Salmo: Sl 97, 1. 2-3ab. 3cd-4;
2ª Leitura: 1 Jo 4, 7-10;
Evangelho: Jo 15, 9-17.
A Liturgia da Palavra do VI Domingo da Páscoa aborda o tema do Amor: o amor enquanto essência de Deus; o amor enquanto dom e relação que existe entre Jesus e os seus discípulos; o Amor enquanto empenho e missão dos discípulos.
Na segunda leitura deste dia, retirada da primeira epístola do apóstolo S. João, encontramos uma breve mas intensa definição do ser de Deus: “Deus é amor”. São João vê-se na necessidade de apresentar esta definição de Deus às Igrejas da Ásia menor no contexto do aparecimento das primeiras heresias de âmbito gnóstico, que entre coisas defendiam que o amor de Deus era o primeiro e mais fundamental e por isso desprezavam o amor ao próximo. É para tentar responder a este desvio doutrinal e ético que S. João nos apresenta a definição do ser de Deus como amor que nos leva a amar o próximo.
No entanto, S. João não se limita a dizer que Deus é amor mas apresenta também os motivos que o levam a fazer tal afirmação: “Assim se manifestou o amor para connosco: Deus enviou ao Mundo o seu Filho Unigénito … como vítima de expiação pelos nossos pecados”. Porque Deus nos amou enviando-nos o seu Filho Jesus que por nós se fez homem, percorreu os nossos caminhos, morreu numa cruz e ressuscitou para nos salvar, podemos dizer que Deus é Amor. O “fazer” de Deus ajuda-nos a chegar ao ser de Deus.
Assim sendo, torna-se claro para São João e para nós também que quem não ama não pode conhecer o Deus amor. Conhecer Deus, isto é, viver uma relação de intimidade e profundidade com Deus, exige que o Amor que Deus é se manifeste nas nossas obras. “Amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus”.
Vemos assim que a questão “Quem é Deus?” não é uma questão especulativa que serve para ocupar os desocupados mas é uma questão existencial que temos de responder uma vez que a resposta a tal questão influência a nossa existência crente. É da ortodoxia (correcta fé) que nasce a ortopraxis (correcta praxis).
O mesmo tema do amor é desenvolvido no evangelho deste domingo retirado do evangelista João. O texto evangélico que hoje escutamos insere-se no discurso de despedida de Jesus. Na véspera da sua paixão e morte de Cruz, Jesus, “que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo” (Jo 13, 1), reuniu-se com os seus discípulos numa ceia de despedida. Nesta ceia, todos os gestos e palavras de Jesus estão repletos do seu amor e são tidos como o testamento de Jesus. Na verdade, o discurso de despedida de Jesus é uma apresentação do essencial da mensagem de Cristo e da missão dos seus discípulos.
Como já foi referido, o tema do evangelho deste domingo é o do amor. Jesus começa por referir que “Assim como o Pai me amou, também eu vos amei”. Tal afirmação de Jesus leva-nos a afirmar que a primeira qualidade do amor é uma qualidade teológica. O Amor é um dom de Deus. Há alguém que nos ama primeiro. É esse amor de Deus que quase numa genealogia vai passando de geração em geração: O Pai ama o Filho e o Filho ama-nos e nós devemos amar-nos uns aos outros.
Na verdade, e esta é outra das características do amor que o evangelho de hoje nos apresenta, é a relação que há entre amor e mandamento: “Se guardardes os meus mandamentos permanecereis no meu amor … é este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei”. Assim sendo, o amor cristão não é um sentimento genérico e espontâneo mas um empenho total. O amor cristão é um amor “mandado”. O amor cristão é a única mas mais difícil e englobante lei do cristianismo. Na verdade, o amor é algo abrangente, porque “tudo crê, tudo espera, tudo suporta e nunca termina” (1 Cor 23, 7-8). Uma religião regulada por várias leis torna-se menos árdua que uma religião que tem o amor como sua única lei. Jesus ultrapassa a contradição entre lei e amor. Na verdade, o amor e a obediência estão relacionados porque Jesus propõe como lei o amor, não numa medida qualquer mas como Ele nos amou. E todos sabemos que Ele nos amou até ao extremo, até dar a sua vida por nós na cruz. É este o mandamento novo de Jesus: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Assim sendo, o amor que Jesus nos manda não se reduz a sentimentalismos e a pieguices mas é um compromisso sério, um empenho total de nos darmos, de nos entregarmos, de nos gastarmos para que os outros tenham mais vida.
É aqui que reside a novidade do mandamento novo de Jesus. Que nos devíamos amar uns aos outros já o Antigo Testamento o dizia (Lev 19, 18). Agora que esse amor tenha de ser infinito, perfeito total e supremo, à imagem do amor de Jesus por cada um de nós, é a novidade aportada por Jesus. O amor que Jesus nos manda é o amor com que Ele nos ama, o amor total e absoluto até ao extremo: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida”.
A terceira característica que o amor cristão possui é a intimidade: “Já não vos chamo servos … mas amigos”. É o amor de Deus que nos gera como seus filhos e amigos e nos permite viver a intimidade própria dos filhos e dos amigos de Deus. O amor de Cristo derruba todas as barreiras e distâncias e cria comunhão e intimidade. Assim sendo, a nossa religiosidade, a nossa maneira de nos relacionarmos com Deus não deve ser a da escravidão, da ignorância e da distância abismal entre Deus e a sua criatura mas a da amizade e da familiaridade. São bem diferentes as relações que se estabelecem entre o patrão e o seu empregado e entre dois amigos. Nós não somos escravos mas amigos de Cristo!
A quarta característica do amor que o evangelho de hoje nos oferece é a da missão. Na verdade, toda a vocação nasce do amor de Deus. “As vocações são dom do Amor de Deus” (Bento XVI). É Deus que nos escolhe, porque escolhidos e elegidos no Novo Testamento são todos os cristãos e não só alguns (cf. Col 3, 12; 1 Pe 2,4), e nos envia para produzirmos os frutos do amor: “Não fostes vós que me escolhestes; fui eu que vos escolhi e destinei, para que vades e deis fruto”. O amor com que somos amados por Deus não pode ser conservado egoisticamente mas tem de ser transmitido a todo o mundo. O amor com que somos amados tem de se traduzir na caridade actuante e no anúncio do evangelho da salvação.
É esta dinâmica missionária que nasce do amor que nos relata a primeira leitura deste dia, retirada dos Actos dos Apóstolos. O apóstolo Pedro anuncia a salvação de Jesus Cristo ao centurião Cornélio e este e toda a sua família se convertem. Esta é uma página importante do livro dos Actos dos Apóstolos porque Cornélio é o primeiro pagão que é admitido na comunidade dos discípulos de Jesus. Assim sendo, a leitura dos Actos dos Apóstolos deste dia mostra-nos que o amor de Deus não conhece fronteiras. Deus a todos ama e a todos quer oferecer a salvação. Na verdade, Deus também concedeu o dom do Espírito ao pagão Cornélio. O amor de Deus é um amor universal porque “Deus não faz acepção de pessoas”. Assim sendo, os discípulos de Jesus, testemunhas qualificadas do amor de Deus, devem vencer todas as fronteiras geográficas, étnicas, culturais,… e a todos levar o amor salvífico de Deus.
Que a celebração deste VI Domingo da Páscoa, que tanto fala de amor, nos submerja no mar do infinito amor de Deus: um amor que é o próprio ser de Deus, um amor que é um dom, um amor que exige um sério empenho, um amor que cria intimidade e um amor que se torna missão.
missionário passionista
