Seminário da Santa Cruz dos Missionários Passionistas
Avenida Fortunato Meneres, 47
Santa Maria da Feira, Portugal
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Ano A – XXVII Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Is 5, 1-7;
Salmo: Sl 79, 9 e 12. 13-14. 15-16. 19-20;
2ª Leitura: Filip 4, 6-9;
Evangelho: Mt 21, 33-43

 

A liturgia da Palavra do XXVII Domingo do tempo comum, com uma linguagem parabólica onde a imagem da vinha ocupa o lugar central, apresenta-nos o grande cuidado do dono pela sua vinha, a improdutividade da vinha e a usurpação dos vinhateiros. Ao amor que cria e cuida contrapõe-se os frutos amargos e a recusa de dar os frutos devidos ao proprietário da vinha.

A primeira leitura deste domingo é retirada do livro do profeta Isaías. Como todos os profetas, também Isaías não fala de realidades abstractas mas dirige-se a uma comunidade concreta que vive uma situação concreta. Na verdade, a tranquilidade política e o clima de paz que Judá vivia na época de Isaías não era sinónimo de que tudo corria bem. Na verdade, as injustiças, as prepotências, a corrupção e o culto incoerente eram realidades bem presentes na sociedade de então. Assim sendo e para denunciar esta situação o profeta Isaías recorre ao cântico da vinha, a uma cantiga de amor onde se mostra todos os esforços do amado em conquistar a sua amada. Em nome de Deus, canta o profeta um cântico de amor à sua vinha.

Este amor à vinha é descrito por várias acções que o dono da vinha realiza. Na verdade, não há mais nada que possa fazer o dono da vinha pela sua vinha. Ele escolheu uma terra fértil, lavrou-a, tirou-lhe todas as pedras e nessa terra plantou cepas escolhidas. Além disso, construiu uma torre de vigia e um lagar. Depois de tanta preocupação e esforços, o senhor espera pelos frutos, pelos bons frutos da sua vinha. No entanto, esta vinha não produz boas uvas mas apenas agraços. Que fazer ante esta situação? Diante da história contada pelo profeta os seus interlocutores são interpelados sobre o que fazer a esta vinha e são levados a concordar mentalmente com a decisão de parar os cuidados para com a vinha, tirar-lhe as protecções e impedir que caia a água fecunda sobre ela.

Tendo os interlocutores caído no jogo do profeta, este lança directamente a acusação que vinha preparando: “A vinha do Senhor do Universo é a casa de Israel e os homens de Judá são a plantação escolhida. Ele esperava rectidão e só há sangue derramado; esperava justiça e só há gritos de horror.” Na verdade, na bíblia a imagem da vinha é comummente aplicada ao povo de Deus e é um símbolo da aliança, da história de amor entre Deus e o seu povo.

Deus é o vinhateiro e Israel é a vinha. A fértil colina é a terra de Cannan, a terra prometida. As pedras que o dono tirou da vinha foram os povos que aí habitavam e que foram expulsos para essa se tornar a terra do povo de Deus. As cepas escolhidas foi o povo que Deus libertou da escravidão do Egipto e trouxe para a terra da promessa. Diante de todo o seu amor e cuidado pelo seu povo, Deus esperava que o seu povo fosse fiel à aliança, que produzisse frutos de rectidão e de justiça. No entanto, o povo infiel ao amor de Deus, infiel à aliança só produz injustiças e infidelidades. Deus pretende através do seu amor, cuidado e carinho pelo povo leva-lo a produzir os bons frutos do amor a Deus e ao próximo. No entanto, o povo não entra nesta lógica de amor e ao amor responde com a injustiça e a infidelidade. E esta situação é uma situação caricata com a qual não se pode compactuar. E isto todos nós reconhecemos apesar de não o querermos reconhecer. Reconheceram os interlocutores de Isaías quando ouviram o cântico de amor à vinha do profeta Isaías e também estamos nós chamados a reconhecer. Na verdade, como estamos nós a responder ao amor de Deus por todos e cada um de nós? Será que eu já tomei consciência desta história de amor de Deus pelo seu povo? Será que eu já entrei nesta dinâmica de amor que me leva ao amor de Deus e do próximo. Tocados pelo amor de Deus por cada um de nós, somos impelidos a amar a Deus e ao próximo, somo impelidos a cumprir os frutos esperados do direito e da justiça.

Também Jesus no evangelho deste domingo nos fala de uma vinha. A parábola que escutamos é a segunda das três parábolas que Jesus, depois de entrar triunfalmente em Jerusalém e de sentir o aumento da tensão com os seus adversários, conta para mostrar a recusa de Israel em aceita-lo como o messias e salvador.

Partindo da situação sócio-económica da Galileia, Jesus conta a parábola dos vinhateiros homicidas para levar os seus adversários, ou seja, os líderes religiosos judaicos a reconhecerem que estão a cuidar mal da vinha, do povo de Deus e que estão a ser infiéis ao Deus a quem dizem servir.

Como o profeta Isaías, também Jesus começa por recordar todo o amor e carinho do dono pela sua vinha: construi-lhe uma vedação e uma torre para a proteger dos seus inimigos e um lagar. A partir daqui a parábola de Jesus afasta-se da de Isaías. Na verdade, aqui a vinha é confiada a uns servos para que tomem conta dela. Se a vinha é símbolo do povo de Deus e se o dono da vinha é Deus, estes servos são os líderes religiosos judaicos que tem a função de cuidar do Povo e leva-lo a produzir bons frutos. Chegando a época das colheitas, o senhor envia os seus servos para recolherem os frutos que eram devidos ao dono da vinha. No entanto, diante destes servos os vinhateiros não só não lhes dão os frutos como os maltratam e os chegam a matar. Evidentemente que estes servos são os profetas que Deus ao longo dos tempo foi enviando ao seu Povo e que foram perseguidos e mortos. O profeta Elias foi perseguido, Jeremias foi julgado e atirado a uma cisterna e levado à força para o exílio e Azarias foi lapidado no átrio do templo. Estes são alguns exemplos de como foram tratados os profetas ao longo da história.

No entanto, o dono da vinha, apesar destas acções dos vinhateiros que tentavam apoderar-se da vinha e fechar-se ao diálogo e entendimento, decidiu enviar o seu próprio filho na tentativa de trazer os vinhateiros à fidelidade aos compromissos. No entanto, também o filho foi assassinado pelos vinhateiros fora da vinha. Sem muito esforço reconhecemos que este filho é Jesus que será assassinado fora da cidade de Jerusalém.

Ante esta situação e como Isaías, Jesus interpela os seus ouvintes sobre o que fazer com tais vinhateiros. Todos são unânimes na resposta: “Mandará matar sem piedade esses malvados e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entreguem os frutos a seu tempo”. Depois dos príncipes dos sacerdotes e dos anciãos terem dado tal resposta, depois de os príncipes dos sacerdotes terem reconhecido aquilo que não queriam reconhecer Jesus diz-lhes: “por isso vos digo: ser-vos-á tirado o reino de Deus e dado a um povo que produza os seus furtos”. O evangelista Mateus pretende assim mostrar porque razão é que os judeus serão uma minoria nas primitivas comunidades cristãs e exortar a sua comunidade a produzir bons frutos para Deus.

E sobre alguns destes frutos que devemos produzir nos fala o apóstolo Paulo nas recomendações que dá aos cristãos de Filipos e que ouvimos na segunda leitura deste domingo. Aqueles que pelo baptismo foram enxertados na videira que é Cristo devem ter sempre no pensamento “tudo o que é verdadeiro e nobre, tudo o que é justo e puro, tudo o que é amável e de boa reputação, tudo o que é virtude e digno de louvor.

Que as parábolas que escutamos neste domingo nos ajudem a descobrir e a reconhecer as incoerências que tantas vezes vivemos e nos levem a produzir os frutos agradáveis que Deus espera de nós.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista