Seminário da Santa Cruz dos Missionários Passionistas
Avenida Fortunato Meneres, 47
Santa Maria da Feira, Portugal
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Ano A – XXXII Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Sab 6, 12-16; 
Salmo: Sl 62, 2. 3-4. 5-6. 7-8;
2ª Leitura: 1 Tes 4, 13-18 ou 1 Tes 4, 13-14;
Evangelho: Mt 25, 1-13.

A poucos domingos de terminar o Ano litúrgico, a liturgia da Palavra de hoje convida-nos a reflectir sobre as realidades últimas, ou seja, sobre a parusia, sobre a última vinda de Cristo. O Senhor que nos criou, no final dos tempos, na parusia, na última vinda de Cristo em glória, instaurará todas as coisas em Cristo. Fará surgir uma nova criação onde a morte, a dor e o pecado não têm lugar (cf. 2 Pe 3; Ap 21). E está fé de que toda a história está ordenada para Cristo professamo-la todos os domingos no credo niceno-constantinopolitano (“de novo há-de vir na sua glória”) e fazemo-la súplica na oração eucarística (“anunciamos, Senhor, a vossa morte, proclamamos a vossa ressurreição, vinde Senhor Jesus”).

No entanto, pode acontecer que as nossas comunidades, a exemplo da comunidade de Tessalónica tenham algumas dúvidas sobre a parusia, sobre a última vinda de Cristo. Na verdade, a comunidade de Tessalónica, apesar de ser uma comunidade fervorosa e entusiasta, é uma comunidade que possui muitas dúvidas de fé. Com efeito, Paulo enquanto evangelizava esta comunidade viu-se obrigado a fugir, devido a um motim organizado pelos judeus. Assim sendo, e informado por Timóteo que a comunidade de Tessalónica vivia com entusiasmo a sua fé mas que possuía muitas dúvidas sobre a fé, em especial no que se referia à última vinda de Cristo porque não sabiam qual seria a sorte dos cristãos que morreram antes da última vinda de Cristo, decide escrever está carta que muito provavelmente é o primeiro escrito do Novo Testamento. Não nos podemos esquecer que as primeiras comunidades cristãs acreditavam que a parusia estava eminente.

Paulo, nesta carta, afirma claramente a fé cristã na parusia, ou seja, no regresso de Jesus no final dos tempos. No entanto, Paulo não oferece uma descrição detalhada desta última vinda de Cristo porque sabe que esta, apesar de ser uma verdade de fé, é uma realidade que não se deixa capturar pela nossa linguagem humana. No entanto, e recorrendo à linguagem apocalíptica, Paulo diz alguma coisa sobre a última vinda de Cristo. Paulo através de símbolos e de imagens afirma que os crentes que morreram antes da vinda de Cristo ressuscitarão primeiro e que depois, em companhia dos vivos, irão ao encontro do Senhor na glória. 
Assim sendo, a intenção de Paulo mais do que pintar um retrato sobre a última vinda de Cristo é reafirmar a fé na última vinda do Senhor e tranquilizar os cristãos de Tessalónica.

Se o apóstolo Paulo nos assegura a verdade da parusia, da última vinda de Cristo, o evangelho deste domingo diz-nos como devemos agir enquanto aguardamos a última vinda de Cristo.

O evangelho deste domingo situa-se no chamado discurso escatológico de Mateus (Mt 24-25). Neste discurso, o evangelista Mateus, através de um discurso, de três parábolas e de uma descrição do juízo final, pretende reacender a fé de muitos cristãos que se tinham instalado num comodismo inoperante. Na verdade, muitos cristãos ao verem que a vinda do Senhor tardava começaram a cair na rotina, no comodismo e no facilitismo deixando assim desaparecer o entusiasmo e empenho inicial da sua adesão a Cristo. Para responder a este objectivo, o evangelista Mateus oferece-nos esta parábola de Jesus sobre o Reino de Deus.

Nesta parábola Jesus compara o reino de Deus àquilo que de mais festivo existe na cultura judaica, ou seja, o casamento. Através desta parábola Jesus mostra como o povo de Deus (10 virgens) aguarda a vinda do Messias (noivo). O reino de Deus é algo de festivo, é como uma boda de casamento. Não nos podemos esquecer que o amor matrimonial é um dos símbolos abundantemente utilizados no Antigo Testamento para descrever a relação de Deus com o seu povo. No entanto, nem todo o Povo está preparado para a vinda do Messias (virgens imprudentes). Assim sendo, a parábola é um convite a que todos se preparem para não perderem a oportunidade de entrar na grande festa do Reino de Deus.

