Seminário da Santa Cruz dos Missionários Passionistas
Avenida Fortunato Meneres, 47
Santa Maria da Feira, Portugal
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Ano A – XXIX Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Is 45,1.4-6;
Salmo: Sl 95, 1.3.4-5.7-8.9-10a.c;
2ª Leitura: 1 Tes 1, 1-5b;
Evangelho: Mt 22, 15-21.

A liturgia deste XXIX Domingo do tempo comum convida-nos a reflectir sobre a nossa relação com a sociedade, com a Política (com “P” grande e não com “p” pequeno) e com Deus. Tanto a primeira leitura como o evangelho deste dia nos apresentam várias pistas de reflexão sobre o perfil dos governantes e sobre a participação dos cristãos na vida política. 
O profeta Isaías, na primeira leitura deste domingo, recorda-nos que Deus vai actuando na nossa história através de homens que são seus instrumentos de salvação no nosso mundo.   
O povo está no exílio da Babilónia. No entanto, o rei da Pérsia, Ciro, começa a alcançar uma série de vitórias militares que lhe dão um grande prestígio. A própria Babilónia, onde o povo de Deus estava exilado, será conquistada por Ciro e o povo vai recebe-lo como um libertador. 
No entanto, esta situação levanta um forte problema teológico. Na verdade, as vitórias de Ciro fazem com que o povo de Deus sonhe com a libertação. No entanto, o facto desta libertação vir de um rei estrangeiro e não de um membro do povo de Deus levanta algumas dúvidas teológicas: será que o Deus de Israel se esqueceu do seu povo? Será que o deus dos persas é mais poderoso do que o Deus de Israel? E se Ciro libertar o povo do domínio da Babilónia a quem se deve atribuir a vitória: ao Deus de Israel ou a Marduk, deus dos persas?
O Dêutero-Isaías, profeta que exerceu a sua missão entre os exilados na Babilónia, tenta responder a estas questões na leitura deste domingo. Este profeta não tem dúvidas que o Deus de Israel é o verdadeiro libertador do povo de Deus. Ciro é um ungido, um escolhido de Deus. Por amor de Jacob e Israel, Deus escolheu e chamou Ciro para desempenhar uma missão, no âmbito político e militar, em favor do povo de Deus. 
A leitura deste dia ensina-nos que Deus de Israel é o Deus libertador e o Senhor da história. No entanto, ele actua na história através de homens concretos. No entanto, a leitura deste dia também nos ensina que as escolhas de Deus podem-nos surpreender. Na verdade, Ciro não era um membro do Povo de Deus, era um pagão. Assim sendo, fica claro que o mais importante não é a força e as capacidades do intermediário mas a força de Deus que actua nos seus escolhidos. 
Está página do livro de Isaías também é uma forte provocação para todos aqueles que exercem alguma responsabilidade política. Os líderes da comunidade, numa perspectiva de fé, devem ver a sua missão como uma missão confiada por Deus para o bem comum da sociedade. Assim sendo, os líderes políticos devem manter uma atitude orante para assim descobrirem qual é a vontade e qual é o projecto de Deus. Só assim é que podem ser instrumentos de Deus neste mundo.
Dos nossos deveres cívicos e das nossas responsabilidades no âmbito da comunidade política e social também nos fala o evangelho deste domingo.
O Evangelho deste domingo narra-nos uma controvérsia de Jesus com os fariseus e os partidários de Herodes. Na verdade, Mateus, depois de ter narrado as três parábolas de Jesus que ilustravam a recusa dos líderes judeus em aceitar a pessoa e a mensagem de Jesus, relata três controvérsias de Jesus com os fariseus. Estas controvérsias são provocadas pelos fariseus que procuram encontrar motivos para acusar Jesus em tribunal. Na verdade, Jesus já entrou triunfalmente em Jerusalém e o confronto entre Jesus e os líderes judaicos que o irá conduzir à sua paixão e morte na cruz está a aumentar. 
