Seminário da Santa Cruz dos Missionários Passionistas
Avenida Fortunato Meneres, 47
Santa Maria da Feira, Portugal
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Ano A – XXV Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Is 55, 6-9;
Salmo: Sl 144, 2-3. 8-9. 17-18;
2ª Leitura: Filip 1, 20c-24. 27a;
Evangelho: Mt 20, 1-16a.

 

A primeira leitura deste domingo deixa-nos bem claro que muitas vezes a nossa maneira de pensar e de agir é bem diferente da maneira de pensar e de agir de Deus. “Os meus pensamentos não são os vossos, nem os vossos caminhos são os meus”, diz-nos Deus por intermédio do Deutero-Isaías.

Ilustra-nos esta distância entre a maneira de ser misericordiosa, gratuita e generosa de Deus e a maneira de ser egoísta, mesquinha e interesseira do Homem o evangelho deste domingo.

São Mateus apresenta-nos mais uma parábola do Reino, mais uma parábola que ilustra como deve ser este mundo que Deus sonha e quer oferecer a todos os homens.

Partindo de um exemplo da situação social e económica concreta dos seus tempos, partindo de um exemplo que vários dos seus ouvintes experimentavam, Jesus deseja: mostrar o amor misericordioso de Deus que a todos chama; desmontar uma imagem de Deus como um patrão e mostrar que na comunidade dos discípulos não há primazias procedentes da antiguidade.

Jesus mostra o amor gratuito e insistente de Deus. Na verdade, a parábola mostra-nos que o senhor da vinha não se limita a chamar uma só vez trabalhadores para a sua vinha. Desde o início do dia até ao fim da jornada, o senhor da vinha contrata por cinco vezes operários. Deus chama a todos os momentos para trabalhar na sua vinha. É interessante a imagem da vinha que se usa nesta parábola. Na verdade, no Antigo testamento a imagem da vinha é uma das imagens do povo de Deus. Assim sendo, Deus não desiste de convidar pessoas para o seu povo, Deus está sempre a lançar o convite. Mas como qualquer convite, o convite de Deus pode ser aceite ou recusado. No entanto, ele não desiste de convidar e chamar as pessoas à comunhão com Ele. Chama durante todo o dia: de manhã, a meio da manhã, ao meio dia, às três da tarde e ao anoitecer. É o Deus bondoso que não cansa de nos dar a hipótese da salvação, da vida feliz e abundante. No entanto, a resposta que aqueles que foram contratados ao final da tarde não pode deixar-nos de interpelar. À pergunta do senhor que queria saber porque ainda não tinham ido trabalhar eles respondem: “Ninguém nos contratou”. Esta resposta é uma forte interpelação a todos nós que já trabalhamos na vinha do Senhor, a todos nós que fazemos parte do povo de Deus. Na verdade, quantos homens e mulheres do nosso mundo ainda não fazem parte do povo de Deus, ainda não descobriram o amor de Deus porque não houve ninguém que os convidasse? A resposta deste último grupo de trabalhadores a ser contratado é uma forte interpelação à dimensão missionária da Igreja. Não estarei eu a privar os meus irmãos daquilo que é mais importante devido à minha falta de testemunho ou devido ao meu contra-testemunho?

No entanto, esta parábola de Jesus não se limita a mostrar esta vontade de Deus que todos os homens se salvem. A parábola de Jesus que escutamos este domingo também nos ajuda a purificar a imagem que temos de Deus. Na verdade, muitas vezes construímos um deus à nossa imagem e semelhança, um deus que incarna a nossa maneira de pensar e os nossos critérios de acção. As vezes fazemos uma imagem de deus que está nas antípodas da imagem de Deus que Jesus nos veio revelar. Jesus revelou-nos a imagem de um Deus próximo do Homem, de um Deus que vem à procura do Homem, de um Deus que chama e acolhe o pecador e que faz tudo para o libertar da escravidão do pecado. No entanto, muitas vezes a imagem que temos de deus é a imagem de um patrão que como qualquer patrão não nos ama mas que nos recompensa unicamente por aquilo que fazemos. Se trabalhamos muito, se não cometemos erros receberemos um bom salário. Pelo contrário, se cometemos erros e se começamos a trabalhar mais tarde recebemos menos e até corremos o risco de sermos despedidos. Na lógica do deus patrão o amor, a bondade e o dom não tem lugar. Na lógica do deus patrão há o medo, há à lógica da recompensa. Jesus veio destruir a imagem do deus patrão que tantas vezes e tantos de nós ainda temos. Deus não nos paga segundo as nossas obras. Antes de qualquer coisa que possamos fazer está o amor de Deus. O amor de Deus não se merece ou deixa-se de se merecer. O amor de Deus é Dom que tem de ser aceite. Só depois de termos aceite este amor é que podemos começa agir, é que somos impelidos a agir em conformidade com o amor de Deus. Que pensamos nós deste amor misericordioso de Deus que a todos, quer aos trabalhadores de primeira quer aos trabalhadores da última hora, dá por igual um talento? Não será que muitas vezes acusamos Deus de ser injusto como acusaram o senhor os trabalhadores de primeira hora? Se a imagem que temos de Deus é a imagem de um patrão que nos “paga” segundo as nossas acções diremos que o senhor foi injusto por pagar a todos os trabalhadores da mesma forma. Mas se a imagem que temos de Deus é a imagem de um Pai cheio de bondade que quer que todos se salvem e que a todos oferece a salvação não podemos dizer que a atitude que o senhor da parábola teve foi injusta. O que conta para Deus não é o número de anos que estamos ao seu serviço mas a resposta afirmativa que damos ao seu convite de salvação.

Neste sentido, a parábola de Jesus também nos pede uma atitude concreta na nossa vida de igreja. Se Deus a todos ama e a todos oferece a salvação, na vida eclesial não pode nem deve haver descriminações. Aqueles que há mais tempo fazem parte da comunidade não se podem sentir com mais direitos do que aqueles que só chegaram recentemente. Se aqueles que estão há mais tempo na Igreja sentem que tem mais direito à salvação do que aqueles que chegaram ou re-chegaram há pouco tempo pouco percebem da lógica do Deus de Jesus Cristo. Aqueles que estão há mais tempo na comunidade não tem mais privilégios ou direitos à salvação que os outros que só chegaram depois. Aqueles que há mais tempo estão na igreja só tem mais que agradecer porque há mais tempo aceitaram o amor de Deus na sua vida e há mais tempo vivem a felicidade dos seguidores de Jesus.

Como estamos nós longe da maneira de pensar e de agir de Deus. É uma grande verdade aquilo que escutávamos na leitura do livro de Isaías: “Os meus pensamentos não são os vossos, nem os vossos caminhos são os meus”. No entanto, ante esta constatação, Deus, por intermédio do Deutero-Isaias diz-nos o que devemos fazer. São quatro os verbos que ele utiliza e que são um bom projecto de vida para todos nós: procura o Senhor, invoca o Senhor, deixa o caminho ímpio e os pensamentos perversos e converte-te ao Senhor. E tudo isto devemos fazer porque Deus é um Deus compassivo e misericordioso. Temos de procurar o Senhor que já anda à nossa procura para nos salvar; temos que o invocar, temos que lhe pedir ajuda porque Ele está junto de nós, Ele caminha connosco; temos de deixar tantos caminhos e tantos pensamentos que estão tão longe de Deus, enfim temos de nos converter ao Senhor, temos de voltar a Deus que é excesso de dom, misericórdia, perdão e generosidade. Temos de nos converter, ou seja, temos de mudar a nossa imagem de Deus, passar de um deus patrão a um Deus compassivo e misericordiosos, e temos de mudar tantos dos nossos comportamentos.

Que o exemplo do Apostolo Paulo que escutávamos na segunda leitura aos cristãos de Filipos nos sirva de estimulo. Como Paulo, saibamos renunciar aos nossos interesses pessoais e as nossas vontades mesquinhas e aceitemos a vontade de Deus, a lógica e o projecto de Deus na nossa vida.

Ouçamos o seu apelo “procurai somente viver de maneira digna do evangelho de Cristo”. Que a nossa forma de pensar e a nossa maneira de pensar não seja um contra testemunho do Deus anunciado por Jesus Cristo. Convertamo-nos à lógica de Deus, a lógica do amor e da bondade que a todos quer salvar e que a todos por igual dá o seu amor.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista