1ª Leitura: Is 49, 3. 5-6 Salmo: Sl 39, 2 e 4ab. 7-8ª. 8b-9. 10-11ab 2ª Leitura: 1 Cor 1, 1-3 Evangelho: Jo 1, 29-34
Já ouvimos falar tanto de Jesus mas será que o conhecemos?
O texto do Evangelho de São João proposto para este II Domingo do Tempo Comum não deixa de ser interpelante. Na verdade, por duas vezes, apresenta João Baptista a dizer acerca de Jesus: “Eu não o conhecia.”
No entanto, tal afirmação de João parece-nos contraditória. Na verdade, João Baptista era primo de Jesus e muito provavelmente os seus pais, Isabel e Zacarias, teriam falado a João de Jesus. Assim sendo, porque razão afirma João Baptista que não conhecia Jesus?
Não nos podemos esquecer que o texto evangélico deste domingo situa-se na introdução do evangelho de João (Jo 1-3) que tem como objectivo responder à questão: quem é Jesus?
É neste contexto que João faz três afirmações sobre a identidade e missão de Jesus: Jesus é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, Jesus é o ungido (Messias) do Espírito; Jesus é o Filho de Deus. Tais afirmações do Baptista não são dirigidas a nenhum auditório específico. Tais afirmações são eternas e destinam-se aos homens de todos os tempos e lugares. Passemos a explicar a profissão do Baptista.
Ao afirmar que Jesus é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo João está a referir-se ao terceiro canto do servo sofredor (Is 53), onde o servo é apresentado como o “cordeiro levado ao matadouro”, e ao cordeiro pascal que se sacrificava todos os anos pela Páscoa e que simbolizava a libertação. Na verdade, não nos podemos esquecer que no evangelho de João a morte de Jesus na cruz é apresentada como o sacrifício do verdadeiro cordeiro pascal.
Assim sendo, a missão de Jesus é a salvação humana. No entanto, tal salvação não se alcançara pela guerra, pelo domínio ou pela força mas pelo sofrimento e pela sua entrega incondicional. Jesus é o salvador aquele que vem tirar, eliminar o pecado. O texto fala de pecado no singular e não no plural. Assim sendo, o texto não se refere aos nossos pecados históricos, às nossas acções erradas. Jesus vem eliminar o pecado que está na origem de todos os pecados históricos. Mais grave que os actos pecaminosos em si é a motivação que nos leva a fazer tal pecado. A motivação que nos leva a praticar os actos pecaminosos é o verdadeiro pecado. Esse pecado é a recusa de Deus, é a recusa da vida com Deus e em Deus, é a recusa de viver no amor a Deus e ao próximo como fonte de felicidade e realização plena.
Assim sendo, Jesus, como filho obediente até a morte de Cruz, vem ensinar-nos a sermos filhos de Deus e a vivermos como filhos de Deus. Jesus vem ensinar-nos a viver numa fidelidade amorosa a Deus e aos irmãos.
A segunda afirmação de João sobre Jesus define-se como o Messias, como o ungido do Espírito Santo. Na verdade, o termo hebraico messias, que em grego se diz Cristo, quer dizer ungido. Jesus é o ungido pelo Espírito Santo, é o Servo do Senhor sobre quem repousa o Espírito de Deus.
Porque é o ungido do Senhor Jesus pode baptizar no Espírito Santo. Baptizar no Espírito Santo significa derramar abundantemente o Espírito de Deus nos nossos corações, este Espírito que sendo derramado nos nossos corações nos permite chamar a Deus Abbá, Papá (cf. Rm 8, 15), e nos ensina a viver como filhos de Deus no amor, na alegria, na paz, na paciência, na longanimidade, na benignidade, na bondade, na mansidão, na fé, na modéstia, na continência e na castidade (cf Gl 5, 22).
Em último lugar João afirma que Jesus é o Filho de Deus. Ao fazer esta afirmação João diz que o ser humano é importante para Deus. “Jesus fez-se homem para que o homem se tornasse Deus” (Sto Agostinho). Apesar do Homem recusar Deus, Deus não abandona o Homem e vem ao seu encontro. A encarnação de Jesus, que celebramos no Natal, é a prova deste amor apaixonado de Deus que procura o Homem e quer caminhar com ele caminhos de vida eterna, caminhos de comunhão com Deus e com os irmãos.
A catequese joanina sobre a identidade de Jesus deve levar-nos a perguntar se nós conhecemos verdadeiramente Jesus. João baptista admite que só conheceu plenamente a missão e a identidade de Jesus com a teofania do baptismo.
Será que conhecemos verdadeiramente Jesus ou só nos limitamos a saber algumas coisas sobre Jesus? É bem diferente saber algumas coisas de conhecer. Saber algumas coisas não me implica, saber algumas coisas reduz-se a puro material informativo. No entanto, conhecer uma pessoa exige relação e relação exige mudança. O conhecimento de Jesus não é informativo. O conhecimento de Jesus é performativo, exige mudança, exige conversão, exige que eu dia a dia me vá configurando com Jesus. Diz a sabedoria popular: diz-me com quem andas que eu dir-te-ei quem és”. Será que o meu conhecimento de Jesus me configura a Jesus, me torna verdadeiramente cristão?
Ser cristão, acreditar em Jesus não se limita a ter a informação de que Jesus é o cordeiro de Deus, que Jesus é o ungido de Deus e que Jesus é o filho de Deus. Ser cristão é conhecer verdadeiramente na sua vida e na sua existência concreta que Jesus é o redentor, o messias e o filho de Deus.
Assim sendo, compreendemos a razão que Paulo, na segunda leitura deste domingo, exorta os cristãos de Corinto a serem fiéis à sua vocação à santidade. Como nos recorda o Vaticano II todos os cristãos pelo seu baptismo são chamados à santidade (Lg 40). A etimologia hebraica de santidade relaciona-se com a ideia de separação. Ser santo é ser separado mas não uma separação do mundo e dos pecadores. Ser santo é ser totalmente separado de si próprio até ao ponto de se entregar totalmente aos irmãos. É por isso que Deus é o Santo por excelência. Deus é separado de Si mesmo e dos privilégios da sua divindade ao ponto de por nós se fazer homem para que nós possamos participar da sua condição divina. Como nos diz o apóstolo Paulo “Cristo fez-se pobre para nos enriquecer na sua pobreza” (2 Cor).
O apelo divino à santidade não é mais um de tantos apelos que se escutam no nosso mundo. É o apelo por excelência, é o objectivo da nossa vida. No entanto, somos conscientes que este apelo não é um apelo que se ouça e que depois se cumpre. A santidade não é uma conquista humana mas é dom de Deus que o Homem está chamado a acolher e a cooperar. A santidade é algo que nasce da graça e da paz de Deus com que Paulo saúda as suas comunidades e com a qual nós iniciamos as nossas celebrações quase que a dizer que no início da nossa vida e da nossa realização pessoal está a graça, o amor maternal, e a paz de Deus.
Já ouvimos falar tanto de Jesus mas será que o conhecemos? Conhecer Jesus não é saber coisas sobre Ele mas viver como ele viveu. Assim sendo, ser santo é algo que nasce do conhecimento e da relação com Jesus. Que a nossa participação na eucaristia e a nossa meditação da Palavra de Deus nos configurem com Jesus. Que o nosso ámen existencial demonstre que Jesus é o verdadeiro cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, o ungido do Senhor e o filho de Deus.
P. Nuno Ventura Martins
missionário passionista
