Seminário da Santa Cruz dos Missionários Passionistas
Avenida Fortunato Meneres, 47
Santa Maria da Feira, Portugal
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Ano A – XXVI Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Ez 18, 25-28;
Salmo: Sl 24, 4-5. 6-7. 8-9;
2ª Leitura: Filip 2, 1-11;
Evangelho: Mt 21, 28-32.

 

A liturgia da palavra do XXVI Domingo do Tempo Comum interpela-nos sobre a forma como estamos a viver o nosso compromisso baptismal. Na verdade, pode acontecer que estejamos a viver uma espécie de esquizofrenia religiosa: dizemos uma coisa e fazemos outra.

Sobre o comportamento concreto que os cristãos devem ter, fala Paulo na belíssima leitura da ccarta aos filipenses que hoje escutávamos. A comunidade de Filipos, uma comunidade no norte da Grécia fundada pelo apóstolo Paulo, era uma comunidade generosa e piedosa. Na verdade, esta comunidade quando Paulo estava na prisão prontamente lhe enviou uma quantia em dinheiro e um dos seus membros desta comunidade para o socorrer nas suas necessidades. No entanto, também a comunidade de Filipos, a exemplo das nossas comunidades, não era uma comunidade perfeita, tinha também os seus problemas. Na verdade, sendo a cidade de Filipos uma espécie de Roma em miniatura com muitos privilégios, os valores da simplicidade, humildade e desprendimento não eram apreciados pelos filipenses.

Ante tal situação, o apóstolo Paulo não deixa de fazer aos filipenses uma exortação à caridade e à humildade. Uma exortação à caridade e à humildade porque a humildade é o resultado e a condição necessária para haver uma caridade autentica e duradoura. Tal exortação é realizada no texto que hoje escutávamos e que é composto por duas partes. Na primeira parte, o apóstolo Paulo dá recomendações concretas sobre os valores a cultivar; enumera uma série de características que são típicas da vida em Cristo. Os filipenses devem viver na caridade, devem ser humildes e não devem agir por vanglória, rivalidade e interesses pessoais. Resumindo, os cristãos de filipos e os de todos os tempos e lugares devem viver os mesmos valores que o Senhor Jesus viveu e anunciou: “Tende em vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus”. Na verdade, se ser cristão é ser discípulo de Jesus, os valores dos discípulos não podem ser diferentes dos valores do Mestre.

Mas se alguma dúvida há de quais são os sentimentos de Jesus tais dúvidas desaparecem com a segunda parte do texto da carta de Paulo deste domingo. Na verdade, para mostrar quais são os sentimentos de Cristo que os cristãos devem imitar, Paulo cita um hino litúrgico que celebra o despojamento de Cristo. Este hino celebra a humildade de Cristo: Jesus apesar de ser Deus faz-se Homem e aparecendo como Homem humilha-se ainda mais obedecendo até à morte e morte de Cruz. Para nos mostrar o amor de Deus pelos homens e para nos salvar, Jesus encarna e dá a sua vida numa cruz.

No entanto, o caminho da humildade e da obediência de Cristo aos desígnios de Deus foi o caminho da exaltação. Porque assumiu a condição de servo ao encarnar-se e porque obedeceu até à morte e morte de Cruz “Deus o exaltou e lhe deu um nome que está acima de todos os nomes”. O caminho de humildade e de obediência de Cristo desembocaram na sua ressurreição e glorificação. É claro o apelo de Paulo aos cristãos de Filipos e a nós hoje: se queres chegar à ressurreição, à vida plena deves seguir o mesmo caminho de Jesus, um caminho de humildade, de desprendimento, de dom da vida, de fidelidade à vontade de Deus. Foi este o caminho de Jesus. É este o caminho que os discípulos de Jesus estão chamados a seguir: “tende em vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus.”

Depois de termos descoberto qual a vontade de Deus para cada um de nós, depois de termos ouvido as consequências concretas que o nosso seguimento de Jesus nos pede, o evangelho deste domingo interpela-nos sobre a atitude que estamos a adoptar diante dos desafios e propostas de Jesus.

O texto do evangelho deste domingo situa-se na etapa final da vida terrena de Jesus. Jesus já entrou triunfalmente em Jerusalém e passo a passo começa a aumentar a rejeição à sua pessoa e à sua mensagem. Testemunho concreto desta rejeição e oposição à pessoa e à mensagem de Jesus são os príncipes dos sacerdotes a quem se dirige a parábola deste domingo que ilustra a recusa do povo eleito em aceitar a boa nova do reino; que demonstra a rejeição do povo eleito em reconhecer Jesus como o Messias de Deus.

A parábola deste domingo demonstra duas atitudes possíveis ante o convite que Deus nos faz. Há alguns que dizem mas não o fazem e há outros que apesar de algumas relutâncias cumprem a vontade de Deus.

O primeiro filho, ante a proposta do pai de ir trabalhar na vinha (não nos podemos esquecer que a vinha é símbolo do Povo de Deus) rejeita o convite mas depois arrepende-se e vai trabalhar na vinha. No tempo de Jesus, um pai receber uma resposta negativa de um filho era algo vergonhoso e punha em causa a sua autoridade. No entanto, apesar de ter dado uma resposta reprovável e que escandalizava os outros o filho arrependeu-se e foi trabalhar na vinha. Por sua vez, o segundo filho deu a resposta que era esperada. Disse que ia trabalhar na vinha de seu pai. No entanto, não foi.

Interrogados sobre esta situação, os príncipes dos sacerdotes e nós também somos levados a afirmar: o filho que efectivamente cumpriu a vontade do pai não foi aquele que disse que ia trabalhar mas não foi mas aquele que apesar de se ter recusado a ir trabalhar na vinha do seu pai acabou por ir. Diante desta constatação, Jesus tira as consequências: “Em verdade vos digo:
Os publicanos e as mulheres de má vida irão diante de vós para o reino de Deus. João Baptista veio até vós, ensinando-vos o caminho da justiça, e não acreditastes nele; mas os publicanos e as mulheres de má vida acreditaram. E vós, que bem o vistes, não vos arrependestes, acreditando nele”.Que a celebração deste domingo nos ajude não só a afirmar com coragem e decisão que queremos ter os mesmos sentimentos que estão em Cristo Jesus mas nos leve a agir em conformidade com tais sentimentos.Assim sendo, Jesus deixa-nos bem claro que não basta dizer mas que é necessário e imprescindível cumprir a vontade de Deus. O que verdadeiramente é importante e conta é cumprir a vontade de Deus. Não nos podemos contentar e limitar com o politicamente correcto. Jesus chama-nos à atenção para a necessidade de um compromisso sério. Se nos dizemos cristãos e discípulos de Jesus temos de actuar como tal. Não basta dizer que somos cristãos e necessário agir como tal. Não bastam só boas intenções e bonitas palavras. Aqueles que se dizem cristãos têm de se empenhar em cumprir a vontade de Deus. Os cristãos não podem ser cristãos de aparência mas tem de ser cristãos de obras.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista