Mensagem e Reflexão do Superior Geral para a Quaresma de 2024

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Queridos irmãos, irmãs e amigos da família Passionista,

Um desejo de paz e de esperança na proximidade de Deus a todos vós!

Mais uma vez nos preparamos para viver o período forte da Quaresma, no qual ouvimos ressoar o apelo à conversão contínua (metanoia), um apelo que nos estimula a afastar-nos do pecado e a optar por nos aproximar de Deus, amando-O, e ao próximo como a nós mesmos A passagem evangélica que ressoa todos os anos no início da Quaresma, como uma espécie de mapa do caminho quaresmal, coloca diante dos nossos olhos a oração, a esmola e o jejum como meios pelos quais podemos amar a Deus e ao próximo como a nós mesmos (cf. Mt 6, 1-6.16-18). Este tempo forte está repleto de promessas de novas oportunidades e de novos começos, tornados possíveis pela graça e presença de Deus. Isto também nos lembra São Paulo: “Exortamos-vos a não acolher em vão a graça de Deus. Com efeito, ele diz: no momento favorável eu te ouvisejo e no dia da salvação te socorri. Este é o momento favorável, este é o dia da salvação!” (2 Cor 6, 1-2).

Nesta mensagem quaresmal desejo prestar atenção e partilhar convosco algumas reflexões sobre o tema da ORAÇÃO, especialmente tendo em conta que o Papa Francisco anunciou que este será um Ano de Oração em preparação para o Jubileu do próximo ano (2025).

A Quaresma é uma oportunidade para uma formação e disciplina espiritual. Para aproveitar esta oportunidade devemos deixar-nos guiar pelo Espírito, que torna possível o nosso encontro com Deus. Tal como Jesus fez, também nós queremos responder, aceitando o convite para entrar no “deserto”, guiados pelo Espírito (Mt 4, 1-13; Lucas 4, 1-11). Deus espera por nós, espera-nos, oferece-nos um tempo de refrigério… um tempo de RETIRO… a possibilidade de um novo começo na vida espiritual (cf. Oséias 2, 16-17). O objetivo deste tempo é buscar e encontrar a vontade de Deus acima e além de todos os movimentos do nosso coração. Santo Inácio de Loyola dizia que, para isso, são necessárias duas coisas: (a) magnanimidade, isto é, uma mente ampla e aberta que não se feche nos estreitos horizontes dos nossos pequenos interesses, e (b) generosidade, isto é, a disponibilidade para dar sem condições e limites.

A Quaresma é uma oportunidade não tanto para aumentar o tempo de oração,
mas para uma oração diferente:
uma oração com aquele sabor característico que surge da compreensão de quem sou
em Cristo”,
o potencial ilimitado dentro de mim para crescer em Cristo,
e a possibilidade de sucesso por causa do seu poder como Senhor ressuscitado.”

Gregory Manly, CP / Anneliese Reinhard, MSC

Pela ação do Espírito, o “deserto”, na intenção de Deus, não serve para nos punir, mas sim para nos purificar. No deserto, Deus quer purificar-nos de qualquer apego excessivo às “consolações” encontradas na oração. Se na oração Deus nos abençoasse com muitas consolações (“elevações de espírito”), haveria o perigo de procurarmos e amarmos “mais as consolações de Deus do que o Deus das consolações” – como diz Santa Teresa de Ávila. Em geral, a oração no deserto se tornará cada vez menos nossa e cada vez mais de Deus.

A seguir dou-vos algumas boas indicações de que a nossa experiência de “deserto espiritual” (aridez na oração) é uma obra pela qual Deus nos purifica:

  • Se em tempos de aridez permanecemos fiéis à oração.
  • Se a nossa oração for honesta e brotar das experiências reais da vida.
  • Se estamos tentando integrar oração e vida.
  • Se estamos tentando viver uma vida de caridade.
  • Se a nossa oração nos ajuda a ter mais amor.
  • Se formos sinceros em tentar evitar o pecado e viver de acordo com a palavra de Deus.
  • Se tivermos sede, se desejarmos e ansiarmos por Deus enquanto caminhamos no deserto.

Assim como Jesus foi conduzido ao deserto pelo Espírito (Mt 4,1) para enfrentar as grandes provações da sua vida e missão antes de iniciar o seu ministério público, também nós entramos neste tempo de Quaresma para enfrentar as grandes questões da nossa vida: os convites de Deus e as atrações e seduções do mal. Na solidão do deserto, estamos destinados a encontrar a clareza e a firmeza que necessitaremos no tumulto da vida real.

Em todos os evangelhos lemos que Jesus costumava retirar-se para lugares desertos para orar. Embora a oração fosse uma prática comum na sua cultura, Jesus ainda procurava momentos de silêncio, momentos de solidão. Para todo o cristão que aspira à união com Deus, a SOLIDÃO ocupa um lugar extremamente importante na vida, pois é um pré-requisito para a comunhão, que deve ser mantida tanto com Deus como com os outros. A solidão cristã nunca é uma solidão dos homens, mas uma solidão para os homens.

O deserto não indica ausência de gente,
Indica a presença de Deus”

Carlos Carreto

O monge trapista Thomas Merton disse: “É na profunda solidão que encontro a doçura com a qual posso amar verdadeiramente os meus irmãos… A solidão e o silêncio ensinam-me a amar os meus irmãos pelo que são, não pelo que dizem”. ~ O Sinal de Jonas.

Como Passionistas, sabemos que um dos pilares sobre os quais a nossa Congregação foi fundada por São Paulo da Cruz é a solidão. Para Paulo, a solidão era uma jornada cíclica dentro do seu coração humano (eu), dentro do coração divino (Deus) e dentro de cada coração humano (outros). A solidão está ligada ao apelo à comunidade e à evangelização. Numa carta escrita ao cónego Felice Pagliari em 1768, Paulo da Cruz escreveu:

A nossa Congregação está colocada sobre este fundamento segundo a vocação que Deus lhe deu. Portanto, as nossas santas Regras obrigam-nos a que depois das missões, dos exercícios espirituais, etc. nos retiremos imediatamente para os retiros da nossa solidão, para nos reunirmos em espírito na oração e no jejum; pois acreditem que, um obreiro evangélico que é homem de oração, amigo da solidão e desapegado de todo o criado, é mais fecundo do que mil outros que não o são (” L III, 13 de fevereiro de 1768).

A Quaresma oferece-nos a oportunidade de redescobrir a oração capaz de nos colocar face a face com Deus, que já está se agrada de nós. A oração é um encontro com Deus. O propósito e a intenção da oração não é ter sucesso ou alcançar algo, mas no entregar-se. O objetivo é o de entregar-se completamente a si mesmos e lembrar quanto o Senhor nos ama quando erramos e recomeçamos. Ofereço-vos esta “Oração para a Quaresma” composta por Santo Ambrósio de Milão (339-397):

Senhor, sois misericordioso para com todos,
retirai de mim os meus pecados
e na vossa misericórdia
acendei em mim
o fogo do vosso Santo Espírito.
Retirai de mim o coração de pedra
e dai-me um coração de carne,
um coração que Vos ama e adora,
um coração que se deleita em Vós,
para seguir-Vos e se una a Vós,
para a glória de Cristo. Amém

Que estas reflexões vos ajudem durante a Quaresma e enriqueçam a vossa preparação para celebrar o mistério pascal de Cristo. Que a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo estejam sempre nos nossos corações.

P. Joaquim Rego, CP
Superior Geral

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