1ª Leitura: Is 8, 23b – 9, 3 (9, 1-4); Salmo: Sl 26, 1. 4. 13-14; 2ª Leitura: 1 Cor 1, 10-13. 17; Evangelho: Mt 4, 12-23 ou Mt 4, 12-17.
“Arrependei-vos, porque o reino de Deus está próximo.”
A liturgia da Palavra deste Domingo inicia-se com um texto de Isaías que convida à esperança. Este texto foi escrito, muito provavelmente, no final do VIII século antes de Cristo. Nesta época, o império Assírio domina e oprime o Reino do Norte ao qual pertencem as regiões de Zabulão e de Neftali. Por sua vez, no reino do Sul, o Rei, ignorando os avisos do profeta, começa a fazer alianças contra a Assíria que terão como consequência a devastação do reino do sul e o pagamento de altos impostos à Assíria. É nesta situação tenebrosa de domínio estrangeiro que o profeta oferece o oráculo messiânico que constitui a primeira leitura deste domingo e que se baseia na esperança de que Deus intervirá na história oferecendo ao seu povo paz e liberdade.
Segundo o profeta a intervenção de Deus na nossa história operará uma revolução. De uma situação negativa (trevas) passar-se-á a uma situação positiva marcada pela luz. Tal intervenção de Deus produzirá a alegria no coração de todo o povo. Se continuássemos a ler este texto de Isaías encontraríamos a figura do menino que nascerá para nós. Assim sendo, podemos dizer que este texto é um oráculo messiânico que fala da intervenção de Deus neste mundo pelo seu Messias.
É nesta linha que o evangelho deste domingo começa com a citação deste texto de Isaías. Uma das características do evangelista Mateus é citar no seu evangelho vários textos veterotestamentários para mostrar que Jesus é o verdadeiro Messias esperado pelo povo de Deus.
O evangelho deste domingo é um marco importante na vida de Jesus. Na verdade, é com este texto que Jesus inicia a sua actividade missionária. Logo no início da actividade missionária de Jesus, Mateus oferece-nos um dado curioso. O texto diz-nos que o lugar em que Jesus começou a pregar a boa nova do reino foi em Cafarnaum, no território de Neftali e de Zabulão. Este dado é importante porque nesta região havia uma grande promiscuidade entre judeus e pagãos. Ao colocar o início da vida pública de Jesus numa terra onde existiam pagãos, Mateus quer afirmar que o Evangelho tem como destinatários todos os povos da terra.
“Arrependei-vos, porque o reino de Deus está próximo”. Foi esta a mensagem que Jesus começou a anunciar. Não era uma mensagem nova mas que trazia em si uma grande novidade. Não é uma mensagem nova, porque já o Baptista convidava o povo a arrepender-se. No entanto, traz consigo uma grande novidade, porque Jesus afirma que o reino de Deus está próximo, está vizinho.
Detenhamo-nos um pouco nesta pregação inicial de Jesus: “Arrependei-vos, porque o reino de Deus está próximo”. O que é o reino de Deus? Porque motivo é necessário o arrependimento e a conversão?
Ao longo de todo o Novo Testamento, a expressão reino de Deus ou reino dos céus, como prefere Mateus, aparece mais de 100 Vezes. No entanto, as interpretações que se dão à essa expressão nem sempre são concordes.
A expressão reino de Deus traduz a ideia de realeza de Deus de acordo com a forma que o Antigo Testamento interpretou o Reino de Yahweh. Quando usamos esta expressão, a nossa atenção não pode só recair no termo reino mas acima de tudo deve centrar-se em Yahweh. O tetragrama sagrado indica uma experiência de salvação e um caminho que exige uma dupla fidelidade. O nome Yahweh mostra que Deus é compreensível na medida em que se torna um parceiro no processo de conversão e de libertação. O nome Yahweh não é só um nome de Deus para o distinguir dos deuses estrangeiros, não é só uma tradução de uso próprio e de tipo identificativo. Yahweh é o Deus que caminha com o homem e que o homem experimenta como um Deus que inicia um processo de libertação. A referência a este nome exodal, ou seja, que produz um êxodo e não nos deixa ficar presos na nossa realidade, na expressão reino de Deus relaciona o Reino ao êxodo e ao processo de libertação. Assim sendo, a expressão reino de Deus quer indicar a ideia de um Deus que vem para salvar o seu povo.
É daqui que nasce a exigência da conversão, de orientarmos a nossa vida para Deus que caminha ao nosso encontro para nos dar a salvação. A conversão que se pede é a conversão aos valores do Reino que o prefácio da festa de Cristo Rei define como “um reino eterno e universal: reino de verdade e de vida, reino de santidade e de graça, reino de justiça, de amor e de paz”. O reino não se impõe pela força e pela violência mas pela nossa aceitação dos seus valores, pela nossa aceitação da realeza de Jesus. O anúncio do reino de Deus não é uma confirmação das nossas expectativas mas provoca em nós uma dissonância, uma dissemelhança, uma modificação do modo de ver a realidade. O reino traz consigo novidade e conversão. O Deus que Jesus anuncia não é familiar às nossas expectativas. É por isto que o anúncio do reino deve provocar em nós uma mudança, uma conversão.
É neste contexto que Mateus apresenta o chamamento dos primeiros discípulos do Reino. Este texto é uma verdadeira catequese de como deve ser o nosso seguimento de Jesus nesta dinâmica do reino.
Numa cultura em que eram os discípulos que escolhiam os seus mestres, o chamamento dos primeiros discípulos mostra-nos que a vocação é um dom. Não fomos nós que escolhemos Jesus foi Ele quem nos escolheu e chamou. No início de qualquer vocação cristã está o amor de Deus que elege e chama.
O chamamento também não deixa de ser interpelante: “Vinde e segui-me e farei de vós pescadores de homens”. Esta é uma expressão que não encontra paralelos na literatura de então e que indica à missão dos discípulos de Jesus: ser pescadores de homens. O ofício humano de pescadores é assumido e transcendido. Desde o início do seu chamamento fica claro que a missão dos discípulos de Jesus deve consistir na salvação dos homens. Na verdade, o mar era na cultura semita o lugar dos demónios, daquilo que conduz à e impede a felicidade. Assim sendo, os discípulos têm como missão retirar os homens destas águas que impedem os homens de serem felizes e pessoas realizadas.
Outro dos ensinamentos importantes deste texto sobre o seguimento é o desprendimento. Na verdade, ante o chamamento de Jesus os discípulos deixaram as suas famílias e os seus empregos. Deixaram tudo aquilo que lhes dava segurança económica e social pelo reino. Fizeram uma opção radical pelo reino e pelos seus valores.
Optando pelo Reino os discípulos seguem Jesus na sua missão evangelizadora. Na verdade, Jesus “depois começou a percorrer toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, proclamando o Evangelho do reino e curando todas as doenças e enfermidades entre o povo”. Anúncio do Evangelho e promoção humana é a maneira de evangelizar de Jesus e de todos os seus discípulos.
No entanto, nem sempre aqueles que seguem Jesus são fiéis aos valores do reino. Prova disto é a segunda leitura da carta aos coríntios que nos narra um episódio de divisão, conflito e rivalidade na comunidade de Coríntio. Ante está situação Paulo apela ao baptismo e ao Senhor crucificado para mostrar que a Igreja é uma verdadeira família de irmãos que recebe a sua vida de Cristo e que deve viver em unidade e comunhão. Esta mensagem de Paulo deve ser mais interpelante para nós nesta semana (18-25 de Janeiro) em que rezamos pela unidade de todos os Cristãos.
“Arrependei-vos e acreditai no evangelho.” É esta a mensagem que há tantos anos ressoa e que cada vez que a escutamos devia ser como a primeira. É este o nosso programa de vida e de acção.
P. Nuno Ventura Martins
missionário passionista
