Ano B – III Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Jonas 3, 1-5. 10;

Salmo: Sl 24, 4bc-5ab. 6-7bc. 8-9;
2ª Leitura: 1 Cor 7, 29-31;
Evangelho: Mc 1, 14-20.

Recorda-nos o apóstolo Paulo, na sua primeira carta aos Coríntios, uma verdade que tantas vezes esquecemos e que deve orientar as escolhas que fazemos: “o tempo é breve … o cenário deste mundo é passageiro”. Não podemos negar que o Apóstolo Paulo faz estas afirmações no âmbito da sua reflexão sobre o matrimónio e o celibato. Na verdade, o VII capítulo da primeira carta aos coríntios é a resposta que o Apóstolo Paulo dá às questões de ética sexual levantadas pelos cristãos de Corinto. Neste capítulo, Paulo rejeita toda a desordem sexual, defende o matrimónio e enaltece o celibato. No entanto, não podemos negar que a afirmação de Paulo, “o tempo é breve … o cenário deste mundo é passageiro”, não deve ter tida em conta unicamente na hora da escolha entre o celibato ou a vida matrimonial mas deve estar presente sempre que os cristãos tenham de fazer opções.

Na verdade, o cristão, que vive inserido no mundo, corre o risco de se distrair com realidades passageiras e esquecer aquilo que é eterno e permanente: Deus e os valores do Reino. No entanto, o cristão nunca deve absolutizar as realidades terrenas, efémeras e passageiras. O primeiro, o fundamental, o absoluto na vida de cada cristão deve ser o Deus Amor, que se revela em Jesus Cristo, e os valores do Reino. As motivações de todo e qualquer cristão não devem ser as realidades passageiras, efémeras e terrenas mas sim as realidades eternas. O fundamental para os cristãos deve ser Deus e o Seu Reino.

É exactamente o fundamental do anúncio de Jesus que encontramos no evangelho deste Domingo: “Cumpriu-se o tempo e está próximo o Reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no evangelho ”. Estamos nos primeiros versículos da primeira parte do Evangelho de Marcos. Nesta primeira parte, o evangelista pretende apresentar Jesus como o Messias que anuncia o Reino de Deus.

O evangelho deste domingo é composto por duas partes: a pregação inicial de Jesus e o chamamento dos quatro primeiros discípulos.

A primeira parte corresponde aos dois primeiros versículos do texto deste domingo e é a pregação inicial de Jesus: “Cumpriu-se o tempo e está próximo o Reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no evangelho”. Breve síntese do ensinamento de Jesus mas carregada de significado teológico.

O tempo que se cumpre, que se completa não é o tempo material (chronos) mas o tempo dos projectos de Deus (Kairós). Ao afirmar que o tempo está cumprido, Jesus diz-nos que chegou o momento de Deus cumprir as suas promessas. Chegou o tempo do Reino de Deus.

O Reino de Deus é um dos grandes temas do evangelista Marcos mas também o grande sonho do Povo de Deus. Na verdade, o Povo de Deus considerava que Deus era o Rei. Os reis que o Povo de Deus teve ao longo da sua história, outra coisa não eram do que instrumentos escolhidos e ungidos por Deus para governar o povo. Figura do rei ideal para a catequese de Israel foi o rei David. Em épocas de grande dificuldade e de má governação, o povo sonhava com o regresso dos tempos gloriosos do rei David. Os próprios profetas anunciavam que Deus no futuro voltaria a reinar sobre o seu povo através do seu Messias e que a paz, a justiça e a felicidade voltariam a ser uma realidade. Jesus, ao anunciar que o tempo se cumpriu e que o Reino de Deus está próximo, está a afirmar que esta grande esperança do povo de Deus, o Reino de Deus, está a ter início com a sua própria pessoa. Jesus de Nazaré é o Messias de Deus que deve estabelecer o tempo do Reino de Deus.

Para que esse Reino se torne realidade, Jesus pede, aos seus ouvintes, que se arrependam, que se convertam, e que acreditem no Evangelho, na boa-noticia. A conversão pedida por Jesus exige que o homem reformule a sua vida, coloque Deus e os seus valores no centro da sua existência e das suas escolhas. Por sua vez, acreditar no evangelho não se reduz a um simples exercício intelectual, mas é adesão, escuta e acolhimento da pessoa e mensagem de Jesus.

Diz-nos o evangelista que esta pregação inicial de Jesus ocorreu depois da prisão de João Baptista e na Galileia. A Galileia não era uma região muito bem vista pelas autoridades religiosas. Na verdade, esta região estava em contacto permanente com os pagãos e por isso, segundo a mentalidade de então, era uma região por onde nunca passaria a proposta salvadora de Deus. No entanto, Deus a todos ama e a todos chama a salvação. Ele não exclui ninguém do seu convite à salvação. Ajuda-nos a perceber melhor esta realidade a primeira leitura deste domingo.

O livro de Jonas foi escrito numa época em que se enaltecia o nacionalismo. Só Judá é o povo eleito de Deus. Todos os outros povos são seus inimigos e, por isso, devem ser condenados e destruídos por Deus. Ante tal mentalidade, reage o livro do profeta Jonas que é uma obra de ficção didáctica. Através deste escrito, o autor sagrado quer mostrar que o amor e a misericórdia de Deus se estende a todos os Povos. Deus é o Deus universal que ama e chama à conversão até a cidade de Nínive, aquela capital do império Assírio que tanto sofrimento provocou ao povo de Deus.

Na verdade, é exactamente a esta cidade que Deus, que detesta o pecado mas ama o pecador e quer que ele se converta e viva, envia o seu profeta Jonas. Jonas recusa-se a ir anunciar a conversão à Nínive. Tenta fugir, mas, depois de receber a segunda ordem para ir a Nínive, ele lá vai e anuncia a destruição da cidade e o convite ao arrependimento. Se a universalidade do amor de Deus já nos surpreende, também não nos deixa de surpreender a resposta imediata e radical dos ninivitas à pregação de Jonas. Na verdade, “os habitantes de Nínive acreditaram em Deus, proclamaram um jejum e revestiram-se de saco”. Ao ver tal conduta, Deus desiste do castigo com que ameaçou os ninivitas. Os pagãos deixaram-se interpelar pela Palavra de Deus de uma forma que muitas vezes o povo eleito não o faz. Assim sendo, se Deus ama a todos e a todos chama à conversão também os seus seguidores devem amar todos os homens. Quem acredita em Deus não pode seguir os caminhos da exclusão e da marginalização.

A todos Deus chama a conversão, a todos é dirigido o anúncio da proximidade do reino de Deus. Ninguém se deve sentir excluído. A todos é dada a possibilidade de se converter, de acreditar na Boa Nova de tal forma que o Reino de Deus seja a prioridade e o valor fundamental na vida de cada homem.

A segunda parte do evangelho deste domingo narra-nos o chamamento dos quatro primeiros discípulos: Simão e André, Tiago e João. Todos eles estavam na sua rotina diária e é exactamente aí que Jesus os interpela, provoca e desinstala. Assim é a Palavra de Deus na nossa vida. A Palavra de Deus sempre nos desafia, provoca e desinstala.

Este episódio do chamamento dos discípulos é um exemplo concreto de como devemos responder aos desafios de Jesus. A partir deste relato torna-se bem claro que quem chama é o Senhor e os chamados não são pessoas anormais mas pessoas concretas. Além disto, tal chamamento é radical e não visa uma formação intelectual mas uma experiência de vida com Jesus para se aprender a viver do jeito de Jesus. A este chamamento deve o discípulo dar uma resposta total, imediata e sem condições.

Que a celebração deste domingo nos leve a tomar consciência de “que o tempo é breve … e o cenário deste mundo é passageiro” e que tal consciência nos estimule a aceitar o convite de Jesus a todos os homens na sua situação concreta: “Cumpriu-se o tempo e está próximo o Reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no evangelho”.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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