
1ª Leitura: Ez 37, 12-14; Salmo: Sl 129, 1-2. 3-4ab. 4c-6. 7-8; 2ª Leitura: Rom 8, 8-11; Evangelho: Jo 11, 1-45.
A liturgia deste V Domingo da Quaresma centra a nossa atenção na passagem da morte à Vida. Numa sociedade que tem medo de falar e de pensar na morte, a liturgia deste domingo coloca-nos diante da morte para dizer que, apesar de ser um momento do ciclo normal da vida física do homem, a morte não é a palavra definitiva. Na verdade, “Para vós Senhor a vida não se acaba apenas se transforma” (Prefácio dos Defuntos I).
No entanto, todos nós sentimos angústia ante a morte, não só ante a morte física mas também ante tantas situações de morte que podemos viver. Exemplo de uma situação de morte é o contexto em que foi escrita a primeira leitura deste domingo. O profeta Ezequiel foi um dos deportados para a Babilónia e foi aí, no meio dos seus compatriotas desterrados, que desempenhou a sua função. A pregação de Ezequiel desenvolve-se em duas fases. Na primeira fase, o profeta muito realisticamente diz que o exílio não será uma coisa temporária e que ainda hão-de chegar à Babilónia mais deportados. No entanto, na segunda fase da sua pregação, a sua mensagem é uma mensagem de esperança. Na verdade, ante a prova do exílio o povo começou a desconfiar da bondade e da misericórdia de Deus. É neste contexto que Ezequiel afirma que Deus não abandonou o seu povo, Deus continua a caminhar com o seu povo e, pelo seu Espírito, há-de ressuscitar o seu povo da situação de morte e de desespero em que se encontra. O profeta, através do episódio da visão dos ossos calcinados que pela acção do Espírito voltam à vida, anuncia que Deus vai tirar o seu povo do túmulo em que se encontra e ressuscitá-lo. Assim sendo, Deus promete ao seu povo o regresso à sua terra e a efusão do seu Espírito. A efusão do Espírito evoca-nos o episódio de Gn 2, 7 e indicando-nos que tal efusão abre portas a uma nova criação. Assim sendo, este texto fala de uma ressurreição moral, um renascimento da valentia e da esperança. Apesar das aparências, Deus não nos abandona nas nossas situações de desespero. Nessas situações nós não estamos sozinhos. Deus está connosco e oferece-nos o seu Espírito, vai transformando o nosso desespero em esperança, operando a nova criação pelo seu Espírito.
Outra morte e outra vida apresenta-nos a segunda leitura deste domingo retirada da carta do apóstolo Paulo aos Romanos, obra-prima da teologia Paulina. No capítulo VIII, Paulo fala do Espírito Santo, o verdadeiro protagonista da vida nova que Deus quer oferecer ao homem e que este deve aceitar e desenvolver. Neste contexto, o apóstolo Paulo apresenta-nos uma das suas mais famosas antíteses, ou seja, a antítese entre o viver segundo a carne e viver segundo o Espírito. Viver segundo a carne significa viver no pecado. Como diz Paulo na Carta aos Gálatas, “as obras da carne estão à vista. São estas: fornicação, impureza, devassidão, idolatria, feitiçaria, inimizades, contenda, ciúme, fúrias, ambições, discórdias, partidarismos, invejas, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a estas” (Gl 5, 19-21). Por sua vez, a vida segundo o Espírito é a vida dos filhos de Deus e, como diz Paulo na mesma Carta aos Gálatas, caracteriza-se pelos seguintes frutos “amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, auto-domínio (Gl 5, 22-23).” Foi no baptismo que nós optamos pela vida segundo o Espírito, por Deus e pelas suas propostas. Assim sendo, a ressurreição de que fala esta leitura é a ressurreição baptismal em que morremos para o pecado e nascemos para a vida da graça. A festa da Páscoa que estamos a preparar está directamente relacionada com o baptismo. Ela é uma boa oportunidade para que também nós morramos ao pecado e ressuscitemos para a vida nova segundo o Espírito. Pelo baptismo nós identificamo-nos com Jesus Cristo e recebemos o mesmo Espírito que ressuscitou Jesus. Ante esta contestação, é o próprio apostolo Paulo que nos dá a conclusão: “E se o Espírito d’Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou Cristo Jesus de entre os mortos, também dará vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós.”
Bela catequese sobre a ressurreição dos mortos é o sétimo e último sinal de João que o evangelho deste domingo nos apresenta, ou seja, o episódio da ressurreição de Lázaro. Uma bela catequese sobre Jesus, Ressurreição e Vida. Através da expectativa que cria, das frases susceptíveis a dupla interpretação e através das oposições o evangelista João, nesta página do seu evangelho, pretende mostrar que Jesus é a Ressurreição e a Vida.
A ressurreição de Lázaro não é uma ressurreição para a vida glória, para a vida eterna. Trata-se simplesmente de um voltar à vida. No entanto, a ressurreição de Lazaro é uma prefiguração da ressurreição de Cristo e da ressurreição dos mortos. Na verdade, o episódio da ressurreição de Lázaro pode ser considerado a introdução à narrativa, de João, da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. Na verdade, a decisão de matar Jesus surge em consequência deste episódio da ressurreição de Lázaro (Jo 11, 47-50). O dom da vida a Lázaro é o que provocará a morte e a sua glorificação de Jesus. Os símbolos dos três dias, do sepulcro e dos panos também nos remetem para a Páscoa de Cristo.
Este texto evangélico apresenta-nos uma família peculiar, composta só por irmãos, sem pai e sem mãe, que vive o triste episódio familiar da morte. Além disto, esta família é uma família que conhece e é conhecida por Jesus, que ama e é amada por Jesus. Esta família de irmãos é símbolo da comunidade cristã, que se depara com a morte de um dos seus membros. Na verdade, o Senhor Ressuscitado apresenta a sua comunidade como uma comunidade de irmãos (Jo 20, 17).
Jesus, ao saber da doença mortal que afectava um dos membros desta família, não se põe imediatamente a caminho. Espera algum tempo e depois dirige-se ao encontro desta família encontrando-a já desolada e a chorar a morte do seu irmão. Jesus solidariza-se com esta família. Diz-nos o texto dos evangelhos que “Jesus, ao vê-la chorar e vendo chorar também os judeus que vinham com ela, comoveu-se profundamente e perturbou-se”. Na verdade, este texto mete em relevo o afecto de Jesus para com os seus amigos e a sua comoção diante da morte.
No entanto, podemos com toda a licitude interrogar-nos: Porque é que Jesus não se colocou logo ao caminho de Betânia e impediu que o seu amigo morresse? Com estes sentimentos e quase em tom de reprovação Marta e Maria dirigem-se a Jesus e dizem: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido”
Perguntas de ontem, de hoje e de sempre que o evangelista, na sobriedade das suas palavras, parece responder. Jesus não veio para alterar o ciclo normal da vida física do Homem, libertando-o da morte biológica. No entanto, o Senhor Ressuscitado oferece ao Homem a vida eterna, oferece um novo sentido à morte biológica.
Apesar de Marta e Maria se terem dirigido a Jesus da mesma maneira representam duas atitudes diferentes. Marta é aquela reprova Jesus mas que também acredita que Jesus pode fazer algo: “Mas sei que, mesmo agora, tudo o que pedires a Deus, Deus To concederá”. Ante esta situação, Jesus inicia uma catequese onde, passo a passo, mostra a Marta que Ele é a Ressurreição e a Vida. Jesus apela à fé de Marta. “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá. Acreditas nisto?” Se num primeiro tempo Marta pensa que Jesus se referia à concepção farisaica da ressurreição no final dos tempos, passo a passo, percebe que Jesus não está a falar da ressurreição do último dia. Para os amigos de Jesus a morte física é apenas uma passagem desta vida para a vida eterna. Jesus não evita a morte física, a morte física é uma passagem para a vida definitiva e verdadeira.
Por seu lado, Maria representa os paralisados pela dor e sem esperança. Convidada por Marta, ela vai ao encontro de Jesus. Na verdade, ela sabe que só em Jesus pode encontrar solução para os seus problemas. No entanto, as palavras, que dirige a Jesus são só de repreensão. Ela não se abre à fé como a sua irmã. Ante esta situação, Jesus não diz uma palavra mas vai cumprir um sinal para mostrar que ele é verdadeiramente a ressurreição e a vida.
É neste contexto que, diante do túmulo selado com uma pedra (símbolo da definitividade da morte) e depois de quatro dias da morte de Lázaro (para os judeus a morte é considerada definitiva depois de três dias), Jesus ordena que se retire a pedra do sepulcro e faz uma oração em voz alta. A oração de Jesus é de acção de graças e não directamente de petição. Ao rezar em voz alta Jesus quer atribuir a glória ao Pai e fazer que acreditem na sua missão. Depois, com um grito, como de uma vocação se tratasse, chama Lázaro da morte à vida. A palavra de Jesus é uma palavra criadora, é uma palavra que dá vida.
“A Ressurreição dos mortos é a fé dos cristãos: é por crer nela que somos cristãos” (Tertuliano). Que a cele bração deste domingo de Lázaro reforce a nossa fé na ressurreição. Fomos criados por Deus por Amor e é o Amor de Deus que sustenta cada momento da nossa vida. Amar é dizer tu não morrerás. Deus que nos criou por amor quer-nos como seus interlocutores para sempre, porque o amor de Deus pela sua criatura é eterno.
P. Nuno Ventura Martins
missionário passionista
