Ano B – XX Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Prov 9, 1-6;
Salmo: Sl 33, 2-3. 10-11. 12-13. 14-15;
2ª Leitura: Ef 5, 15-20;
Evangelho: Jo 6, 51-58.


“Felizes os convidados para a Ceia do Senhor”. Cada vez que participamos na eucaristia, ouvimos estas palavras que afirmam a felicidade daqueles que são convidados a participar e efectivamente participam na ceia do Senhor. No entanto, no meio de tantos convites e tantas solicitações muitas vezes o convite que o Senhor nos faz é posto de lado. É por isso que a liturgia da Palavra deste XX Domingo do Tempo Comum recorda-nos o convite que o Senhor a todos nos dirige: “Vinde comer do meu pão e beber do vinho que vos preparei. Deixai a insensatez e vivereis; segui o caminho da prudência”, “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna … permanece em mim e eu nele”.

A primeira leitura deste dia é retirada do livro dos Provérbios. O livro dos Provérbios recolhe os ditos sapienciais que nasceram da reflexão e da experiência dos antigos e pretende definir uma ordem da sociedade e do mundo. Para sermos mais precisos, a leitura deste dia tem como contexto o convite a adquirir a sabedoria. Na verdade, o livro dos Provérbios, através das imagens da senhora Sabedoria e da senhora loucura, pretende mostrar as diferentes opções de vida que podemos tomar e levar-nos a optar pela senhora Sabedoria que é a única que nos pode conduzir à vida e à felicidade. 

Para ajudar os seus leitores a fazerem a escolha correcta, a opção certa, o autor sagrado apresenta uma espécie de propaganda da senhora Sabedoria. A primeira leitura deste dia é um exemplo concreto da publicidade que a Sabedoria faz para que optem por ela. A primeira leitura deste dia apresenta-nos o convite que a Sabedoria faz aos inexperientes e aos insensatos a que participem no banquete que ela preparou. 

O texto começa por afirmar que a Sabedoria construiu a sua casa e levantou sete colunas. O número sete é um número simbólico que exprime a perfeição. Assim sendo, esta indicação textual mostra-nos que na casa da Sabedoria pode encontrar-se na perfeição. Depois disto, o texto continua a dizer que a Sabedoria enviou as suas servas a convidar os inexperientes e os insensatos para o banquete que preparou, para os animais, o pão e o vinho que preparou. É provável que a casa da sabedoria e o alimento aí servidos sejam símbolos da escola sapiencial e dos ensinamentos sapienciais. Assim como o alimento fortalece e dá alegria, assim os ensinamentos sapienciais não só ajudam a resolver os inúmeros problemas diários como também conduzem o homem à felicidade e à alegria. 

Os convidados para este banquete sapiencial são os inexperientes (simples) e os insensatos. Ninguém se deve sentir excluído deste banquete. No entanto, quem se fechar no seu orgulho, na sua arrogância certamente que recusará o convite da Sabedoria. Para abeirar-se da mesa preparada pela Sabedoria há que ser simples, dócil às propostas de Deus. É por isso que os insensatos para se aproximarem da mesa da sabedoria tem de fazer um esforço por deixar o caminho da insensatez e por seguirem pelo caminho da prudência, têm de saber renunciar aos seus esquemas e aderir aos esquemas de Deus.

O Senhor Jesus, no evangelho deste dia, também nos convida para um banquete. No entanto, o seu alimento não é um alimento qualquer. O alimento que Jesus nos dá é o pão do céu que é a sua carne.

O evangelho deste dia é a última parte do discurso do pão da vida que Jesus pronuncia na sinagoga de Cafarnaum no dia seguinte à multiplicação dos pães. Os estudiosos da Sagrada Escritura afirmam que o evangelho de hoje é uma reflexão, à luz da eucaristia, da primeira parte do discurso ou uma deslocação de uma série de materiais que antes estavam no relato da última ceia e que depois foram transferidos para o contexto do discurso sobre o pão da vida, uma vez que João preferiu dar relevo ao lava-pés na última ceia. Assim sendo, o texto do evangelho deste dia só pode ser compreendido à luz da eucaristia e ilumina a eucaristia. 

Depois de se ter apresentado como o pão vivo descido do céu, afirmação que os judeus com alguma dificuldade poderiam aceitar no sentido em que Jesus se apresentava como um mestre de sabedoria, Jesus afirma que só quem comer a sua carne e beber o seu sangue é que terá a vida eterna. Os judeus não podem compreender tais palavras. Só os discípulos de Jesus é que as podem compreender numa perspectiva eucarística. 

A carne de Jesus, ou seja, o seu corpo, a sua realidade física foi o lugar onde Jesus mostrou o seu amor e doação por todos os homens e o sangue de Jesus é uma referência à sua morte na Cruz. Assim sendo, podemos ver que o comer a carne e beber o sangue de Jesus está intimamente relacionado com o mistério pascal. Além disto não nos podemos esquecer que Jesus institui a eucaristia na véspera da sua paixão e morte e como chave de leitura de todo o mistério pascal: “Isto é o meu corpo, que vai ser entregue por vós; fazei isto em minha memória…. Este cálice é a nova Aliança no meu sangue, que vai ser derramado por vós” (Lc 22, 19-20). 

Assim sendo, o pão que Jesus nos oferece e que nos dá a vida não é um pão qualquer mas é a sua carne. “O pão que eu hei-de dar é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo”. Na verdade, a eucaristia é o memorial da paixão, morte e ressurreição de Cristo, ou seja, a eucaristia é celebrada em memória do mistério pascal de Cristo. No entanto, o memorial é muito mais que uma simples evocação do que aconteceu no passado. A celebração da eucaristia, em memória e segundo o mandato de Jesus, torna presente, de uma forma sacramental, o mistério pascal de Cristo. A eucaristia é um memorial na medida em que torna presente de uma forma sacramental o dom que Jesus fez de si mesmo, de uma vez por todas, na sua paixão, morte e ressurreição. Pela eucaristia realiza-se aqui e agora o que ela narra. A eucaristia torna presente e actualiza para nós o sacrifício da Cruz, tornando-os contemporâneos da cruz. A eucaristia enquanto memorial da Páscoa de Cristo renova os cristãos na participação do mistério pascal de Jesus. 

O evangelho deste dia também afirma que: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em Mim e eu nele”. Assim sendo, fica claro que a comunhão do corpo e sangue de Cristo tem como efeito a intimidade a e a comunhão de vida com Jesus. Neste sentido, a fé da igreja afirma que a eucaristia é “o banquete pascal no qual se recebe Cristo” (Constituição Sacrosanctum Concilium do Vaticano II sobre a Sagrada Liturgia, 47). Tal união com Cristo deve levar-nos a identificarmo-nos com Jesus e a comprometermo-nos com o seu projecto. Assim como quando comemos o pão material ele é assimilado e torna-se parte de nós, assim quando comungamos o corpo e o sangue de Cristo devemos ir-nos identificando com Jesus e com o seu projecto. No entanto, tal transformação não é algo que aconteça de forma mágica. Quando comungamos, somos alimentados e recebemos força para nos irmos conformando com Jesus mas isso não dispensa a nossa fé. Para que tenha os efeitos desejados a eucaristia deve ser celebrada e recebida com fé e com a disposição e o compromisso de nos irmos identificando com Cristo.

Como qualquer convite, o convite que o Senhor nos faz a aproximarmo-nos da sua mesa e a comermos do seu pão que é a sua carne para a vida do mundo pode ser aceite ou rejeitado. Se formos capazes de nos sentarmos à mesa do Senhor e de comer o seu corpo e beber o seu sangue podemos estar seguros que teremos a vida em nós e aumentaremos a nossa intimidade com Jesus. Que a celebração deste Domingo nos leve a aceitar com maior entusiasmo mas também com mais consciência este grande convite que o Senhor nos dirige.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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