A primeira controvérsia de Jesus com os fariseus e com os herodianos, que o evangelho de hoje narra, relaciona-se com a licitude ou ilicitude de pagar os impostos ao Imperador de Roma que dominava aquela terra. Esta era uma questão muito delicada. Na verdade, se Jesus disse-se que não era lícito pagar o imposto a Roma seria acusado de revolucionário e de inimigo do império romano. Por outro lado se defendesse que se devia pagar o imposto a Roma seria acusado de estar a colaborar com o império Romano que estava a usurpar um poder que só pertencia a Deus. Com efeito, a questão da licitude ou ilicitude de pagar o imposto a Roma era uma questão quente no tempo de Jesus. Se os partidários e os saduceus concordavam com o pagamento do tributo a Roma e se os fariseus apesar de não concordar com o pagamento do imposto tinham uma posição intermédia e não violenta, o mesmo não podemos dizer dos movimentos revolucionários. Tais movimentos consideravam o imperador um usurpador e por isso não pagavam o imposto. 
Ante uma pergunta sobre um tema tão complicado, Jesus dá uma resposta sábia e eleva a conversa a um nível mais profundo.
Jesus começa por pedir que lhe mostrem a moeda com a qual se pagava o imposto. Ao ver a moeda Jesus nota que há uma imagem cunhada na moeda e pergunta de quem era essa imagem. À interpelação de Jesus os seus interlocutores respondem que aquela era a imagem do imperador César. Em seguida, Jesus profere a sua sentença: “dai a César o que é de César e a Deus e o que é de Deus”. 
Ajuda-nos a compreender melhor esta afirmação a narração da criação do homem do livro do Génesis: “Deus disse: façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança” (Gn 1, 26-27). 
Assim sendo, a moeda que tem a imagem de César deve ser dada a César, mas o homem que foi criado à imagem e semelhança de Deus é pertença de Deus. O homem deve reconhecer Deus como o seu único Senhor e só a Ele é que deve entregar-se.
Com a sua resposta Jesus afirma que os seus seguidores devem ser bons cidadãos e cumprir as suas obrigações políticas e sociais. Não há um bom cristão que não seja um bom cidadão. Quem é cristão tem de ser um bom cidadão e cumprir com as suas obrigações sociais e políticas. O cristão não pode demitir-se dos seus direitos e deveres para com a sociedade. O cristão não pode compactuar com sistemas de corrupção e com fugas aos impostos. O cristão tem de contribuir para o bem comum. 
No entanto, o cristão não se limita a ser um bom cidadão. Na verdade, o cristão é aquele que é criado à imagem e semelhança de Deus, é aquele que porta em si a imagem de Deus, é aquele que é pertença de Deus. Assim sendo, o cristão deve-se reconhecer como pertença do Senhor. Fomos criados à imagem e semelhança de Deus e só seremos pessoas verdadeiramente felizes e realizadas na medida em que vivemos em comunhão com Deus.
Assim sendo, o homem deve entregar a sua vida e a sua existência a Deus. Só assim é que podemos ser felizes. No entanto, não são poucos aqueles que se esquecendo que foram criados à imagem e semelhança de Deus entregam a sua vida não a Deus mas a vários ídolos: o clube de futebol, a sua ideologia, o ter, o prazer, o poder, entre outros. 
No entanto, quando uma pessoa entrega a sua vida não a Deus mas a estes ídolos vê que a sua vida não é marcada pela felicidade mas que entra num esquema de escravidão e de infelicidade. Só seremos pessoas verdadeiramente felizes e realizadas quando entregarmos a nossa vida, toda a nossa existência a Deus. Criados por Deus e à imagem de Deus só seremos felizes se construirmos a nossa vida com Deus e em Deus. 
Que a celebração deste Domingo nos recorde e nos estimule a cumprir as nossas obrigações cívicas e reavive em nós a consciência de que fomos criados à imagem e semelhança de Deus e nos estimule a dar a nossa vida e a nossa existência a Deus.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista