Seminário da Santa Cruz dos Missionários Passionistas
Avenida Fortunato Meneres, 47
Santa Maria da Feira, Portugal
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Ano A – XXIV Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Sir 27, 33 – 28, 9;

Salmo: Sl Sal 102, 1-2. 3-4. 9-10. 11-12;
2ª Leitura: Rom 14, 7-8;
Evangelho: Mt 18, 21-35.

Se de verdade pertencemos ao Senhor passemos da vingança ao perdão sem limites!

A liturgia da palavra do XXIV Domingo do Tempo Comum convida-nos a reflectir sobre a realidade do perdão: do perdão dado super-abundantemente por Deus e tantas vezes negado pelo coração mesquinho do homem. Tanto a primeira leitura como o evangelho põe em evidência esta contradição que tantas vezes vivemos. Na verdade, somos pessoas que desejamos e necessitamos do perdão mas que o rejeitamos aos outros.

Não vivemos numa sociedade de homens e mulheres perfeitos, sem erros e sem faltas. Devido à nossa debilidade e, muitas vezes, devido à nossa maldade fazemos o mal e cometemos injustiças. Tais actos não deixam de ter impactos nas relações humanas. No entanto, qual será a atitude correcta diante de quem erra?

Instintivamente possuímos um mecanismo de acção-reacção. Se alguém nos faz alguma coisa de mal, instintivamente sentimos a necessidade de nós vingarmos. Através da nossa vingança queremos “pagar” o mal que nos fizeram e até desejamos que a nossa vingança seja mais dura do que o mal que nos fizeram para assim desencorajarmos os outros de nos prejudicarem. No nosso desejo de querermos sermos “justos” somos mais injustos e produzimos mais violência do que aqueles que nos ofenderam.

Tentando por um pé no travão a este desejo de vingança sem limites, o livro do Êxodo apresenta-nos a famosa lei de talião: “olho por olho, dente por dente, ferida por ferida” (Ex 21, 24). Algumas vezes acusa-se injustamente esta lei de instigar à vingança e à violência. No entanto, não é este o objectivo da lei de talião. A lei de talião é uma tentativa de tornar a vingança mais justa. Na verdade, pela lei de talião dizia-se que a vingança não podia ser superior à ofensa ou ao mal recebido.

No entanto, não há nenhuma vingança que seja justa. E são vários os textos do Antigo Testamento que chegaram a esta conclusão e que dizem que a vingança, o pagar na mesma moeda, não é o caminho a seguir quando somos ofendidos. Um desses textos é a primeira leitura deste domingo. O livro do Eclesiastico é um livro sapiencial que recolhe uma série de exortações às virtudes, de conselhos práticos, de reflexões sobre a história bíblica e de elogios à sabedoria. Neste livro, o autor sagrado mostra que não é a vingança e a violência o caminho da justiça. O caminho da justiça é o perdão. A ira, o rancor e a violência não são caminhos de vida e de felicidade mas de morte, caminhos que nos levam à destruição. O caminho que devemos seguir é o caminho do perdão. Devemos ter a coragem de perdoar. É mais corajoso aquele que perdoa do que aquele que se vinga.

No entanto, muitas vezes pensamos que perdoar alguém é um gesto de cobardia e recusamos o perdão aos nossos irmãos. Recusamos o perdão aos irmãos mas queremos ser perdoados. Recusamos a misericórdia mas queremos que Deus tenha misericórdia de nós e não nos trate segundo os nossos pecados. O autor do livro do Eclesiástico, através de uma pergunta retórica denuncia esta situação: “um homem guarda rancor contra o outro e pede a Deus que o cure? Não tem compaixão do seu semelhante e pede perdão para os seus próprios pecados?”

Também o evangelho deste domingo, através de uma parábola, denúncia a hipocrisia daqueles que querem ser perdoados mas que recusam o perdão. São Mateus, várias vezes no seu evangelho, recorda a relação que existe entre o perdão que Deus nos oferece e o perdão que devemos oferecer aos irmãos. Basta pensarmos na petição que fazemos no Pai-nosso “perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós temos perdoado àqueles que nos tem ofendido”. Podemos dizer que a parábola deste domingo é a ilustração deste ensinamento de Jesus.

Jesus conta esta parábola na sequência de uma pergunta de Pedro: “quantas vezes deverei perdoar a meu irmão? Até sete vezes?” Os rabinos no tempo de Jesus já insistiam na necessidade do perdão para a existência de relações pacíficas. No entanto, o perdão só devia ser concedido aos membros do povo de Israel e só um certo número de vezes. Depois de ter ouvido os ensinamentos de Jesus sobre as exigências da correcção fraterna (evangelho do último domingo), Pedro quer saber quantas vezes deve perdoar. Sete vezes será suficiente? Sendo o numero sete o número da totalidade, Pedro pergunta a Jesus se deve perdoar sempre. No entanto, Jesus diz que não basta perdoar sete vezes. O perdão dos seus discípulos deve ser até “setenta vezes sete”, ou seja, o perdão dos discípulos deve ser infinito, como infinito é o perdão que Deus concede ao homem.

Para ilustrar este ensinamento, Jesus conta a parábola do servo que foi perdoado mas que não perdoou. Um servo devia ao seu senhor dez mil talentos, ou seja, sessenta milhões de denários. Era uma fortuna esta dívida. Na verdade, cada talento de prata vale mais do que mil euros. No entanto, por compaixão e misericórdia o Senhor perdoou a dívida a este servo. Contudo, pouco aprendeu este servo da misericórdia e da compaixão do seu senhor. Na verdade, ao encontrar um dos seus companheiros que lhe devia cem denários, um valor irrisório, foi incapaz de usar de misericórdia. O Senhor deste servo ao tomar conhecimento do sucedido chamou-o e interpela-o: “Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?”

Esta parábola ensina-nos que Deus tem um grande coração e que nos perdoa sempre. Não há nenhum pecado que o amor de Deus não perdoe. No entanto, esta parábola também denuncia uma situação grave que muitas vezes acontece: queremos ser perdoados mas não queremos perdoar. Na verdade, se não somos capazes de perdoar os irmãos é porque sabemos muito pouco da misericórdia divina e ainda não experimentamos totalmente o perdão de Deus.

O evangelista Mateus recorda-nos que o perdão dos discípulos de Jesus deve ser sem medida porque sem medida é a misericórdia de Deus. O perdão que recebemos de Deus exige que seja praticado. Quem é perdoado é capaz de perdoar, aprende a perdoar. Se toda a violência e vingança geram violência e vingança, todo o perdão deve gerar vida.

Num contexto de tentativa reconciliação entre dois grupos rivais também escreve Paulo a segunda leitura desta celebração. No texto que escutamos, Paulo tenta resolver o conflito que existe na comunidade entre os tradicionalistas que defendem o seguimento da tradição dos antigos e os modernistas que dizem que basta a lei do amor. Tentando resolver este problema o Apóstolo Paulo pede que não se desprezem os tradicionalistas e que não se julguem os progressistas. Além disto, recorda uma verdade fundamental: “quer vivamos quer morramos, pertencemos ao Senhor”. Se vivemos para o Senhor, não deveríamos morrer para o nosso egoísmo? Se somos do Senhor, se somos discípulos de Jesus Crucificado não deveriam ser os nossos sentimentos os mesmos de Cristo Jesus que na cruz perdoou os seus algozes?

A nossa pertença a Cristo exige que os nossos valores, sentimentos e atitudes sejam os de Cristo. Pertencer a Cristo exige que nos vamos configurando a Ele, exige que os nossos valores, sentimentos e atitudes sejam os de Cristo. Assim sendo, e se de verdade pertencemos ao Senhor passemos da vingança ao perdão sem limites! Só assim viveremos totalmente o perdão que Deus nos oferece! Só assim seremos testemunhas credíveis do perdão de Deus!

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista