
Salmo: Sl 125, 1-2ab. 2cd-3. 4-5. 6;
2ª Leitura: Hebr 5, 1-6;
Evangelho: Mc 10, 46-52.
Num mundo marcado por tantos sofrimentos e tristeza, não são poucos aqueles que dizem que Deus se esqueceu de nós ou nos abandonou. No entanto, a liturgia da Palavra deste XXX Domingo do Tempo Comum assegura-nos que isto não é verdade. Mesmo nos momentos mais conturbados e complicados da história, Deus está connosco e caminha connosco oferecendo-nos sempre caminhos de salvação, caminhos de vida plena e realizada.
Jeremias, na primeira leitura deste dia, assegura-nos que Deus é “um Pai para Israel”, pai esse que se empenha em salvar o seu povo, em fazer que o seu povo regresse, no meio de consolações, à sua terra. Deus quer conduzir o seu povo às aguas correntes. E toda esta acção libertadora de Deus deve conduzir o povo à alegria e o louvor. Na verdade, é um novo êxodo que se promete e realiza. Deus sempre preocupado com a vida e a felicidade do seu povo oferece a libertação e a salvação ao seu povo.
O profeta ao descrever a salvação que Deus vai conceder ao seu povo refere-se a quatro figuras: o cego, o coxo, a mulher que vai ser mãe e a mulher que já deu à luz. A imagem do cego e do coxo evocam uma situação de debilidade, mas ao dizer que também a esses Deus reunirá e conduzirá à terra está a dizer-nos que Deus é capaz de libertar o povo de todas as debilidades. Por sua vez, as imagens das mulheres, uma que está para ser mãe e outra que já deu à luz, são símbolo do futuro novo que Deus quer conceder ao seu povo. Poderão ter de passar por momentos de dor, como a mulher ao dar à luz, mas depois desse sofrimento passageiro o que tem lugar é a vida, a felicidade e a esperança. Toda está leitura deixa bem clara a solicitude e a preocupação de Deus pelo seu povo, especialmente, nos momentos em que o povo mais necessitado está da salvação e da ajuda de Deus.
Na plenitude dos tempos, esta solicitude e cuidado de Deus pelo seu povo ganhou um rosto muito concreto: Jesus de Nazaré. Na verdade, como nos recorda a segunda leitura deste dia da epístola aos hebreus, Cristo é o sumo-sacerdote, fiel e misericordioso, que Deus enviou ao mundo para restabelecer a comunhão perfeita entre Deus e os homens.
No Antigo Testamento, a figura do sumo-sacerdote era muito importante. Na verdade, o sumo-sacerdote era considerado o intermediário principal das relações entre Deus e os homens. Através da aspersão do sangue no propiciatório, no dia da Expiação, o sumo-sacerdote alcançava o perdão de Deus para todo o povo. Assim sendo, a figura do sumo-sacerdote aparece como alguém que é escolhido por Deus, tomado entre os seus irmãos e constituído mediador entre Deus e os homens. O sumo-sacerdote é alguém que apresenta a Deus o arrependimento dos homens e traz de Deus até aos homens o seu perdão.
O autor da carta aos hebreus diz-nos que o sumo-sacerdote por excelência é Cristo. Na verdade, pelo facto de ser Filho de Deus, a sua acção sacerdotal tem uma dignidade e qualidade mais elevada, uma vez que como Filho de Deus está sempre em comunhão com Deus Pai.
Por outro lado, pela sua encarnação, Jesus também é verdadeiramente homem e por isso conhece bem a debilidade, a fraqueza e a fragilidade própria dos humanos e por isso pode compadecer-se dos homens.
Assim sendo, pelo facto de ser verdadeiro Deus e verdadeiro homem, Jesus é o sumo-sacerdote por excelência. A sua humanidade permite que ele seja compreensivo com os homens e a sua divindade permite que ele esteja sempre em comunhão com o Pai.
É Jesus o sumo-sacerdote por excelência, aquele que melhor nos mostra a solicitude de Deus Pai por todos os seus filhos. Prova disto é o relato evangélico deste domingo que nos narra a cura do cego Bartimeu à saída de Jericó. Magnífica lição de catequese que nos quer levar até Jesus o único capaz de nos fazer a vida com outros olhos e outro entusiasmo é este relato de Marcos.
Começa o evangelho deste dia com a descrição de Bartimeu: cego, Filho de Timeu (isto significa o seu nome), sentado (porque quando Jesus o chama ele levanta-se) e a pedir esmola. Os cegos eram uma categoria de pessoas desprezadas pelos israelitas. Na verdade, segundo a mentalidade de então, as doenças eram vistas como uma consequência do pecado do homem e a cegueira, de uma forma especial, era considerada uma consequência de um pecado grave. Tal situação levava os cegos a serem excluídos da vida social e religiosa: não podiam ser testemunhas e estava-lhes vedado o acesso às cerimónias religiosas no templo. O cego deste texto aprece assim como um símbolo daqueles que a mentalidade de então considerava impuros e pecadores e a quem, segundo eles, estava vedada a salvação.
Bartimeu estava sentado à beira do caminho a pedir esmola. O facto de estar sentado denota que o cego está numa situação de conformismo com a sua triste realidade. Sente-se incapaz de por si só sair da triste realidade em que vive e por isso pede esmola mostrando claramente a situação de dependência em que vive.
No entanto, tudo muda com a passagem de Jesus. Ao ouvir dizer que Jesus de Nazaré passava ao seu lado ele gritou: “Jesus, Filho de David, tem piedade de Mim”. Na verdade, é sempre isto que acontece quando Jesus passa na nossa vida. Quando Jesus passa por nós sentimos a nossa vida transformada, porque ele nos desinstala de tantas escravidões e cegueiras e devolve-nos o gosto pela vida. E é assim que o cego grita: “Jesus, Filho de David, tem piedade de Mim”. Era Timeu o cego, mas foi Timeu que conseguiu ver mais além das aparências. Ele não vê com os olhos físicos Jesus de Nazaré, mas, com os olhos da fé, invoca-o como o Messias, como o Filho de David.
No entanto, a multidão que o rodeia tenta impedir Bartimeu de se dirigir a Jesus. Ainda hoje continua esta situação. São tantas as resistências e os obstáculos que a nossa sociedade, os nossos preconceitos e os nossos medos nos colocam quando decidimos deixar a vida de antes e aderir a Cristo. No entanto, como o cego Bartimeu, ante as dificuldades que surgem, não devemos desanimar e desistir mas gritar mais alto: “Filho de David, tem piedade de Mim”. E devemos continuar a gritar porque podemos ter a certeza que os nossos gritos não são insensíveis a Deus. Ele escuta-nos e chama-nos até Ele como chamou Bartimeu. E chama-nos muitas vezes não de uma forma directa mas através de mensageiros, como chamou a Bartimeu. Mensageiros esses que não nos dizem palavras de repreensão, de censura e de desânimo mas palavras de coragem e esperança: “Coragem, levanta-te, que ele está a chamar-te”. Diz-nos o texto que tais palavras provocaram no cego uma explosão de alegria: “o cego atirou fora a capa, deu um salto e foi ter com Jesus”. O sentirmo-nos amados por Deus transforma a nossa vida. Quando sentimos que Deus se interessa por nós podemos deitar fora a nossa capa, ou seja, tudo. Ao deitar fora a sua capa, Bartimeu deixa o que tem para ir ao encontro com Jesus, corta com o passado.
Jesus pergunta-lhe, como tinha perguntado na semana passada a Tiago e João: “Que queres que te faça?” Os dois irmãos pediram poder e gloria e não viram os seus pedidos atendidos. No entanto, o cego pede ao Senhor para ver, pede ao Senhor que passe a ver a vida a partir de outra luz, com outros olhos. E a tal pedido, feito com fé, Jesus acede e a partir desse momento o cego começou a ver, começou a ver de outra maneira porque logo que recuperou a vista “seguiu Jesus pelo caminho”.
Quando Jesus passa pela minha vida, tudo se transforma. Quando me encontro com Jesus passo a ver a vida de outra maneira e sei que só seguindo Jesus pelo caminho da cruz é que posso chegar à ressurreição, à vida plena e feliz. Que o encontro por excelência que fazemos com o Senhor Jesus em cada eucaristia transforme as nossas vidas e abra os nossos olhos levando-nos a segui-lo pelo caminho da cruz.
P. Nuno Ventura Martins
missionário passionista
