Seminário da Santa Cruz dos Missionários Passionistas
Avenida Fortunato Meneres, 47
Santa Maria da Feira, Portugal
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Ano A – XXXIV Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Ez 34, 11-12. 15-17;
Salmo: Sal 22, 1-2a. 2b-3. 5-6;
2ª Leitura: 1 Cor 15, 20-26. 28;
Evangelho: Mt 25, 31-46.


Um reino cujo rei é o Bom Pastor e que tem por lei e missão as obras de misericórdia!

No último domingo do ano litúrgico, como a dizer que toda a história está orientada a Cristo, celebramos a Solenidade de Cristo Rei.

A presente festa foi instituída por Pio XI, em 1925. Viviam-se tempos difíceis: o pós primeira guerra mundial, o ateísmo, a secularização, o laicismo… Como tentativa de promoção do reino social de Cristo, ou seja, de promover a militância católica e de ajudar a sociedade a revestir-se dos valores cristãos foi instituída esta festa que até à reforma litúrgica se celebrava no último domingo de Outubro.

Com a reforma litúrgica pós-conciliar esta festa passou a celebrar-se no último domingo do ano litúrgico e a ter um sentido universal, escatológico e espiritual.

As leituras que foram proclamadas neste dia falam-nos do Reino de Deus mostrando-nos qual é o perfil do Rei e qual é a lei e a missão desse reino.

A primeira leitura que é proclamada neste dia é do profeta Ezequiel. Este profeta é conhecido como o profeta da esperança. Na verdade, este profeta exerceu a sua missão entre os exilados da Babilónia. Se numa primeira fase, a sua mensagem visava destruir as falsas expectativas do povo que pensava que o exílio era uma coisa de breve duração, na sua fase do seu ministério, onde o texto de hoje se insere, Ezequiel alimenta a esperança dos exilados e anuncia-lhes que Deus não se esqueceu do povo e que havia de liberta-lo e salva-lo.

Assim sendo, Ezequiel pega numa imagem que o antigo médio oriente atribuía quer aos deuses, quer aos reis e aplica-a a Deus. Referimo-nos à imagem do Pastor.A imagem do pastor manifesta também dois aspectos que devem estar presentes na vida dos dirigentes dos povos: o pastor é aquele que dirige o seu rebanho e o defende dos perigos dos animais ferozes mas também é aquele que caminha com o seu rebanho em direcção as pastagens verdejantes e trata com delicadeza o seu rebanho.

Se os versículos que antecedem o texto deste dia referiam-se aos maus pastores que conduziram e exploraram o povo conduzindo-o ao exílio, Ezequiel nos versículos seguintes anuncia que o próprio Deus será o pastor do seu povo. O profeta anuncia um tempo novo, em que Deus, como pastor, conduzirá e apascentará o seu Povo.

Deus como pastor do seu povo distinguir-se-á de todos os maus pastores que conduziram o seu povo ao desterro. Na verdade, Deus como pastor do seu povo não será um soberano longínquo ou um explorador, mas sim um companheiro atento e cuidadoso com o seu povo. Para comprovarmos está acção de cuidado e de interesse de Deus com o seu povo basta-nos enunciar os verbos que o profeta Ezequiel utiliza para descrever a acção de Deus como pastor: ir em busca, vigiar, apascentar, levar ao repouso, tratar, dar vigor, velar e apascentar com justiça.

Fica assim bem claro que Deus será um pastor bem diferente dos pastores humanos, fica assim bem claro que Deus é o pastor/rei do seu povo de uma maneira diferente da humana. Ser rei à maneira humana quer dizer domínio e exploração. Ser rei à maneira de Deus quer dizer cuidado e ternura.

Esta promessa de Ezequiel ganha uma concretização concreta em Jesus de Nazaré. Na verdade, é o próprio Jesus que o afirma: “Eu sou o bom pastor: o bom Pastor dá a vida pelas suas ovelhas” (Jo 10,11). Jesus é Rei, mas um rei segundo a profecia de Ezequiel, um Rei que é um pastor que se preocupa com o seu rebanho, que procura a ovelha desgarrada, que cura a ovelha ferida, que dá vigor as ovelhas enfraquecidas e vela pelas vigorosas. É o Rei preocupado, carinhoso, cuidadoso e amoroso para com o seu povo.

No entanto, celebrar a festa de Cristo Rei não é só reconhecer Jesus como o verdadeiro rei do Povo de Deus. Na verdade, o reino de Deus que Jesus anunciou e implantou é a missão que todos os seus discípulos estão chamados a edificar na história até a instauração definitiva do Reino de Deus com a última vinda de Cristo. Assim sendo, a celebração da festa de Cristo rei é uma forte interpelação a todos nós sobre a forma como estamos a edificar este reino, sobre a forma como estamos a seguir Cristo Rei.

O profeta Ezequiel e depois, de maneira o mais desenvolvida, o evangelista Mateus asseguram que Deus nos interpelará sobre a forma como estamos a viver o amor, a lei e a missão fundamental do reino de Deus que se traduz nas obras de misericórdia.

O evangelho deste dia insere-se no quinto grande discurso de Jesus no evangelho de Mateus, no discurso escatológico. Através deste discurso, Mateus pretende reanimar a sua comunidade que, com o passar dos tempos, caiu na tentação da rotina, da indiferença, do abandono dos valores do reino. Mateus estimula os seus destinatários a estarem preparados para a última vinda de Jesus. É com estes objectivos que Mateus apresenta este discurso de Jesus sobre o juízo final.

O evangelho deste dia é uma descrição do dia do Juízo. O Filho do Homem, sentado num trono com todas as nações na sua presença, a separar aqueles que cumprem as obras de misericórdia dos que não cumprem as referidas obras. Os que as cumpriram, as ovelhas, serão colocados à sua direita e entrarão definitivamente no reino. Os que não as cumpriram, os cabritos, serão colocados à sua esquerda e irão para o fogo eterno. Como é óbvio este não é um relato fotográfico de como será o juízo final. Esta página do evangelho de Mateus é uma catequese que pretende indicar qual é a lógica e os critérios do reino. E nesta catequese utilizam-se as imagens fortes, tão a gosto dos orientais, para interpelar os ouvintes.

Assim sendo, o nosso texto diz-nos que o critério fundamental para se entrar no reino é o amor, um amor que se traduz nas obras de misericórdia (dar de comer, dar de beber, dar pousada, vestir os nus e visitar os doentes e encarcerados). Tal amor deve ser dado a todos os irmãos. E irmãos não são só os membros da comunidade cristã (interpretação restrita) mas todos os homens (interpretação ampla). Com todos os irmãos que sofrem identifica-se Jesus até ao ponto de se afirmar que tudo aquilo que se faz ou se deixa de fazer a um dos irmãos é ao próprio Jesus que se está a fazer ou a deixar de se fazer.

Estar vigilante e preparados para a vinda do Senhor é viver no amor para com os irmãos, um irmão que se traduz na prática das obras de misericórdia. Na verdade, é este amor que alimenta, que cuida, que se faz próximo que é a lei, o projecto e o critério do Reino. No reino de Deus não há lugar o egoísmo e para a indiferença para com os outros.

Através desta Parábola, Jesus adverte-nos para a responsabilidade do homem. Deus não condena ninguém. Quem se pode condenar, com a sua acção livre e consciente, é o homem. O homem está chamado a construir o Reino de Deus já na terra. Neste reino, o egoísmo e o desprezo dos irmãos não tem lugar. Este Reino é “um reino eterno e universal: reino de verdade e de vida, reino de santidade e de graça, reino de justiça, de amor e de paz”, como o define o prefácio deste dia.

Que a celebração deste dia nos leve a reconhecer que Jesus é o nosso verdadeiro Rei, um rei que como um pastor nos ama, nos guia e nos cuida, e que nos leve a tomar consciência que o seu reino é um reino que tem como lei e missão o amor, que se traduz nas obras de misericórdia. Se de verdade queremos fazer parte deste reino devemos desde agora por em prática essa lei e missão. Na verdade, é este o critério de entrada no Reino.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista