Seminário da Santa Cruz dos Missionários Passionistas
Avenida Fortunato Meneres, 47
Santa Maria da Feira, Portugal
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Ano B – XXIX Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Is 53, 10-11;
Salmo: Sl 32, 4-5. 18-19. 20 e 22;
2ª Leitura: Hebr 4, 14-16;
Evangelho: Mc 10, 35-45 ou Mc 10, 42-45.


A liturgia da Palavra deste XXIX Domingo do Tempo Comum coloca-nos diante de uma tentação que o próprio Jesus teve de ultrapassar (Cf. Mt 4, 8-10) e que os discípulos de todos os tempos também estão chamados, com a ajuda de Deus, a superar. Refiro-me a tentação do poder, uma das mais subtis e devastadoras. Na verdade, nada impede mais de reconhecer o rosto de Cristo servidor na Igreja do que uma busca desmedida de poder, de influências e de protagonismo. Não deixa de ser sintomático que D. António Couto, Bispo de Lamego, que se encontra em Roma a participar no sínodo sobre “A nova evangelização para a transmissão da fé cristã” tenha deixado aos padres sinodais a seguinte questão: “por que será que os Santos se esforçaram tanto, e com tanta alegria, por ser pobres e humildes, e nós nos esforçamos tanto, e com tristeza (Mt 19,22; Mc 10,22; Lc 18,23), por ser ricos e importantes?” 

No entanto, a tentação do poder não é algo que só seduza os discípulos de hoje. Na verdade, nem os próprios Apóstolos, apesar da constante catequese que Jesus lhes ministra, se viram privados desta tentação, como nos demonstra o evangelho deste domingo. Jesus caminha em direcção ao monte calvário onde vai “dar a vida pela redenção de todos”. Enquanto caminha, Jesus por três vezes anuncia aos discípulos a sua Paixão e forma-os nos valores do Reino. Na verdade, o caminho que Jesus percorre com os seus discípulos mais que um mero caminho geográfico é um caminho formativo e espiritual onde os discípulos são confrontados com os valores e as exigências do Reino e convidados a deixarem a sua excessiva maneira humana de pensar. 

No entanto, os discípulos ante estes ensinamentos de Jesus “estavam espantados, e os que seguiam estavam cheios de medo” (Mc 10, 32). Espantados e cheios de medo, porque os ensinamentos de Jesus contrariam as suas expectativas. Eles querem um reino que passe pelo poder, pela glória e pelo triunfo e Jesus afirma que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida pela redenção de todos”. Jesus mostra aos seus discípulos que o seu caminho será o caminho do Servo Sofredor de que nos falava a primeira leitura deste domingo. Na verdade, os cristãos, na imagem do Servo Sofredor de Isaías, encontraram uma chave de litura da vida e morte de Jesus. A personagem misteriosa do Servo de Yahwéh que desempenha a sua missão através do seu sofrimento, sofrimento esse que possui um valor redentor e expiatório, ou seja, que é capaz de libertar os homens do pecado e que no fim “terá uma descendência duradoira, viverá longos dias, e a obra do Senhor prosperará em suas mãos” é uma figura de Jesus Cristo no mistério da sua Paixão, Morte e Ressurreição.

No entanto, os discípulos de Jesus têm dificuldades em aceitar este caminho messiânico de Jesus. As suas expectativas são outras como demonstra a exigência que Tiago e João fazem a Jesus: “Concede-nos que, na tua glória, nos sentemos um a tua direita e outro à tua esquerda”. Estes dois irmãos têm uma concepção política do messianismo de Jesus e por isso exigem que Jesus, quando triunfar e ocupar o seu trono, lhes conceda os dois primeiros lugares de honra e de poder tratando-os assim como favoritos. 

Ante tal exigência Jesus responde: “Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que Eu vou beber e receber o baptismo com que Eu vou ser baptizado?” Na verdade, no que dizem os irmãos estão dois erros graves. O primeiro relaciona-se com a forma como pedem e o segundo relaciona-se com aquilo que pedem. O primeiro erro no pedido dos discípulos está no facto de se apresentarem diante de Jesus reivindicando direitos. Os discípulos não pedem respeitosamente mas reivindicam algo que pensam ter direito. O que pedem não é uma súplica mas a exigência de uma ambição de que se julgam merecedores por serem seguidores de Cristo. E nada mais longínquo da gratuidade do seguimento está este cálculo interesseiro. Os discípulos devem seguir Jesus com gratuidade e não fazendo contas e exigências do que podem ganhar com isso. Os discípulos devem beber o mesmo cálice que Jesus, ou seja, partilhar o mesmo destino de Jesus de vida entregue e receber o mesmo baptismo que Jesus, ou seja, participar no seu mistério pascal mas não com uma atitude interesseira e mercantilista. Na verdade, a salvação, a vida plena, não é uma conquista humana mas um dom de Deus. Introduzir a lógica comercial na nossa relação com Deus é um forte perigo em que podemos cair. A salvação é um dom e não uma conquista e por isso acolhe-se e não se exige. 

O segundo erro do pedido dos dois irmãos relaciona-se com o conteúdo do pedido. Jesus ensina-nos que devemos pedir que se cumpra a vontade de Deus (cf. Mc 14, 36) e aquilo que os discípulos pedem/exigem é que se cumpra a sua vontade pessoal, os seus sonhos de poder e de grandeza. Não pedem segundo a vontade de Deus, pedem segundo a lógica do mundo e por isso não pedem bem. 

Diz-nos o evangelho que este pedido provocou indignação no grupo dos discípulos: “Os outros dez, ouvindo isto, começaram a indignar-se contra Tiago e João”. Os outros dez indignaram-se com Tiago e João não porque estejam convencidos que eles pediram um a coisa má mas porque ficaram com ciúmes, porque também eles desejavam os primeiros lugares, também eles desejavam o poder. Sempre que se procura o poder, aquilo que aparece é a divisão e a inveja. Nada de mais terrível e destruidor pode haver na Igreja do que a busca de poder: “cada vez que o discípulo se coloca do lado da opressão e do poder é como se traísse o seu mestre, vendendo-o a quem mata e humilha. Cada vez que o discípulo, que desempenha um cargo ou uma responsabilidade, se transforma num príncipe orgulhoso e egoísta, destrói a Igreja de Deus reduzindo-a a uma organização sociopolítica. Cada vez que a comunidade cristã se deixa tentar pela força, pela fascinação do poder, pelo triunfo da estrutura é como se se convertesse em pagã” (Cardeal Gianfranco Ravasi). 

É por isto que Jesus se apressa a chamar os doze até si e a corrigir-lhes. Jesus é mais forte que a divisão da tentação do poder e consegue reunir novamente os doze e começa a ensinar-lhes que o modelo que os discípulos devem seguir não são os chefes do mundo que não servem os outros mas que se servem dos outros dominando-os e subjugando-os para verem satisfeitos os seus desejos mesquinhas e egoístas de poder e de glória. O modelo que os discípulos devem seguir é o do próprio Cristo que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de todos”. Assim como Cristo, por amor e fidelidade a Deus e aos irmãos, viveu amando e servindo, assim os discípulos de Cristo devem traduzir o seu amor a Deus e ao próximo em atitudes concretas de serviço humilde e desinteressado.

No entanto, que ninguém desespere. Todos sabemos como é frequente e humana a tentação do poder que tantas vezes nos invade o coração. Apesar das nossas falhas e limitações, como nos recordava a segunda leitura deste dia da epístola aos hebreus, “vamos cheios de confiança ao trono da graça, a fim de alcançarmos misericórdia e obtermos a graça de um auxílio oportuno”, porque “nós não temos um sumo-sacerdote incapaz de se compadecer das nossas fraquezas. Pelo contrário, Ele mesmo foi provado em tudo, à nossa semelhança”. O próprio Senhor Jesus enfrentou a tentação do poder quando foi tentado no deserto (Cf. Mt 4, 8-10) mas superou-a e viveu servindo. E agora, Ele está connosco, Ele caminha connosco, com o seu perdão transformador e com o seu auxílio revigorante, para nos ajudar a vencer a tentação do poder e a viver uma vida baseada no serviço. 

Que a celebração deste domingo a todos nos ajude a seguir mais de perto a Cristo que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de todos”.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista