Seminário da Santa Cruz dos Missionários Passionistas
Avenida Fortunato Meneres, 47
Santa Maria da Feira, Portugal
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Ano A – V Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Is 58, 7-10;
Salmo: Sl 111, 4-5. 6-7. 8ª e 9;
2ª Leitura: 1 Cor 2, 1-5;
Evangelho: Mt 5, 13-16

O sal do anúncio de Cristo Crucificado e a luz das boas obras.

O evangelho deste Domingo apresenta-nos duas parábolas sobre a missão dos discípulos de Jesus neste mundo. São muitos aqueles que seguem Jesus, são muitos aqueles que ficam seduzidos com o anúncio e as palavras de Jesus. Na verdade, poucas linhas antes do texto evangélico deste Domingo, o evangelista diz que: “seguiam Jesus grandes multidões, vindas da Galileia, da Decápole, de Jerusalém, da Judeia e de além do Jordão” (Mt 4, 16).

Como se comporta Jesus ao ver estas multidões que o seguem? Responde-nos o mesmo Mateus no versículo seguinte, que inaugura o primeiro dos cinco grandes discursos de Jesus. “Ao ver a multidão, Jesus subiu a um monte. Depois de se ter sentado, os discípulos aproximaram-se dele. Então tomou a palavra e começou a ensiná-los” (Mt 5, 1-2). É este o contexto do evangelho deste domingo: Jesus está a dar ao novo Povo de Deus a nova Aliança. Assim como Deus, no monte Sinai e por meio de Moisés, deu a Lei ao Povo da Antiga Aliança, assim Jesus também num monte dá ao novo povo de Deus a Nova Lei.

Também nós fomos atraídos por Jesus. Também nós queremos seguir Jesus, mas seguir Jesus não é uma coisa sem consequências. Os discípulos de Jesus, aqueles que querem seguir Jesus na sua vida, tem de agir de uma forma concreta, tem um estilo de vida que lhes é próprio. Depois de Jesus ter apresentado as Bem-aventuranças, como o código de conduta para os seus discípulos (evangelho do domingo passado), ele afirma que a presença dos seus discípulos neste mundo tem de ser sal da terra e luz do mundo. Mas o que significa ser sal da terra e luz do mundo?

Sal e luz, duas imagens retiradas da nossa vida quotidiana que ilustram bem a forma de estar dos discípulos de Cristo no mundo.

O sal é um elemento indispensável na gastronomia. Na verdade, é o sal que dá o sabor às comidas. No entanto, além desta função, o sal, nas culturas antigas, também tinha a função de conservar os alimentos.

A luz é uma realidade importante na nossa vida. Talvez por isso ela seja o símbolo de algo positivo em contraposição com as trevas. A juntar a este facto, está o facto da luz chamar a nossa atenção. Se estivermos num ambiente escuro e se acenderem uma luz a nossa reacção é olharmos para essa luz. Além destas funções, a luz também é o que nos possibilita uma melhor visão. Só com a luz é que nós somos capazes de ver.

Assim sendo, e tendo em conta estas funções do sal e da luz o que é que Jesus quer dizer ao afirmar “Vós sois o sal da terra … vós sois a luz do mundo”? A primeira e a segunda leitura deste domingo ajudam-nos a compreender a nossa missão de sal da terra e luz do mundo.

A segunda leitura deste domingo, retirada da primeira carta aos coríntios, continua a apresentar a exortação de Paulo àquela comunidade dividida de Corinto. Na verdade, os coríntios, identificando o cristianismo com uma escola filosófica começaram a formar diversos partidos de acordo com os vários pregadores e relegaram a figura de Cristo para segundo plano.

No entanto, o anúncio do evangelho não tem por fim a glória do pregador mas a glória de Cristo. Assim sendo, Paulo esforça-se por demonstrar aos coríntios que entre os cristãos não há senão um mestre, que é Jesus Cristo, e este crucificado. “Pensei que, entre vós, não devia saber nada senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado”.

A pregação de Paulo tem como centro Cristo Crucificado e não se baseia na sabedoria da linguagem. Ante a partidarização e a divisão dos coríntios Paulo responde com o anúncio de Cristo Crucificado. Na verdade é o anúncio do Senhor Crucificado, que não se baseia na sabedoria da linguagem mas na força de Deus, que é capaz de resolver os problemas da comunidade. É o evangelho da Cruz de Cristo que voltou a dar sabor aquela comunidade e a conservou do perigo das divisões e do escândalo. Também no nosso mundo é o Evangelho da cruz de Cristo que é capaz de dar sabor e preservar a nossa vida.

Anunciar o evangelho da Cruz de Cristo é revelar a verdade sobre Deus e o homem. Na verdade, na cruz de Cristo está exposta aos olhos do homem o gosto pela morte, a violência e o ódio, a humilhação que habita o homem. Ao olhar para a Cruz o Homem descobre a doença mortal que padece. No entanto, a Cruz de Cristo revela-nos outra coisa. Na cruz de Cristo temos bem visível o amor de Deus que nos perdoa e que é capaz de, com a sua graça, subverter a nossa violência e romper com o círculo da violência. Na verdade, Deus não respondeu à violência humana com violência mas com o dom do seu perdão e do seu amor que se manifestam na Cruz de Cristo. E é isto que causa em nós um choque. A morte de Cristo na cruz é eloquente: a eloquência de um amor silencioso capaz de subverter a violência e de nos acolher com o seu perdão.

Se a segunda leitura nos apresentou caminhos de ser sal da terra, a primeira leitura, retirada do livro de Isaías, diz-nos o que é ser luz do mundo. As suas palavras são eloquentes de mais e necessitam de pouco comentário: “Se tirares do meio de ti a opressão, os gestos de ameaça e as palavras ofensivas, se deres do teu pão ao faminto e matares a fome ao indigente, a tua luz brilhará na escuridão.”

Ante uma situação em que os israelitas reduziam o seu culto a simples práticas externas, com as quais pretendiam que Deus os escutasse, o profeta adverte o povo que não bastam praticas rituais vazias de significado interior.

A nossa acção cultual tem de ser acompanhada de uma vida coerente com essa prática. Quem acredita age em função daquilo que acredita. A nossa vida tem que demonstrar em quem acreditamos. Nós acreditamos em Jesus e Jesus, no evangelho de João, denomina-se a Luz do mundo (cf. Jo 8, 12). Assim sendo, os discípulos de Jesus têm de ser imagem da luz libertadora e salvadora que é o Senhor Ressuscitado. Assim sendo, o estilo de vida próprio dos discípulos é o estilo de Jesus que “passou fazendo o bem e curando a todos os que eram oprimidos pelo Demónio” (Act 10, 38). Além disto, o próprio Jesus advertiu: “nisto conhecerão todos que sois os meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35). Assim sendo, só vivendo no amor é que seremos luz neste mundo encoberto pelas trevas do ódio e do egoísmo. Só assim seremos luz que ilumina tantas situações de morte e luz que remete para Jesus, a verdadeira luz do mundo.

O sal do anúncio de Cristo Crucificado e a luz das boas obras. É esta a maneira própria dos discípulos de Jesus estarem no mundo. Demos sabor e não deixemos perecer o nosso mundo com o sal do anúncio de Cristo Crucificado. Iluminemos este mundo, marcado pelas trevas do ódio, com a luz do amor salvador de Deus que se revelou em Jesus.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista