
1ª Leitura: Deut 4, 32-34. 39-40;
Salmo: Sl 32, 4-5. 6 e 9. 18-19. 20 e 22;
2ª Leitura: Rom 8, 14-17;
Evangelho: Mc 28, 16-20.
Começa a liturgia da Palavra desta Festa da Santíssima Trindade com o convite de Moisés ao povo no a contemplar a sua história e aí descobrir a acção de Deus em benefício do Povo.
A primeira leitura deste dia pertence ao primeiro dos três discursos recolhidos no livro do Deuteronómio que Moisés, ao pressentir a sua morte, dirige, como testamento espiritual, aos hebreus antes da sua entrada na terra prometida. Depois de, na primeira parte deste discurso, resumir a história do povo de Deus desde o monte Sinai até ao monte Pisga, Moisés, na segunda parte do seu primeiro discurso, à qual pertence a primeira leitura deste dia, apresenta as exigências da aliança que Deus estabeleceu com o seu povo. Assim sendo, Moisés antes de apresentar as exigências da aliança convida o povo a olhar para a sua história e aí descobrir a presença actuante de Deus que ama e salva o seu povo. Na verdade, se o povo contemplar a sua história descobre o empenho de Deus em criar comunhão com o seu povo.
Desta descoberta devem nascer consequências concretas para a vida do povo de Deus. Moisés, na primeira leitura deste dia, apresenta duas consequências que devem nascer da descoberta da solicitude de Deus pelo seu povo. Em primeiro lugar, o povo deve reconhecer o Senhor como o único Deus verdadeiro: “Considera hoje e medita no teu coração que o Senhor é o único Deus, no alto dos céus e cá em baixo na terra e não há outro”. Além disto, o povo como caminho de felicidade deve seguir a Lei de Deus: “Cumprirás as suas leis e mandamentos, que hoje te prescrevo, para seres feliz, tu e os teus filhos depois de ti”. Reconhecer como único Deus ao Senhor e seguir os seus mandamentos é a resposta que o povo deve dar a este Deus que se revelou na história do Povo como o Deus salvador que acompanha as vicissitudes do seu povo.
Assim sendo, uma das primeiras notas que a Liturgia da Palavra da Festa deste dia nos apresenta é a confissão do Deus único, do monoteísmo. Nós acreditamos num só Deus, como professamos todos os domingos: “Creio em um só Deus”. No entanto, a nossa vida concreta muitas vezes desmente a profissão de fé correcta que fazemos quando rezamos o Credo. Na verdade, muitas vezes professamos que acreditamos num único Deus mas na nossa vida seguimos e servimos a muitos ídolos: dinheiro, prazer, a beleza, …. Professar a fé num só Deus exige que renunciemos a tantos ídolos que nos seduzem e nos querem vender propostas de pseuda felicidade. Como dizia Moisés, na primeira leitura deste dia, só confessando como nosso único Deus o Senhor e cumprindo os seus mandamentos é que podemos ser felizes.
No entanto, o monoteísmo Cristão, a profissão de fé num único Deus, é diferente do monoteísmo judaico e islâmico. Apesar de todos professarem a sua fé no Deus único, os cristãos sabem que Deus não é alguém solitário, sabem que o Deus cristão é um só Deus em três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. O evangelho de São Mateus, que é proclamado nesta festa, apresenta-nos uma fórmula clara da fé trinitária: “em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo”.
Os últimos cinco versículos do evangelho de São Mateus, que foram proclamados neste dia constituem um texto de grande densidade trinitária, cristológica e eclesiológica.
A cena passa-se depois da Ressurreição de Jesus num monte da Galileia. A Galileia, terra de encontro de muitos povos e culturas, foi onde Jesus viveu, começou a pregar a Boa-Nova do Reino e chamou os seus discípulos. O monte é o local por excelência onde Deus se revela.
Depois de se ter apresentado aos seus discípulos e de estes o terem reconhecido como Senhor e adorado, o Senhor Ressuscitado, afirmando a sua plena autoridade recebida de Deus, revela aos seus discípulos a sua autoridade e investe-os na sua missão. Os discípulos são enviados a ensinar todas as nações a fazerem aquilo que Jesus ensinou e a baptiza-las no nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo.
