
1ª Leitura: Act 4, 32-35; Salmo: Sl 117, 2-4. 16ab-18. 22-24; 2ª Leitura: 1 Jo 5, 1-6; Evangelho: Jo 20, 19-31.
Vivendo a oitava da Páscoa, como se do mesmo dia de Páscoa se tratasse, porque há acontecimentos cuja celebração não se pode reduzir a um só dia mas a toda uma vida, reunimo-nos para celebrarmos o Domingo, o primeiro dia da semana em que Nosso Senhor Jesus Cristo ressuscitou dos mortos.
No entanto, neste Domingo luminoso da Páscoa, as trevas que envolveram a sexta-feira santa ainda parecem envolver o nosso coração. Era assim, atemorizados e paralisados, que estavam os discípulos reunidos no cenáculo naquela tarde de Páscoa. Nessa manhã, Maria Madalena já os tinha desassossegado com o estranho anúncio da ressurreição. No entanto, tal anúncio não foi suficiente para vencer medos e eliminar barreiras. Os discípulos estavam em casa e com as portas fechadas. O medo, inimigo sempre novo e sempre antigo, os paralisava fisicamente mas acima tirava-lhes a esperança. Aí estavam os discípulos pensando que a morte é mais forte que a vida, que o ódio é mais forte que o amor, que a violência é mais forte que a ternura.
E é nesta situação de desespero, de paralisia, de medo que se apresenta Jesus ressuscitado no seu meio. O Ressuscitado consegue ser mais forte que o medo, porque, estando os discípulos com as portas trancadas com medo dos judeus, mesmo assim consegue entrar e colocar-se no meio deles. Não é num sítio qualquer que se coloca, é exactamente no meio deles, no centro. Jesus ressuscitado está no centro, é Ele que deve ser o centro da nossa vida e da nossa existência. É Ele o centro de toda a comunidade cristã, centro do qual tudo parte e centro ao qual tudo converge.
A mensagem e os sinais com que se apresenta não são palavras e gestos ao acaso. A sua saudação é uma saudação de paz, aquela paz messiânica prometida, aquela paz que não é conquista dos homens mas dom de Deus. Aquela paz que não é só ausência de guerra mas harmonia, tranquilidade, serenidade e vida plena.
Dada e repetida a saudação de paz mostrou-lhes as suas chagas. O Ressuscitado é o Crucificado. As suas chagas, dolorosas mas também gloriosas, são os sinais do seu amor e da sua doação total. A permanência de tais chagas é a manifestação que o seu amor é eterno e permanece para sempre.
Em seguida, o Ressuscitado torna os seus discípulos participantes da sua missão. Assim como o Pai o enviou para anunciar a boa nova e instaurar o reino de Deus, assim os discípulos deverão ir pelo mundo anunciando a ressurreição do Senhor e antecipando no aqui e no agora da história o reino de Deus.
Para desempenharem esta missão, o Ressuscitado sopra sobre os seus discípulos. O verbo utilizado é o mesmo que em Gn 2, 7. Trata-se de uma nova criação. Deus insufla aos homens o seu alento divino. Deus dá aos homens o dom do Seu Espírito. O gesto de soprar recorda a criação do homem (Gn 2, 7) e a ressurreição dos mortos (Ez 37). É como a criação do homem novo, dotado do alento do Espírito, em virtude da ressurreição de Jesus. Nesta nova criação o perdão e a reconciliação devem ocupar o lugar central.
E tudo isto acontece no dia primeiro, aquele dia um que é o começo de algo novo, aquele dia primeiro que se prolonga por toda a eternidade e que nós somos convidados a entrar nele hoje mesmo e não amanhã. Quem se encontra com o Senhor ressuscitado começa uma nova existência. O encontro com o ressuscitado não nos deixa indiferentes. Na verdade, o ressuscitado é a prova que a vida é mais forte que a morte, que o amor vence o ódio, que a ternura triunfa sobre a violência e que a esperança dissipa toda a não esperança.
Clara ilustração da mudança de vida ocorrida nos discípulos e de cada crente é o sumário do livro dos Actos que escutávamos na primeira deste Domingo. Numa época em que entusiasmo inicial vai diminuindo e que a monotonia e a divisão vão surgindo na comunidade, o evangelista Lucas, no livro dos Actos dos Apóstolos, recorda o fundamental da existência cristã e apresenta um modelo de comunidade ideal.
Neste sumário, Lucas refere que “os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus com grande poder e gozavam todos de grande simpatia”. De tal afirmação podemos concluir que a pregação dos apóstolos era uma pregação convincente e eficaz. No entanto, não nos podemos deixar de perguntar donde surgia esta eficácia, não podemos deixar de nos perguntar em que consistia esta pregação com poder. A resposta a estas interrogações pode ser encontrada na mesma leitura do livro dos Actos dos Apóstolos. Na verdade, aí se nos mostra como a comunidade primitiva era uma comunidade com um só coração e uma só alma que partilhava os seus bens. Assim sendo, podemos concluir que o forte testemunho dado pelos discípulos era a vida da comunidade, uma vida baseada em sentimentos de unidade e de partilha.
Esta leitura do livro dos Actos é uma clara exemplificação do princípio que escutávamos na segunda leitura deste dia retirada da primeira epístola de São João: “Nós sabemos que amamos a Deus quando amamos os filhos de Deus”. São João no trecho desta carta, escrita para as comunidades ameaçadas pelas heresias pré-gnósticas, coloca lado a lado o amor a Deus e aos irmãos. Quem diz que ama a Deus deve amar o Seu Filho Unigénito, Jesus Cristo, e os irmãos que também são filhos de Deus. Quem ama a Deus, aquele que gera, deve também amar todos aqueles que foram gerados por Deus, os irmãos. Fica assim bem explícito que os cristãos não podem separar o amor a Deus e o amor aos irmãos. Ninguém pode dizer que ama a Deus se não amar o seu irmão e ninguém pode amar verdadeiramente o irmão se não amar a Deus porque “nós sabemos que amamos os filhos de Deus quando amamos a Deus e cumprimos os seus mandamentos”.
Torna-se assim necessário, também para nós, homens e mulheres dos inícios deste terceiro milénio, fazermos a experiência do Senhor Ressuscitado que dá origem a uma nova humanidade. No entanto, como podemos hoje encontrar-nos com o Senhor Ressuscitado? Será que de nossos lábios não saí muitas vezes a mesma resposta de Tomé ao anúncio da aparição do Ressuscitado pelos discípulos: “Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado, não acreditarei”. Deixemos que a segunda parte do evangelho deste dia nos ajude e nos indique o caminho do encontro com o Ressuscitado que permite a criação de uma nova humanidade.
Com o episódio de Tomé, o evangelista João quer responder às interrogações e às objecções que os membros da sua comunidade levantam. Como resposta a estas interrogações, João apresenta o exemplo de Tomé que teve dificuldade em acreditar na ressurreição do Senhor e diz-nos que é na comunidade que podemos fazer a experiência do Ressuscitado. É ao Domingo, dia em que a comunidade se reúne parar celebrar a Páscoa, que o Ressuscitado se torna presente na palavra proclamada e no sacramento do altar. Quem, como Tomé, está fora da comunidade não faz a experiência do encontro com o Ressuscitado. No entanto, todos aqueles que em comunidade se reúnem para celebrar a eucaristia encontram-se com o Senhor Ressuscitado e vêem a sua vida transformada.
A possibilidade de nos encontrarmos com o Senhor Ressuscitado é-nos oferecida em cada eucaristia, em cada Domingo. Não faltemos ao banquete eucarístico, perene encontro com o Senhor Ressuscitado, porque se há encontros que transformam a nossa vida e nos levam a construir uma nova humanidade este é-o por antonomásia.
P. Nuno Ventura Martins
missionário passionista
