Tríduo S. Paulo da Cruz – 2º dia (18 de Outubro)

1ª Leitura: 2 Tim 4, 9-17b;
Salmo: Sl 144, 10-11. 12-13. 17-18;
Evangelho: Lc 10, 1-9.


Neste segundo dia do tríduo de S. Paulo da Cruz, a liturgia convida-nos a fazer memória de S. Lucas, um dos quatro evangelistas. À imagem, dos setenta e dois discípulos (numero simbólico que representa todas as nações do mundo) do evangelho que, deixando tudo, foram enviados a anunciar a proximidade do Reino de Deus e a demonstra-la através da cura dos doentes, também S. Lucas é um dos anunciadores da boa nova. Na verdade, S. Lucas, por inspiração do Espírito Santo, transmite por escrito aquilo que Jesus anunciou e realizou para a salvação dos homens. Em especial, Lucas é o evangelista da misericórdia de Jesus (são exclusivas de Lucas as parábolas do filho pródigo e da dracma perdida), da caridade (é exclusiva de Lucas a parábola do bom samaritano), de Nossa Senhora (são exclusivo de Lucas os episódios da anunciação, da visitação, da apresentação no templo e da perda e do encontro do menino no templo), do amor aos pobres, da fé, da paz e da alegria. Além do seu evangelho, S. Lucas também escreveu o livro dos Actos dos Apóstolos onde é descrita a vida da comunidade primitiva animada pelo Espírito Santo. 

No entanto, a tarde deste dia 18 de Outubro é uma tarde muito especial para a Família Passionista. Na verdade, celebramos nesta tarde o trânsito de S. Paulo da Cruz. No dia 18 de Outubro de 1775, às dezasseis horas e quarenta e cinco minutos, Paulo da Cruz parte para o regaço do Deus Amor que tantas vezes e com tanto empenho anunciou. 

No entanto, antes de partir para o regaço de Deus, Paulo da Cruz deixou aos seus religiosos o seu testamento espiritual. No dia 30 Agosto de 1775, antes de receber o viático deixa aos seus religiosos estas últimas recomendações: “Recomendo-vos a caridade fraterna …, peço-lhes que floresça sempre na Congregação o espírito de oração, o espírito de solidão e o espírito de pobreza … os recomendo um afecto filial à Santa Mãe Igreja e total submissão ao Sumo Pontífice … peço a todos que observem as regras … que os superiores se preocupem da boa semente … peço a todos os membros da Congregação, presentes e ausentes, que me perdoem pelas faltas cometidas … a todos os presentes e ausentes dou a minha bênção”.

Tais palavras revestem-se de uma singular importância para todos aqueles que tem em S. Paulo da Cruz um pai e um modelo seguro de seguimento de Cristo Crucificado, pois tais palavras são os últimos e principais conselhos que S. Paulo da Cruz nos deixa. 

O primeiro conselho que Paulo da Cruz nos deixa é a caridade. Já Jesus nos tinha advertido que só na medida em que nos amarmos uns aos outros é que seremos reconhecidos como seus discípulos (Cf. Jo 13, 35). Num mundo, tão marcado e dilacerado pelo individualismo, a caridade fraterna, o ser verdadeira família aparece como o primeiro e um dos mais fundamentais testemunhos de Deus. Só o amor verdadeiramente vivido na comunidade é que será capaz de suscitar o espanto: “vede como eles se ama”. Na verdade, o Deus cristão é o Deus família, é o Deus Trindade, é o Deus comunhão e Amor que nos chama a viver no amor e na comunhão. 

O segundo conselho que Paulo da Cruz deixou no seu testamento espiritual relaciona-se com os três pilares da vida passionista: a oração, a penitência e a solidão. A oração, mais que repetição mecânica de fórmulas, é um momento privilegiado de encontro com Deus, de descoberta e conformação com sua santíssima vontade. Assim, devem as comunidades passionistas ser escolas de oração, escolas de oração pela dedicação constante de tempos à oração mas também pela conformação total de cada um dos religiosos com a vontade de Deus. 

