Seminário da Santa Cruz dos Missionários Passionistas
Avenida Fortunato Meneres, 47
Santa Maria da Feira, Portugal
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Ano A – IV Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Sof 2, 3; 3, 12-13;
Salmo: Sl 145, 7. 8-9a. 9bc-10;
2ª Leitura: 1 Cor 1, 26-31;
Evangelho: Mt 5, 1-12a.

Bem-aventuranças, caminho de Felicidade!

O homem sempre procurou a felicidade. Na verdade, todos nós desejamos ser pessoas realizadas e felizes, homens e mulheres com uma autêntica qualidade de Vida. Este desejo está em perfeita harmonia com o facto de termos sido criados por Deus. Na verdade, fomos criados para sermos felizes e pessoas realizadas. É este o grande dom e a grande tarefa que Deus nos confia.

No nosso peregrinar quotidiano, todos nos esforçamos para sermos felizes. O grande motivo que leva as pessoas a agirem é o seu desejo de serem mais felizes e mais realizadas.

Mas o que é ser feliz? A que corresponde a verdadeira auto-realização e a verdadeira qualidade de vida?

São vários os modelos de felicidade que se nos vendem nestes dias. A “sabedoria do mundo” propõe como caminho para a felicidade o ter, o poder e o prazer. Assim sendo, a felicidade é associada ao dinheiro, à lei do mais forte, ao excesso, a uma liberdade libertina, a uma insensibilidade, à mentira, à duplicidade…

No entanto, devemo-nos perguntar, com verdade e sinceridade, se o caminho proposto pela “sabedoria do mundo” ajuda-nos a ser pessoas realizadas e felizes.

Na verdade, com certeza que já experimentamos que apesar de termos cumprido os padrões da felicidade segundo a sabedoria do mundo parece que há em nós um vazio e não nos sentimos totalmente satisfeitos, ou seja, sentimos que não somos verdadeiramente felizes.

Um dos problemas da nossa sociedade é viver o momento presente sem se lembrar do passado e sem pensar no futuro. Em tal filosofia de vida a felicidade é a realização, no mesmo momento, de todos os desejos que a pessoa tem. Não interessa se esses desejos estão contra o bem comum ou se me prejudicam. O que interessa é que as minhas necessidades sejam realizadas. Na verdade, a felicidade não se limita a uma fugaz alegria ou a um bem-estar que surge realização dos nossos desejos. A felicidade não se reduz a um momento.

Assim sendo, a que é que está associada a felicidade? A felicidade está relacionada com a nossa realização pessoal. Só quando eu me realizo como pessoa é que sou verdadeiramente feliz. A indicar esta verdade está o facto da Igreja chamar aos santos de “Beatos”, de “bem-aveturados”, ou seja, de felizes. Os santos são pessoas que na sua peregrinação sobre a terra viveram uma vida sadia e feliz segundo os critérios do reino e são exemplos de vida para nós.

Jesus veio mostrar-nos o caminho para atingirmos a felicidade por que tanto ansiamos e que corresponde ao projecto que Deus tem para cada um de nós: Deus quer que eu seja feliz. O evangelho deste domingo é a prova disto. Deus nas bem-aventuranças apresenta-nos um caminho de realização pessoal e de felicidade.

O texto evangélico deste dia insere-se no primeiro dos cinco grandes discursos de Jesus comummente denominado de discurso da montanha. Na verdade, Mateus divide o seu evangelho em cinco grandes discursos, em paralelo com os cinco primeiros livros da Bíblia, ou seja, a Lei dos judeus, quase que a indicar que Jesus revela-nos a nova lei que deve substituir a antiga lei que foi dada ao povo da Antiga Aliança no Sinai por meio de Moisés.

É nesta linha que Mateus nos apresenta, no texto do evangelho de hoje, Jesus a ensinar sentado no monte. Sentado porque é essa, na mentalidade judaica, a posição em que os mestres ensinam. No monte, porque também foi no monte Sinai que Deus revelou, por meio de Moisés, a lei ao povo. Assim sendo, Jesus, sentado no monte, ensina ao novo Povo de Deus a nova lei do Reino.

É neste contexto que Jesus proclama as bem-aventuranças como a nova lei do Povo de Deus. A nova lei que Jesus propõe espanta-nos. Na verdade, Jesus não indica uma série de proibições e de obrigações. Jesus anuncia uma série de valores, que para nós à primeira vista são contraditórios e fonte de infelicidade, como caminho para a felicidade.

As bem-aventuranças não são ordens concretas de acções a realizar mas sim um conjunto de valores pelo qual nos devemos guiar e segundo os quais devemos agir para alcançarmos uma vida feliz. O nosso texto revela-nos qual é o caminho para atingir esta felicidade paradoxal que o Reino nos oferece. Felicidade paradoxal porque está muito longe das propostas de felicidade apresentadas por este mundo e que assentam na alienação do poder, do prazer e do ter.

No entanto, quantos de nós é que já não seguimos a alienação do ter, do poder e do prazer e não encontramos a verdadeira felicidade e a realização plena. Na verdade, estas alienações escravizam-nos e destroem as nossas relações connosco próprios, com o próximo e com Deus. E ninguém pode ser feliz sozinho. Só seremos felizes relacionando-nos justamente connosco próprios, com os outros e com Deus.

Assim sendo e uma vez que a sabedoria do mundo não nos conduz à felicidade deveríamos ter a audácia de experimentar o caminho de felicidade que Jesus nos apresenta nas Bem-aventuranças e que consistem na pobreza de espírito, na humildade, nas lágrimas, na fome e sede de justiça, na misericórdia, na pureza de coração, na promoção da paz, na coerência que produz perseguição por causa da justiça e por causa de Jesus.

Uma pobreza de Espírito que, na linha dos pobres do Senhor, tem de ser entendida como a dependência total de Deus e não como a pobreza material efectiva que em si é um mal que tem de ser combatida. Só os pobres em espírito é que se sabem entregar totalmente ao Senhor.

Uma humildade que não é humilhação mas reconhecimento da sua verdade de criatura ante Deus e de irmão ante os demais Homens.

Umas lágrimas que nascem da compaixão com àqueles com mais sofrem e são o desejo dos novos céus e da nova terra. Na verdade, só Deus é que pode compreender toda a dor humana e consolá-la.

Uma fome e uma sede de Justiça que é inconformidade e luta contra a corrente numa sociedade onde ricos cada vez são mais ricos e os pobres cada vez mais pobres devido as grandes injustiças que se cometem.

Uma misericórdia que é a continuação da acção de Deus para com o Homem: amor, compaixão, perdão, compreensão, ajuda…

Uma pureza de coração que se traduz numa pureza de olhar, de desejos, de pensamentos, de palavras e de actos. Uma pureza de coração que é limpidez que nos permite ver Deus nos outros.

Uma promoção da paz que é o anseio de toda a humanidade mas em que em vez de se aproximar afasta-se. Afasta-se porque todos querem a paz, a sua paz, mas para a conseguir utilizam a violência para com os outros e tantas vezes para consigo mesmos. Se queremos ser antecipadores do Reino temos de ser homens e mulheres de paz.

Uma perseguição por causa da justiça e do nome de Jesus porque quem defende apaixonadamente o Amor fiel aos outros e a Deus, não pode seguir um caminho diferente do de Jesus de Nazaré que foi o caminho da cruz.

Há um ditado popular que diz: “Deus quer, o homem sonha e a obra nasce”. Deus quer que sejamos felizes. Todos nós sonhamos em ser felizes. Que fazer para sermos felizes? Se as propostas do mundo não nos conduzem à felicidade deveríamos ter a coragem de seguir o caminho da felicidade proposto por Jesus nas bem-aventuranças. Os Santos e os Beatos são exemplos concretos de vida feliz e realizada na escola das Bem-aventuranças. Como cristãos, as bem-aventuranças são o caminho da nossa felicidade!!

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista