Seminário da Santa Cruz dos Missionários Passionistas
Avenida Fortunato Meneres, 47
Santa Maria da Feira, Portugal
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Ano A – XXX Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Ex 22, 20-26;
Salmo: Sal 17, 2-3. 7. 47 e 51ab;
2ª Leitura: 1 Tes 1, 5c-10;
Evangelho: Mt 22, 34-40.


A Liturgia da Palavra do XXX Domingo do Tempo Comum é um convite a concentrarmo-nos no essencial, a centrarmo-nos naquilo que é a essência e a marca característica do nosso ser cristão: o amor a Deus e aos irmãos.

O evangelho deste Domingo é a última das três controvérsias entre Jesus e os fariseus. Jesus já entrou triunfalmente em Jerusalém e a rejeição à sua pessoa e mensagem cada vez se acentua mais. Jesus denuncia, através de três parábolas (a parábola dos dois filhos, a parábola dos vinhateiros homicidas e a parábola dos convidados para o banquete nupcial), o facto dos líderes judaicos recusarem a proposta de salvação que Deus lhes faz. Incomodados com esta denúncia, os líderes judaicos procuram armar várias armadilhas a Jesus, pretendem apanhar Jesus na sua resposta a algumas questões polémicas. Assim sendo, o evangelista Mateus narra-nos três controvérsias de Jesus com os fariseus. Depois da controvérsia sobre a licitude ou ilicitude de pagar os impostos ao imperador (que reflectimos no passado Domingo) e depois da controvérsia com os saduceus sobre o tema da ressurreição, o evangelista Mateus apresenta-nos a controvérsia sobre o mandamento mais importante.

Na verdade, um Doutor da Lei aproxima-se de Jesus e, para o experimentar, pergunta-lhe: “Qual é o maior mandamento da Lei?” Com tal pergunta o Doutor da Lei desejava mostrar que Jesus não sabia interpretar a Lei de Deus e que por isso não era digno de crédito.

Na verdade, esta era uma questão complicada e estava na origem de grandes debates entre os fariseus e os doutores da Lei. Se os 10 mandamentos eram o coração da aliança que Deus estabeleceu com o seu povo, a vida quotidiana com os seus problemas concretos levaram a uma proliferação de Leis que pretendiam ser a aplicação concreta dos 10 mandamentos às mais variadas situações quotidianas. Assim sendo, os 10 mandamentos multiplicaram-se em 613 mandamentos, dos quais 365 (como os dias do ano) eram proibições e 248 (como os membros do corpo humano) eram indicações de obras a fazer. O próprio Jesus chegou a afirmar que tamanho conjunto de normas, cheias de subtis distinções e com uma casuística interminável, eram um fardo insuportável para o povo (cf. Lc 11,46). Assim sendo, surgia a dúvida se entre tantos mandamentos não haveria uma certa hierarquia; se todos os mandamentos tinham a mesma importância ou se haveriam mandamentos mais importantes que outros.

Ante a interpelação do Doutor da Lei, Jesus não vai dizer qual o mandamento mais importante mas o mandamento que resume toda a Lei e os profetas, ou seja, o mandamento que resume toda a revelação de Deus. Partindo de uma citação do livro do Deuteronómio e outra do livro do Levítico Jesus afirma: “‘Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu espírito’. (Cf. Dt 6,5) Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo, porém, é semelhante a este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’ (Lv 19, 18). Nestes dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas».”

Jesus afirma que o mandamento do amor ao próximo é semelhante ao mandamento do amor a Deus. O termo grego que se traduz por semelhante significa igualmente grande, igualmente importante, igual a. Assim sendo, Jesus ao dizer que o mandamento do amor ao próximo é semelhante ao mandamento do amor a Deus está a conferir ao amor pelos homens o mesmo valor que o amor por Deus. Só Jesus é que colocou em pé de igualdade o amor a Deus e ao próximo.

Muitas vezes esquecemo-nos desta verdade na nossa vida de crentes. Pensamos que ser cristão é algo que se resume à nossa relação com Deus. Pensamos que ser bom cristão limita-se a rezar muito, a vir à missa ao Domingo e a amar muito a Deus Nosso Senhor. No entanto, se é assim que estamos a viver a nossa vida de fé, estamos mancos. Falta-nos a outra dimensão essencial da nossa existência de cristão: o amor ao próximo. Amor a Deus e amor ao próximo são as duas pernas da nossa existência cristã. Se nos falta uma destas pernas estamos a mancar. Deixemos que seja o Apóstolo João a explicar-nos a relação que existe entre o amor a Deus e ao próximo: “Nós amamos, porque Deus nos amou primeiro.  Se alguém disser: «Eu amo a Deus», mas tiver ódio ao seu irmão, esse é um mentiroso; pois aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. E nós recebemos dele este mandamento: quem ama a Deus, ame também o seu irmão.” (1 Jo 4, 19-21).

No entanto, o amor de que estamos a falar não é algo que se reduza a uma pura emoção ou a um sentimento. O amor que Jesus nos pede a Deus e aos irmãos deve traduzir-se em acções concretas. O amor que Jesus nos pede é um amor de obras e não só de palavras.

Em primeiro lugar o amor que devemos ter para com Deus deve ser um amor “com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu espírito”. Toda a existência do homem está implicada no amor a Deus. Devemos amar a Deus com todo o coração, devemos amar a Deus com um coração indiviso. Quantas vezes dizemos que amamos a Deus mas são outras coisas aquelas que enchem o nosso coração. Quantas vezes dizemos que somos cristãos mas aquilo que enche o nosso coração é o ter, o poder e o prazer. Amar a Deus é amá-lo com todo o coração. Na verdade, só Deus é que é capaz de encher o nosso coração.

Devemos amar a Deus com toda a nossa alma, com toda a nossa vida. Amar a Deus com toda a vida é estar disposto a enfrentar as dificuldades, as incompreensões e as discriminações que surgem da nossa fidelidade a Deus. Sabemos que os valores que regem o nosso mundo são diferentes dos valores de Deus e sabemos que se quisermos ser fiéis a Deus vamos entrar em choque com a sociedade e que isto vai causar sofrimento. Amar a Deus com toda a alma, com toda a vida e estar disposto a dar, a gastar a sua vida pelos valores de Deus.

Devemos amar a Deus com todo o nosso espírito, com todo o nosso entendimento. O aspecto racional também faz parte do nosso amor de Deus. Devemos mostrar que a nossa fé em Deus é credível. Amar a Deus não se reduz a uma simples emoção.

No entanto, o cristão também é aquele que ama o próximo como a si mesmo. Assim como gostamos de ser tratados assim devemos tratara o próximo. Assim como gostamos de ser perdoados, ajudados, consulados, estimulados assim devemos perdoar, ajudar, consular e estimular o nosso próximo. E não nos esquecemos que o nosso próximo são todos aqueles que estão ao nosso redor independentemente do seu estrato social, da sua ideologia política e da sua cor da pele. Próximo é também aquele de quem não gostas tanto.

Assim sendo, como gostamos de ser tratados assim devemos tratar os outros. Não te limites a não fazeres aos outros aquilo que não queres que não te façam a ti, mas faz ao teu próximo aquilo que queres que te façam a ti; trata o teu irmão como gostarias de ser tratado. Uma religião que não ama o seu irmão é uma hipocrisia e uma mentira. O amor a Deus nosso Pai leva-nos e exige de nós o amor aos irmãos. Como podemos dizer que amamos a Deus se não amamos os outros seus filhos que são nossos irmãos?

Que as nossas motivações não sejam outras que o amor a Deus e ao próximo. Que diante de todas as situações eu me interrogue “que me pede neste momento o amor a Deus e aos irmãos?” O amor a Deus e ao próximo são as duas pernas com as quais seguimos o Senhor Jesus, são as duas componentes essenciais da nossa existência cristã.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista