subdivida em três partes: o último anúncio da Paixão (Mt 26,1-5), a unção em Betânia (Mt 26, 6-13) e a traição de Judas (Mt 26, 14-16).
Que Mateus 26, 1 marca o início de uma nova grande parte do evangelho de Mateus é posto em evidência pelo versículo “quando Jesus acabou de dizer todas estas palavras”. Na verdade, encontramos frases semelhantes ao concluir cada um dos grandes discursos de Jesus em Mateus. Não deixa de ser relevante que se concluam os cinco discursos de Jesus da mesma forma que o Deuteronómio apresenta o desfecho da instrução de Moisés ao povo (cf. Dt 32,45).
Jesus, que por três vezes já tinha predito a sua paixão (cf. Mt 16, 21; 17, 22-23; 20, 18-19), anuncia-a agora novamente, mas com um tom mais decidido e conciso. Jesus chega à hora da sua Paixão plenamente consciente da hora e do significado do momento e quer advertir os seus discípulos. Jesus é o Senhor e dono dos acontecimentos e não a vítima de uma fatalidade.
Neste anúncio da Paixão, aparece um verbo chave do Mistério Pascal: o verbo entregar. Na verdade, a Paixão é a história das entregas humanas e divinas. Judas entrega Jesus aos chefes dos sacerdotes e estes a Pilatos. Mas, existem também as entregas divinas: O Pai entrega o seu Filho, o Filho entrega-se ao Pai e o Espírito é entregue na hora da Cruz.
Se Jesus fala clara e abertamente, o mesmo não podemos dizer dos seus opositores. Os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo reúnem-se, na casa de Caifás, decidindo o modo (“traição”) e o tempo (“não durante a festa”) da prisão e morte de Jesus. Mas como não são eles os senhores dos acontecimentos, as suas previsões e planos sobre o tempo falham.
A segunda cena do nosso texto é a unção em Betânia (Casa do pobre), mais precisamente em casa de Simão, o leproso. Não sabemos quem é esta misteriosa personagem, mas o primeiro grande milagre de Jesus, no evangelho de S. Mateus, foi a cura de um leproso (cf. Mt 8, 1-4). É nesta casa que uma mulher unge Jesus na cabeça com um bálsamo muito dispendioso. Este gesto é interpretado profeticamente, como uma preparação para a sua sepultura. O facto de a mulher ter realizado este gesto de hospitalidade que é a unção na cabeça de Jesus, também não deixa de ter o seu significado. Na verdade, era na cabeça que os reis (cf. 1 Sm 10,1) e sacerdotes (cf. Ex 29, 7; Lv 21, 10) eram ungidos. Será esta uma indicação de que é na sua Paixão e Morte que Jesus aparece mais claramente como sacerdote e rei?
O gesto de serviço e amor realizado pela mulher é mal interpretado pelos discípulos de Jesus: “Para quê este desperdício? Podia vender-se a um bom preço e dar-se aos pobres.” Com efeito, é difícil compreender o excesso do dom, a gratuidade, o amor desinteressado quando damos mais importância ao preço do que ao valor. Se os discípulos se centraram sobre o preço do bálsamo, Jesus olha para o valor da ação da mulher e defende-a, mostrando a importância da boa/bela obra que realizou. Na defesa da mulher, Jesus afirma: “pobres sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre tendes”. Com esta frase Jesus não quer dizer que a pobreza é algo inevitável e que por isso mesmo não devemos fazer nada para a eliminar. Esta ideia é antievangélica. O que Jesus afirma é a bondade do ato realizado pela mulher. Na verdade, a unção fúnebre era uma obra muito apreciada pela piedade judaica. Além disto, “Jesus promete que o gesto carinhoso da mulher será lembrado […] portanto um gesto que fará meditar e agir.” (Ludovico Garmus) Um gesto que espalha o bom odor de Cristo. (Cf.2 Cor 2,12)
A última cena do prelúdio é a traição de Judas, “um dos doze”. Em contraste com a ação da mulher, um dos discípulos, por trinta moedas de prata, o preço de um escravo (cf. Ex 21,32), vende o seu mestre. Se a mulher fala de uma gratuidade sobreabundante, Judas encarna a mesquinhez da avareza que trai os seus valores mais sagrados.
Não deixa de ser sintomático a atenção que o evangelista Mateus presta à figura de Judas Iscariotes. “Este representa o lado obscuro do seguimento, o traidor em potência em que se pode transformar cada crente que se encontra diante de um momento crítico.” (D. Senior)
No entanto, no meio da obscuridade da traição resplandece alguma luz. Em primeiro lugar, a alusão à profecia de Zacarias 11, mostra que também este facto se integra no plano salvífico de Deus. Mas mais iluminadora é a afirmação de que Judas “procurava uma boa oportunidade para o entregar”, sendo que a expressão boa oportunidade é a tradução do grego eukairían cuja raiz é Kairós, ou seja o momento oportuno da salvação. “Jesus e Judas procuram o mesmo Kairós, a entrega do Filho do homem nas mãos dos pecadores. Um para ganhar trinta moedas de prata; o outro para dar a vida pela salvação de muitos.” (D. Senior)