No entanto, esta mesma parábola também pode ser vista de outro ponto de vista. Esta parábola também se pode referir à segunda vinda de Cristo e ser uma exortação a todos os cristãos a estarem preparados para esse momento do qual não se sabe o dia nem a hora. Todos nós como as virgens esperamos que o Senhor venha. No entanto, tal espera deve ser uma espera activa. Quem espera deve agir em função daquilo que espera. Tal espera deve ser feita com as lâmpadas acesas e com o azeite de reserva nas almotolias.

Na verdade, quer as lâmpadas quer o azeite possuem nos textos da Sagrada Escritura um belo significado. Entre outras coisas, as lâmpadas são um símbolo do testemunho cristão. Na verdade, é o próprio Jesus que diz “Vós sois a luz do mundo…. não se acende a candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas sim em cima do candelabro, e assim alumia a todos os que estão em casa. Assim brilhe a vossa luz diante dos homens.” (Mt 5, 14-15). Os cristãos, na sua peregrinação pelo mundo, devem ser candeias onde arde a chama que é Cristo. Por sua vez, o azeite é visto, entre outras coisas, pela tradição judaica, como as boas obras que fazem brilhar a luz da fé.

Assim sendo, a nossa espera da última vinda de Cristo deve ser feita com a luz da fé, luz essa que vem do azeite das boas obras. Temos de ter na nossa almotolia sempre o azeite das boas obras da fé, para que sempre, mesmo nas noites frias e tenebrosas da nossa vida, as nossas candeias estejam acesas e assim nos possam aquecer e iluminar.

Assim sendo, Jesus nesta parábola diz-nos que devemos estar preparados para a sua vinda que pode acontecer quando menos esperamos. Todos nós apesar de todas as dificuldades, do perigo da rotina e do comodismo devemos ter uma fé vigilante e activa que aguarde em jubilosa esperança a última vinda de Cristo Salvador. Devemos estar preparados, devemos viver cada momento como se fosse o último. Estar preparado é acolher a palavra de Deus, deixar-se transformar por ela e viver em fidelidade à proposta de Jesus. E tudo isto deve ser feito sempre com o primeiro entusiasmo. Não podemos deixar que nem as dificuldades, nem o comodismo, nem a rotina deixem enfraquecer a chama da fé que em nós brilha e nos leve a deixar de produzir o azeite da das boas obras. A certeza que o Senhor vem novamente nos ajude a manter o nosso amor e entusiasmo primeiro e nos leve a estar preparados, pelo compromisso com os valores de Jesus, todos os dias. Só na fidelidade aos valores do Reino e não seguindo a onda dos valores mundanos que se nos oferecem (o dinheiro, a vaidade, a aparência, o êxito, o mandar, o trinfar, …) é que seremos felizes, é que teremos acesso ao banquete nupcial do Reino.

Temos de pedir ao Senhor a sua sabedoria para que ela nos ajude a compreender e a viver tudo isto. E como vimos no livro da Sabedoria, da qual é retirada a primeira leitura, o Senhor dá a sua sabedoria a todos aqueles que a procuram. Mais ainda, a sabedoria “antecipa-se e dá-se a conhecer aos que a desejam, quem a busca… há-de encontra-la já sentada a sua porta”. Só esta sabedoria é que é a chave da felicidade, só esta sabedoria é o segredo de uma vida feliz. E esta sabedoria outra coisa não é do que a lei de Deus. Na verdade, é a fidelidade a lei de Deus o caminho da felicidade, o caminho para ultrapassarmos as várias dificuldades que todos os dias se nos apresentam.

Que a celebração deste domingo reavive em nós a fé na última vinda de Jesus e que esta fé nos leve a viver com mais empenho o nosso caminho de seguidores de Jesus. Que todos nós saibamos aguardar em jubilosa e activa esperança a última vinda de Cristo salvador. No entanto, não podemos cair no perigo de tantos e tantos milenarismos. O Senhor virá, não sabemos quando, mas essa vinda não nos pode aterrorizar. Ele vem para salvar, para criar os novos céus e a nova terra e não para destruir.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista