Seminário da Santa Cruz dos Missionários Passionistas
Avenida Fortunato Meneres, 47
Santa Maria da Feira, Portugal
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Ano A – XXVIII Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Is 25, 6-10a;
Salmo: Sl 22, 1-3a. 3b-4. 5. 6;
2ª Leitura: Filip 4, 12-14. 19-20;
Evangelho: Mt 22, 1-14.

 

A liturgia da palavra deste XXVIII domingo do tempo comum constrói-se à volta do tema do banquete, do banquete que Deus prepara e para o qual convida todos os povos. Antes de mais é importante recordar a importância e o papel que as refeições desempenhavam na cultura semita, na cultura em que surgiu a bíblia e na qual o próprio Jesus viveu.

O banquete é um evento com um forte significado social e religioso. Na verdade, o banquete é um lugar de encontro, de comunhão onde se criam e consolidam laços familiares. O banquete também conferia um certo estatuto social quer a quem convidava quer a quem era convidado. Daqui surgia o cuidado na escolha das pessoas que se convidavam para sentarem-se à mesa. Além desta dimensão social o banquete também possuía uma forte dimensão religiosa. Na verdade, as refeições sagradas mostravam e potenciavam a comunhão entre Deus e os homens. Na verdade, segundo o testemunho do Êxodo a aliança de Deus com o seu povo foi selada com uma refeição e os sacrifícios de comunhão outra coisa não são do que uma refeição entre Deus e o oferente do sacrifício. Na verdade, nos sacrifícios de comunhão o animal trazido ao templo para ser sacrificado era dividido em várias partes. A sua gordura era queimada sobre o altar e a sua carne era dividida entre os sacerdotes e os oferentes que a deviam comer no espaço sagrado do santuário.

Assim sendo e num mundo em que o banquete tinha esta significação social e religiosa ouvimos o profeta Isaías anunciar que Deus preparará um banquete para todos os povos. Como se isso não chegasse tal banque seria do mais extraordinário que podia existir. Nele seriam servidos manjares suculentos e vinhos deliciosos. Sabendo já o significado que o banquete tinha na cultura semita compreendemos que esta promessa de Deus é a promessa de um novo tempo de comunhão entre Deus e o seu povo. Tal comunhão produzira a vida e a vida em abundância. Na verdade, o Senhor “há-de tirar o véu que cobria todos os povos, o pano que envolvia todas as nações; destruirá a morte para sempre. O Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces e fará desaparecer da terra inteira o opróbrio que pesa sobre o seu povo”.

Deus não convidará só alguns convidará todos os povos para o seus banquete. Deus quer que todos se salvem e a todos convida, e a todos oferece a salvação, e a todos chama para que entrem em comunhão com Ele. Deus toma a iniciativa de criar e consolidar os laços familiares com todos os povos da terra. Tal banquete tem como cenário o monte. Certamente o monte do templo de Jerusalém, lugar onde Deus habita no meio do seu povo. Assim sendo, aceitar o convite para participar no banquete que Deus prepara é participar no culto a Deus, relacionar-se com Deus. Termina a leitura de hoje do livro de Isaías com um cântico de acção de graças, cântico que se usava na aclamação do novo rei. Assim sendo, vemos que está promessa é uma promessa messiânica. É com o banquete que o Messias irá oferecer que se iniciará o Reino de Deus, o tempo da comunhão total entre Deus e o homem e vice-versa.Ao lermos os evangelhos notamos que Jesus sempre deu muita importância aos banquetes e às refeições. Exemplo concreto destas refeições, no evangelho de Mateus, é a refeição de Jesus com os publicanos em casa de Mateus depois da vocação deste cobrador de impostos. As refeições eram para Jesus momentos de graça e de salvação onde os pecadores sentiam-se amados, perdoados e acolhidos por Deus. As refeições dos publicanos e das mulheres de má vida com Jesus eram fortes experiências de graça, experiências onde as pessoas viam as suas vidas transformadas.

A promessa de Deus anunciada por Isaías cumpre-se em Jesus. É Jesus que chama todos os povos, mesmo aqueles que a teologia oficial de Israel afastava da salvação, à comunhão com Deus, à salvação.

Quem não compreendia esta atitude de Jesus eram os fariseus que várias vezes censuravam-no por comer com publicanos e pecadores (cf. Mt 9, 11) e o chamavam de “glutão e bebedor de vinho, amigo de cobradores de impostos e de pecadores” (Mt 11, 19).

Esta atitude de Jesus ajudou a aumentar rejeição dos príncipes dos sacerdotes e dos anciãos do povo à pessoa de Jesus e à sua mensagem. Exemplo concreto desta situação é o evangelho de hoje. Jesus já está em Jerusalém. Depois da sua entrada triunfal na cidade santa, a perseguição e recusa à sua pessoa e à sua mensagem vai aumentando. A parábola que hoje escutamos no evangelho é a terceira das três parábolas que Jesus conta aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo para lhes mostrar a sua recusa ao projecto salvador de Deus.

Esta parábola que inicialmente deveria ser duas parábolas (parábola dos convidados para o banquete e a parábola do convidado que se apresentou num traje impróprio) tem três finalidades. A primeira finalidade é responder a todos aqueles que acusavam Jesus de se sentar à mesa com os pecadores e as mulheres de má vida. Jesus afirma que o mais importante não é se alguém têm ou não têm direito de se relacionar com Deus. Todos são convidados por Deus para se sentar à mesa com Ele. O que realmente é importante é aceitar ou recusar o convite de Deus. A parábola ilustra bem que Deus dirigiu o seu convite para os tempos messiânicos, para os tempos das núpcias do seu Filho em primeiro lugar ao povo de Israel. Mas o povo de Israel não só recusou o convite como maltratou e chegou a matar todos aqueles que lhes faziam o convite. Assim sendo, Deus estende o seu convite a todos aqueles que a teologia oficial de Israel afastava da salvação e do reino de Deus. E foram esses que na verdade aceitaram o convite a entrarem e a viverem em comunhão com Deus, experimentando assim a salvação.

A segunda finalidade desta parábola é explicar por que motivo os pagãos aceitam com mais facilidade a pessoa e a mensagem de Jesus do que os Judeus.

Pelo que foi afirmado podemos afirmar que aquilo que verdadeiramente é importante não é o facto de uma pessoa ter ou não ter direito a ser convidada. As leituras deste domingo mostram-nos que Deus oferece o seu convite de salvação a todos os povos. A todos é oferecida à salvação e a vida em abundância. Mas como qualquer convite, também este convite pode ser aceite ou recusado. A parábola deste domingo diz-nos que o que realmente conta não é ser convidado, o que realmente conta é se se aceita ou se se recusa o convite de Deus.

A terceira finalidade da parábola deste domingo, quando aborda o tema do convidado que se apresentou sem o traje nupcial, é recordar a todos os cristãos que não basta aceitar o convite. É necessário que todos nós usemos o traje da vida nova do amor, da santidade, da verdade, da graça, do perdão e da justiça que recebemos no baptismo. A uma comunidade que começava a viver instalada e a perder o fervor inicial, Mateus recorda que não basta ter feito uma opção por Cristo mas que é preciso ser coerente com essa opção no dia-a-dia e em todas as situações. No ritual do baptismo todos nós recebemos uma veste branca. Ela é símbolo de que pelo baptismo somos novas criaturas e estamos revestidos de Cristo. É nossa tarefa conservar essa veste imaculada até à vida eterna.

Que a celebração deste domingo nos recorde que todos somos convidados para entrarmos em comunhão com Deus, essa comunhão que nos dá a felicidade. No entanto, esse convite exige a nossa resposta. Não só a resposta de um momento mas a coerência com o convite aceite.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista