Seminário da Santa Cruz dos Missionários Passionistas
Avenida Fortunato Meneres, 47
Santa Maria da Feira, Portugal
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Ano B – III Domingo do Advento

1ª Leitura: Is 61, 1-2a. 10-11;
Salmo: Lc 1, 46b-48. 49-50. 53-54;
2ª Leitura: 1 Tes 5, 16-24
Evangelho: Jo 1, 6-8. 19-28.

 

O terceiro Domingo do Advento é conhecido como o Domingo Gaudete Domino (Alegrai-vos no Senhor). Na verdade, os textos utilizados na celebração deste dia são um convite à alegria. O apóstolo Paulo, na segunda leitura deste domingo, recomendava aos cristãos de Tessalónica: “vivei alegres”.

A comunidade de Tessalónica, cidade marítima, comercial e importante da Macedónia, foi evangelizada por Paulo por volta do ano 50. No entanto, a actividade missionária de Paulo nesta cidade foi relativamente breve. Na verdade, devido a objecção dos judeus, Paulo viu-se obrigado a fugir da cidade de noite. No entanto, a sua preocupação por esta jovem comunidade não o abandonou. Assim sendo, Paulo enviou Timóteo a Tessalónica para confortar os tessalonicenses e para recolher informações sobre a vida desta comunidade. Regressando para junto de Paulo, Timóteo informa-o sobre a vida da comunidade. Neste contexto, Paulo decide escrever uma carta aos tessalonicenses. A epístola aos Tessalonicenses, o primeiro escrito do Novo Testamento, foi o meio encontrado por Paulo para louvar a fidelidade ao evangelho, para corrigir alguns comportamentos menos cristãos e para completar a formação cristã da comunidade de Tessalónica.

A segunda leitura deste domingo faz parte das exortações com que Paulo termina a sua carta. Paulo dá alguns conselhos práticos aos cristãos sobre a forma de esperar a vinda do Senhor. O primeiro destes conselhos é a alegria. A vida dos cristãos deve ser marcada pela alegria. O próprio apóstolo Paulo, alguns anos mais tarde, na epístola aos filipenses recomendará: “Alegrai-vos sempre no Senhor! O Senhor está perto”. A alegria dos cristãos nasce da certeza que o Senhor está perto de todos nós. O Deus cristão não é o Deus longínquo do homem. O Deus cristão é aquele que está próximo, que faz-se próximo do homem para o salvar e libertar o homem. É nesta linha que podemos entender a omnipresença de Deus. Confessar que Deus é omnipresente é dizer que Deus abraça em si todas as coisas. A omnipresença de Deus é a omnipresença do seu amor e tal omnipresença ordena-se a presença divina na história humana que acontece na encarnação de Jesus. A alegria do cristão nasce da proximidade de Deus de cada um de nós.

Além da alegria, o apóstolo Paulo também exorta os cristãos a uma vida de oração, em especial, a uma oração de acção de graças. Os cristãos devem ser pessoas agradecidas. Devem agradecer a Deus todos os bens que Ele nos concede. Para terminar, o apóstolo também recomenda que os cristãos abram os seus corações ao Espírito Santo e não desprezem os seus dons. Depois desta exortação, Paulo pede que Deus santifique a totalidade da pessoa (espírito, alma e corpo) de cada cristão para que assim se conservem irrepreensíveis para a vinda do Senhor.

Da alegria também nos fala a primeira leitura deste domingo: “Exulto de alegria no Senhor”. Mais uma vez, o povo de Deus enche-se de alegria diante da presença e da acção salvadora de Deus. A primeira leitura deste domingo é do chamado trito-Isaías. Estamos na época do pós-exílio. São tempos complicados para a fé do povo de Deus. Na verdade, os exilados são recebidos em Jerusalém, por aqueles que tinham permanecido na cidade, com frieza e os inimigos continuam à espreita. Além disto, a reconstrução de Jerusalém é lenta e modesta e a ela juntam-se as injustiças dos mais ricos sobre os mais pobres. Tudo isto abala a esperança do Povo. É neste contexto que aparece o profeta com a promessa de um futuro de vida e de salvação, com a promessa que Deus voltará a Jerusalém e que não só Jerusalém será reconstruida mas também os pobres serão libertados.

A primeira leitura de hoje começa com a vocação do profeta. O profeta apresenta-se como o enviado do Senhor, sobre quem repousa o espirito. Sua missão será anunciar a boa nova da salvação, curar os corações atribulados, proclamar a redenção e a liberdade e promulgar o ano da graça do Senhor. Aos pobres, atribulados, cativos e prisioneiros, o profeta anuncia a salvação de Deus, anuncia um tempo novo caracterizado pela vida e pela abundância.

Se a primeira parte do nosso texto apresentava a vocação do profeta, a segunda parte da primeira leitura deste domingo descreve-nos a reacção do povo ante às promessas de Deus. Diante do anúncio da salvação o povo manifesta a sua alegria e o seu júbilo em Deus que vem salvar-nos. Neste contexto, o profeta apresenta-nos duas imagens cheias de rico simbolismo: o noivo que cinge com o diadema a sua esposa e o jardim que faz germinar as sementes. A imagem esponsal é uma das imagens predilectas para descrever a relação de Deus com o seu povo. A imagem do jardim que faz germinar as sementes sugere-nos a fecundidade que surgirá da salvação e libertação operada por Deus.

Esta promessa de salvação que escutávamos na leitura do livro de Isaías tem o sue pleno cumprimento de Jesus Cristo. Na verdade, o evangelista Lucas diz-nos que Jesus, depois de ter proclamado esta passagem de Isaías na sinagoga de Nazaré, afirmou “hoje cumpriu-se esta passagem da Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4, 21). E do testemunho sobre Jesus nos fala o evangelho de hoje. O evangelho deste domingo é retirado do Evangelho de João. Este evangelista depois do seu prólogo (primitivo hino cristão adaptado onde se expressa a fé em cristo) faz entrar em cena várias personagens que tem como função apresentar Jesus. A primeira dessas personagens é João Baptista que é definido no prólogo como a testemunha, como “aquele que veio para dar testemunho da luz”. O texto evangélico deste domingo apresenta-nos a imagem de João Baptista como o apresentador oficial de Jesus de Nazaré. Na verdade, o texto de hoje apresenta-nos o primeiro testemunho que João dá sobre Jesus ante os enviados das autoridades judaicas.

Ante um povo que vive na expectativa da vinda do messias, a figura e o testemunho de João eram inquietantes e faziam surgir a dúvida: será ele o messias? Neste contexto, as autoridades judaicas enviam a João uma delegação para lhe perguntar se ele era o messias. No entanto, João afirma-lhes que não é nem o messias, nem Elias (aquele que seria enviado por Deus para construir um mundo novo), nem o profeta. João não é o centro ou o protagonista. Ele é simplesmente a testemunha da luz, é a voz que clama no deserto pedindo que endireitem o caminho do Senhor. João não busca a sua glória ou a sua auto-afirmação. Ao definir-se como a voz, João diz que não é à voz mas à mensagem que ela anuncia que os homens devem prestar atenção. Mesmo ao ser interrogado sobre o seu baptismo, ele desvaloriza o seu baptismo e aponta para o Messias: “no meio de vós está alguém que não conheceis”.

A missão de João é dar testemunho da Luz, testemunho de Jesus. João é a voz que clama: “endireitai o caminho do Senhor”. João é aquele que testemunha o Messias e que nos pede que preparemos o caminho do Senhor. É aquele que pede que nos purifiquemos e mudemos de vida para acolhermos o Senhor que vem. Na verdade, o baptismo de João tinha esta marca de mudança de vida e de purificação.

Com João, todos nós temos de aprender a dar testemunho de Cristo. O cristão é chamado a ser mártir, testemunha, de Jesus neste mundo. Em todas as situações da nossa vida, com as palavras e obras, devemos dar testemunho de Cristo. É Ele a Luz e a salvação do mundo.

O terceiro domingo do Advento coloca-nos assim diante do testemunho sobre Cristo que deve suscitar em nós a alegria. A vela que devemos acender neste terceiro domingo é a do testemunho alegre. Como João, devemos testemunhar Cristo, o salvador prometido, ao nosso mundo. No entanto, este anúncio e a nossa vida de cristãos devem ser marcados pela alegria, a alegria de quem experimenta a presença salvífica de Deus na sua vida e na sua história.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista