
Salmo: Sl 89, 12-13. 14-15. 16-17;
2ª Leitura: Hebr 4, 12-13;
Evangelho: Mc 10, 17-30 ou Mc 10, 17-27.
A segunda leitura deste XXVIII Domingo do Tempo Comum, retirada da Epístola aos Hebreus, deste escrito que pretende animar os crentes que começavam a ficar desanimados e a seguir doutrinas contrárias a fé, é um hino a palavra de Deus que Jesus Cristo nos veio anunciar.
O autor sagrado afirma que “a palavra de Deus é viva e eficaz, mais cortante que uma espada de dois gumes… é capaz de discernir os pensamentos e intenções do coração”. A palavra de Deus é apresentada assim não como um conjunto de sons que o homem escuta e que não tem nenhum impacto sobre ele mas como algo que é capaz de o transformar.
Vivemos num mundo onde as palavras pouco valem. As palavras parecem afogar-nos e são-nos apresentadas em todas as dimensões e cores mas, por fim, concluímos que não passam de palavras. À medida que foram aumentando em número, as palavras foram perdendo o seu valor. Actualmente, o principal valor das palavras parece ser o informativo: dizem o que fazer, como fazer, onde chegar e como chegar.
Infelizmente, muitas vezes ou quase sempre, ouvimos a Palavra de Deus como uma palavra que simplesmente nos informa. Como a maior parte de nós já ouviu várias vezes a Palavra de Deus, ela poucas vezes nos toca profundamente. Tornou-se demasiado familiar e já não nos surpreende ou comove. Escutamo-la como se fosse a mesma palavra de sempre. A tragédia é que assim a palavra de Deus perde, para nós, o seu carácter performativo.
Na verdade, a Palavra de Deus não é uma mera palavra informativa mas uma palavra performativa. Apesar de ser uma Palavra que escutamos muitas vezes, a palavra de Deus é sempre nova e criadora de novidade. Apesar da sua aparente fragilidade, a Palavra de Deus é uma força decisiva, capaz de nos transformar. A Palavra de Deus é sempre sacramental. Falar e criar em hebraico é a mesma coisa. Para Deus falar é criar. A palavra de Deus pretende conduzir-nos à presença de Deus e transformar o nosso coração e a nossa mente.
Além disto, a Palavra de Deus também julga as acções do homem. Na verdade, ao entrar no nosso coração, a palavra de Deus confronta-se com os desejos, intenções e valores do homem e revela a verdade do homem. Ao escutarmos a Palavra de Deus somos convidados a fazer um sério exame de consciência. A Palavra de Deus revela a nossa verdade e convida-nos à mudança.
Depois de termos reflectido sobre o valor performativo da Palavra de Deus já podemos aproximarmo-nos, de uma maneira mais adequada, do texto evangélico deste dia que é uma catequese de Jesus aos discípulos sobre as exigências do reino de Deus, enquanto caminha para Jerusalém.
Este texto é bem conhecido de todos. São várias as vezes em que nos cruzamos com ele. No entanto, de tão habituados que estamos este texto deixou de nos tocar. Ouvir esta palavra tornou-se uma rotina e já não é capaz de criar em nós aquele suave abanão que nos desperta.
De tão conhecido que é, mal ouvimos as primeiras palavras, dizemos logo que se trata do episódio do jovem rico. No entanto, dizemos uma coisa que não é verdade. O texto fala de alguém em geral e não de um jovem em particular. Um homem sem nome, um homem que sou eu e que és tu. Pois neste texto fala-se de algo central na vida de cada ser humano, fala-se da pergunta fundamental que todos os homens mais cedo ou mais tarde se colocam: Que hei-de fazer para ter a vida eterna? Como posso ser feliz? Como posso chegar à verdadeira qualidade de vida?
Assim sendo, vemos que este homem apesar de não ser apresentado directamente como um jovem encarna em si o que é ser jovem: alguém que olhando o mundo por primeira vez deixa-se fascinar e vivendo com alegria o dom da vida recebida tenta fazer algo de útil por este mundo e chegar a verdadeira felicidade. Ser Jovem é abrir-se à descoberta da vida e do mundo que nos é colocado como dom e tarefa.
Também o homem que nos fala este texto evangélico é cheio de vitalidade e impetuosidade como os jovens. Na verdade o texto diz-nos que veio a correr até Jesus, ajoelhou-se e pergunta: que hei-de fazer para ter a vida eterna? Não deixou para amanhã o que podia fazer hoje. A pergunta que trazia no coração necessitava de uma resposta urgente. O sentido da nossa existência e importante demais para o adiarmos.
Mas a quem se dirigir? São tantas as ofertas de sentido que se oferecem. Mas há uma que atrai o jovem: aquela daquele profeta da Galileia que fala com uma autoridade diferente da dos escribas e dos fariseus; aquele Senhor que confirma a palavra com a vida. O homem não se dirige a qualquer um, dirige-se a Jesus de Nazaré. E aproxima-se de Jesus como um aprendiz com o lápis e o caderno na mão para tirar todos os apontamentos e não se esquecer de nada e pergunta-lhe: como posso ser feliz? Como posso realizar-me?
Cumpre os mandamentos! É a resposta de Jesus. E o jovem quase interrompendo o discurso de Jesus responde: já os cumpro. E Jesus não responde apressado como o jovem. Diz-nos o texto que Jesus olhou para ele com ternura. E do amor de Jesus pelo jovem surge a resposta para a verdadeira felicidade e realização pessoal: “vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me”.
Aqui é que surge o problema! Problema de ontem, de hoje e de sempre! A verdadeira felicidade passa pela misteriosa sabedoria do grão de trigo que tem que morrer para dar muito fruto. A verdadeira felicidade passa pelo renunciar a si mesmo, tomar a sua cruz e seguir Cristo.
Jesus diz que para ter a verdadeira qualidade de vida eu tenho de entrar nesta lógica de partilha, de solidariedade, de comunhão, de vida vivida numa fidelidade total a Deus e aos irmãos.
A proposta de Jesus não agradou a este homem e ele foi embora. Este homem que antes era entusiasta, cheio de vida e de vontade de fazer algo de útil da sua vida vai embora triste e pesaroso. A vida para ele deixou de ser bela, deixou de viver com entusiasmo. E isto porque? Diz-nos o texto: “porque era muito rico”. Fascinado pelas coisas do mundo tornou-se insensível a voz do Espírito e trocou aquilo que verdadeiramente queria, a felicidade de uma vida realizada, por um sucedâneo: a alienação do ter. Quantos de nós também hoje não somos como este homem. Alienados pelo ter, pelo prazer e pelo poder recusamos aquele bem que mais ansiamos: uma vida com qualidade.
Jesus adverte: “Como será difícil para os que tem riquezas entrar no reino de Deus!”. Na verdade, entrar na dinâmica do reino é entrar na dinâmica da partilha, da doação e da solidariedade. Viver os valores do Reino exige que se renuncie ao egoísmo e à escravidão em que os bens matérias nos têm presos. E isto é algo difícil. Difícil mas não impossível, “porque a Deus tudo é possível”. A acção de Deus pode mudar o nosso coração e levar-nos a optar bem. Temos de saber pedir, como nos recordava a primeira leitura deste dia, a verdadeira prudência e a sabedoria.
Parece que este relato acaba com um tom marcadamente pessimista. A história não acaba com um final feliz como nas novelas. Talvez também isto para nos alertar que a nossa vida é um dom e desafio e nós temos que fazer escolhas na nossa vida. A minha vida é uma aposta que tenho de fazer, uma aposta não de quantidade mas de qualidade.
Deixemos que a Palavra de Deus, “viva e eficaz, mais cortante que uma espada de dois gumes”, escutada neste Domingo, seja para todos nós uma palavra transformadora, uma palavra que nos liberte da escravidão do ter e nos insira na dinâmica da solidariedade e do seguimento Jesus, único caminho para uma vida plena e realizada.
P. Nuno Ventura Martins
missionário passionista
