1ª Leitura: Gal 5, 18-25;
Salmo: Sl 1, 1-2. 3. 4 e 6;
Evangelho: Lc 11, 42-46.
Iniciamos hoje, dia em que fazemos memória do mártir Santo Inácio de Antioquia, o tríduo de preparação para a Solenidade de São Paulo da Cruz. No dia em que fazemos memória de um mártir, de um santo que entregou a sua vida em defesa da fé, unindo-se assim ao mistério da Cruz do Senhor, queremos começar o nosso itinerário de preparação para a festa de S. Paulo da Cruz, daquele que fez da Cruz do Senhor o centro da sua vida e do seu apostolado.
Apesar de Santo Inácio ter sido martirizado pela sua fé em Cristo e de São Paulo da Cruz ter morrido de morte natural, depois de uma longa e fecunda vida de 81 anos, ambos os santos coincidem, como todos os santos coincidem, no seu seguimento e configuração a Cristo e Cristo crucificado. E outro não pode ser o objectivo de cada cristão, de cada passionista religioso ou leigo, senão a tarefa sempre inacabada do seguimento e da configuração a Cristo e este crucificado.
No entanto, tal configuração não é algo que se reduza ao exterior e que vise o exibicionismo. O evangelho deste dia alerta-nos para um perigo que pode estar a minar o nosso caminho de seguimento e configuração a Cristo Crucificado: a hipocrisia e o exibicionismo religioso.
Quando lemos os evangelhos encontramos muitas vezes as acusações que os fariseus e os doutores da lei dirigem contra Jesus. No entanto, no episódio evangélico de hoje, é Jesus que toma a iniciativa e acusa aqueles que deviam ser os educadores do Povo. Contra os fariseus, Jesus lança três acusações e, contra os doutores da lei, Jesus lança uma acusação. Acusações essas que se relacionam com a excessiva primazia que os fariseus e os doutores da lei davam aos ritos exteriores deixando assim de lado o compromisso interior perante Deus e os homens.
Aos fariseus Jesus acusa-os de se preocuparem em cumprir escrupulosamente a lei do dízimo mas de se esquecerem das exigências fundamentais da justiça e do amor de Deus; de buscarem honras e de serem sepulcros escondidos que contaminam quem passa sobre eles. Aos doutores da lei, acusa-os de oprimirem a consciência das pessoas obrigando-as a observar prescrições duras e insuportáveis que eles não observam.
Soam-nos mais eloquentes e mais penetrantes estas censuras de Jesus, dirigidas aos fariseus e aos doutores da lei mas que bem podiam ser dirigidas a nós, neste dia em que celebramos a autenticidade do seguimento de Cristo Crucificado de Inácio de Antioquia e de Paulo da Cruz. Na verdade, são os santos os nossos verdadeiros educadores no caminho de seguimento e de configuração a Cristo Crucificado.
Inácio de Antioquia e Paulo da Cruz não se esqueceram, como os fariseus, da justiça e do amor de Deus. Foi esse amor que os guiou na sua vida e na sua morte. Tudo o que fizeram foi motivado e originado por esse amor. Na verdade, como nos recorda S. Paulo na sua primeira carta aos coríntios: “Ainda que eu distribua todos os meus bens e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, de nada me aproveita” (1 Cor 13, 3). Foi esse amor que levou Inácio a entregar a sua vida por Cristo como trigo de Deus moído pelos dentes das feras para se tornar pão limpo de Cristo. Foi o amor de Deus revelado na Paixão do Senhor que levou Paulo a seguir mais de perto Cristo Crucificado através do voto de promover e recordar a memória da paixão do Senhor.
Assim, Inácio e Paulo, naquilo que fizeram não buscaram os lugares de honra e os aplausos humanos. Tudo o que faziam era motivado pelo amor puro e desinteressado que cada dia os levava a desejarem, com mais força, ser um só com Aquele que os ama e a quem amam, um amor que os levava cada dia a desejarem configurar-se cada vez mais ao Senhor Crucificado.
Assim, Inácio e Paulo, naquilo que exteriormente faziam irradiavam o amor que tinham dentro de si e não eram sepulcros escondidos, pessoas que aparentavam ser boas e santas mas cujo interior estava cheio de morte e podridão, como os fariseus de que nos fala o evangelho.
E porque viveram na autenticidade do Amor divino, a todos nós o seu exemplo nos estimula a seguirmos os seus passos. Na verdade, o seu ensinamento não é como o dos doutores da lei que impõem “aos homens fardos insuportáveis e [Eles] nem com um só dedo [tocam] nesses fardos”. Aquilo a que Santo Inácio e S. Paulo da Cruz, com a sua vida e o seu exemplo, nos convidam e ensinam é aquilo que eles próprios viveram: uma vida que por amor se configura totalmente a Cristo Crucificado.
Que este primeiro dia de preparação para a festa de S. Paulo da Cruz, onde fazemos memória do mártir Inácio de Antioquia, nos ajude a perceber que o seguimento e a configuração a Cristo Crucificado não é algo que se reduza à prática de gestos exteriores e formais. Se reduzirmos a nossa vida de fé ao cumprimento de certos preceitos estamos a reduzi-la a muito pouco. Seguir e configurar-se a Cristo Crucificado é obra do amor, amor esse que transforma a minha maneira de pensar e que me leva a actuar de uma maneira concreta. Mais do que nos preocuparmos com aquilo que temos de fazer para mostrar que amamos Deus temos de nos preocupar em ama-lo de verdade. Porque, se verdadeiramente amamos Deus, a nossa vida se transformará e todas as acções que fizermos serão fruto desse amor.
Que Santo Inácio de Antioquia e S. Paulo da Cruz, intercedam por nós ao Senhor!
P. Nuno Ventura Martinsmissionário passionista