Os discípulos são enviados a todo o mundo e não só a Israel. Se a missão terrena de Jesus se viu limitada, pelo tempo e pelo espaço, a missão dos discípulos deve acabar com todo o particularismo e com todas as fronteiras.
A actividade dos discípulos é a de introduzir o homem, mediante o baptismo, no mistério do Deus trinitário e de ensinar a cumprir tudo quanto Jesus fez. Os discípulos são enviados a ensinar não para fazerem seus discípulos mas discípulos de Jesus.
Inicia-se o tempo da igreja. É neste tempo que temos de cumprir a nossa missão de evangelização. No entanto, temos a certeza que não estamos sozinhos, Jesus, o Emanuel, o Deus connosco estará sempre connosco. Na verdade, é esta a grande mensagem que Mateus nos quer transmitir no seu evangelho. A revelação do nome Jesus como Emanuel, no início do evangelho, e a promessa de estar sempre connosco, no final do evangelho, mostra que Deus está sempre connosco nas nossas fatigas de cada dia.
Assim sendo, vemos como no Evangelho deste dia aparece uma das fórmulas da fé no Deus trinitário, ou seja, do único Deus em três pessoas, mais claras do Novo Testamento. No entanto, como podemos compreender melhor este mistério trinitário, este mistério de um Só Deus em três pessoas? Partindo da definição que São João nos oferece de Deus, “Deus é amor” (1 Jo 4, 16), e usando a analogia da caridade de Santo Agostinho podemos dizer que a Trindade é constituída por três: o Amante, o Amado e o Amor recebido e dado, ou seja, o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
O Pai é a fonte do amor. É Ele que nos ama desde sempre e entregou o seu Filho à morte por todos nós. É o Pai que começa sempre amar e não precisa de nenhum motivo para isso. “Deus não nos ama porque somos bons e bonitos; Deus torna-nos bons e belos porque nos ama” (Lutero). O amor do Pai, gratuito e infindável, é o que nos torna capazes de amar. É Ele que nos contagia o seu amor.
Se o Pai é o eterno Amante, o Filho é o eterno Amado, aquele que desde sempre se deixou amar. O Filho mostra-nos que não só a gratuidade é divina mas também a gratidão, o deixar-se amar. O Filho é o acolhimento puro, é aquele que desde sempre disse sim ao amor do Pai. Não basta amar, é preciso deixar-se amar. Só seremos imagem do Filho na medida em que sabemos acolher os outros. Na verdade, quando não se acolhe o outro, não se acolhe Deus.
O Espírito é o vínculo do amor que une o Amante e o Amado. É por isso que quando recebemos o Espírito somos capazes de nos unir a Deus e aos irmãos. O Espírito é o êxtase de Deus. O Espírito não só une o Amante e o Amado. É o Espírito que leva Deus a sair de si mesmo. O Espírito é a liberdade e o dom do amor divino. É por isto que quando abrimos o nosso coração ao Espírito somos impelidos à missão porque não podemos guardar só par nós o dom do amor com que somos amados. E é neste eterno evento de amor que tem lugar a unidade divina, o recíproco inabitar-se das três pessoas no amor.
Celebramos a festa da Santíssima Trindade depois de termos celebrado o Mistério Pascal. No mistério Pascal, na história cruz e ressurreição de Jesus manifesta-se-nos a Santíssima Trindade. Seguindo a interpelação de Moisés, contemplemos o Mistério Pascal que é a nossa história e descubramos o Deus Amor, o Deus uno-trino e mais uma vez professemos a nossa fé nele, uma profissão que não se reduz a algo teórico mas que exige o “Amen vitae”, o Ámen da vida (Bruno Forte). Na verdade, pelo Baptismo no nome da Trindade nós tornamo-nos participantes da natureza Divina, Filhos de Deus, membros de Cristo e templos do Espirito Santo. Como nos recorda o apóstolo Paulo, na segunda leitura deste dia, nós recebemos o «Espirito de adopção filial, pelo qual exclamamos: ‘Abba’, Pai [e que] dá testemunho … de que somos filhos de Deus. Se somos filhos, também somos herdeiros, herdeiros de Deus e herdeiros com Cristo”.
Depois de termos contemplado o mistério trinitário, com renovado vigor e entusiasmo, professemos a nossa fé em Deus que é Pai e Filho e Espírito Santo.
P. Nuno Ventura Martins
missionário passionista
