Taizé – O (re)encontro inquieto com o dar-se

Santa Maria da Feira. Seminário dos Missionários Passionistas.
19 de agosto de 2017. Minutos antes das 11h.

O sentimento de desconhecido era o que me preenchia o coração. Se, por um lado, havia o desejo da descoberta, por outro, o meu íntimo procurava por algo superior: O sentido. E foi nesta ambivalência de emoções que parti para Taizé. Esperava encontrar a resposta para as minhas inquietações, mas regressei ainda mais desperta, contudo disposta a trazer comigo a simplicidade e o Amor necessários para trilhar um novo caminho. A abertura do coração ao novo, ao inesperado, ao incerto, ao sentido escondido por detrás do que parece complexo.

O acolhimento de todos, feito por todos, foi uma constante ao longo de toda a viagem e durante os dias em que vivenciamos a experiência da “colina”. Os olhares tímidos, as tentativas de abordar aqueles que até nos eram próximos fisicamente mas completamente desconhecidos, foram-se dissipando, pois o sentimento que ali nos levava, no fundo, unia-nos. Um grupo de “quase desconhecidos” tornou-se família durante os 10 dias desta experiência profunda. Uma família em Cristo. Uma família que partilhou os momentos de oração, os cânticos, os silêncios, as refeições, as angústias, os choros, os abraços e tantas alegrias!

As partilhas de vida, as reflexões, a descoberta de tantas outras realidades foram uma constante nesta semana especialmente concebida para os jovens. Atrevo-me até a designar-nos de “jovens inquietos”. Jovens que procuram, apesar de todas as diferenças: raciais, culturais e até religiosas, encontrar algo de superior e de comum entre si, refletindo-se na busca pelo Bem. Penso até que numa dimensão semelhante ao apresentado por Viktor Frankl, quando assume que “encontrei o significado da minha vida, ajudando os outros a encontrarem o sentido das suas vidas”. Nesta dádiva gratuita ao longo destes dias, fomo-nos revestindo de sentido e dando sentido àqueles que connosco se cruzavam. Fomos percebendo que, independentemente de todas as mágoas, medos e sofrimento que as nossas vivências nos tenham trazido, existe sempre um sentido maior, existe a confiança e que o “amor é o caminho que nos leva à esperança” (José Tolentino Mendonça). Este mesmo Teólogo diz-nos que “a amizade é a aceitação de que Deus nos visita através do que nos é próximo. Com os amigos construímos uma história que é sagrada, mesmo se a nossos olhos parece apenas feita de coisas simples e muito humanas. Depende muito do que estamos dispostos a acolher quando acolhemos os outros”. Assim, agradeço ao Pai Bom que me fez aproximar, que me deu a conhecer, que me fez criar “uma história que é sagrada” com tantos que me acolheram neste caminhar. Numa tentativa de nos aproximarmos à simplicidade transmitida por Jesus no Evangelho de S. Lucas “Beati voi poveri, perché vostro è il regno di Dio”, tornando o Reino, em toda a sua grandiosidade, bem mais próximo de cada um de nós.

Por tudo, acredito que esta experiência, que me engrandeceu e (com a toda a certeza) também a todos os que me acompanharam, constitui um ciclo. Um ciclo que se “fecha” com a abertura de um novo: o ciclo do desafio. O enigma desafiador de disseminar e perpetuar o espírito de Taizé nas vivências de cada um, no regresso às nossas casas, aos nossos empregos, ao convívio com aqueles que cá ficaram e ao aprofundamento de tudo o que se começou a construir “na colina”.

Cheios do Amor de Deus, cabe-nos esta entrega gratuita e confiante no propósito que Ele tem para cada um de nós. Este propósito do qual nem sempre nos apercebemos, que na nossa pequenez não somos capazes de discernir, mas que vive no nosso íntimo como centelha de luz, pronta a ser amadurecida e a iluminar aqueles que nos rodeiam. Assim, como dito pelo Irmão Roger, que consigamos “viver em tudo a paz do coração”, entregando-Lhe a nossa vida e confiando que somos instrumento e objeto do Seu grande amor.

Juliana Gomes

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