A pobreza mais que material há-de ser espiritual. Na verdade, de que importa não ter recursos se continuo a pôr toda a minha confiança nos bens materiais. A verdadeira pobreza que se há-de viver é a total confiança e o total abandono em Deus. Só Deus nos pode ajudar, só nele deve confiar o nosso coração. A verdadeira pobreza é aquela que nos impede ser escravos dos bens materiais e que nos leva a utilizar os bens para socorrer tantas pobrezas e misérias que destruem o homem de hoje. 

A solidão recomendada por São Paulo da Cruz não é um alheamento apático do mundo onde vivemos. Tal alheamento seria uma falta de caridade, porque é neste mundo que estamos chamados a ser sal e luz (cf. Mt 5, 13-14). A solidão recomendada por S. Paulo da Cruz é um desprendimento do mundo, uma distância crítica relativamente aos critérios e projectos do mundo. Na verdade, pode acontecer que de tão misturados que estamos com o mundo deixemos de pensar segundo Deus e comecemos a pensar segundo o mundo. 

Em terceiro lugar, Paulo da Cruz, pede o afecto filial à Igreja e a total submissão ao sumo pontífice. Na verdade, o seguimento de Cristo de Crucificado não é uma aventura de alguns solitários. O seguimento de Cristo Crucificado faz-se em e na Igreja. Nunca poderemos seguir totalmente a Cristo nossa cabeça se estivermos separados, quer física quer afectivamente, do seu corpo que é a Igreja. 

Em quarto lugar, pede Paulo da Cruz aos seus religiosos que cumpram as regras e as constituições da congregação da Paixão. Na verdade, as constituições para os religiosos são a actualização do único evangelho de Jesus Cristo. As constituições apresentam para os religiosos um caminho seguro de vida plena, porque totalmente entregue a Cristo e aos irmãos em pobreza, obediência e castidade, à luz da consagração à Paixão de Jesus Cristo. 

Em quinto lugar, Paulo da Cruz pede que os superiores se preocupem com a boa semente e afastem toda a erva daninha. Na verdade, como nos recorda a parábola do semeador, apesar do semeador semear a boa semente da Palavra de Deus pode acontecer que cresçam também ervas daninhas que se não forem combatidas a tempo podem abafar a planta nova que a boa semente fez produzir (Cf. Mt 13, 3-9). Não nos podemos esquecer do conselho que o autor da carta aos hebreus nos deixa: “Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras” (Heb 10, 24).

Antes de terminar, Paulo da Cruz com toda a humildade pede perdão pelos erros que porventura possa ter cometido. Mais eloquente que uma recomendação à humildade é esta atitude de Paulo da Cruz. Numa vida de comunidade o perdão jamais poderá estar ausente. O perdão pedido, dado e recebido é uma exigência fundamental na vida da comunidade. E perdoar não é esquecer o que aconteceu. Perdoar é aprender a recordar o mal que me fizeram de uma outra maneira sem ressentimentos e ódios. Perdoar é dizer que a pessoa que me fez mal é mais, muito mais do que o mal que me fez. 

E termina S. Paulo da Cruz o seu testamento espiritual com a invocação da bênção de Deus. Final que é início pois tudo aquilo que Deus abençoa não está destinado ao fracasso mas ao sucesso. Que a bênção que Paulo da Cruz deu aos seus religiosos continue a estender-se hoje por todos os religiosos e leigos passionistas para que todos nós ao vivermos na caridade fraterna, na oração, na solidão e na pobreza, no afecto filial à Igreja, na observância das Regras, na preocupação de arrancarem toda a erva daninha e no perdão sejamos continuadores credíveis do carisma de Paulo da Cruz.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on print
Print
Share on email
Email

Leave a Comment